Canadá debaixo da terra: conheça o bunker de Ottawa que virou museu

Quando começou a ser erguida na minúscula Carp, no Canadá, aquela construção secreta causou curiosidade na população desse vilarejo rural a 36 km do centro de Ottawa, na província de Ontário.

Sob a encosta de uma colina local, os moradores viam crescer um imenso buraco com quatro andares de profundidade localizado em uma área de mais de nove mil m² que envolvia mais de mil trabalhadores.

O que não se sabia é que o pequeno e discreto galpão de zinco, que até hoje é a única estrutura que pode ser vista do lado de fora, escondia um mundo subterrâneo chamado Diefenbunker, um complexo sistema militar construído pelo governo canadense para dar continuidade às estratégias bélicas após qualquer ataque inimigo que se tornava cada vez mais possível com o aumento de estoque de armas nucleares em mãos soviéticas e o alto desenvolvimento da Guerra Fria, nos anos 50.

Declarado Patrimônio Histórico do país, o local é o endereço canadense mais importante do período da Guerra Fria e, atualmente, funciona como um inusitado museu subterrâneo.

(foto: Eduardo Vessoni)
(foto: Eduardo Vessoni)

No Diefenbunker: Museu da Guerra Fria é possível visitar o corredor com 115 metros de extensão que dá acesso ao nível 400, como era chamado o primeiro dos quatro andares subterrâneos que seguem sob os pés do visitante; o Centro de Controle de Mensagem, onde era produzida toda a comunicação com o mundo do lado de fora; e diversos outros ambientes que ofereciam serviços e abrigo seguro para os internos que chegam a ficar isolados por mais de 30 dias.

A aquele mundo subterrâneo contava com serviços que independiam de ajuda externa como um minúsculo e bem equipado consultório dentário, um centro médico com laboratório e sala de isolamento, e uma pequena enfermaria com camas presas ao chão para evitar movimentos no caso de algum tremor no edifício causado por ataques inimigos.

E se o ambiente soar cinematográfico, pode ter certeza que não se trata de efeitos cenográficos. Ali foram gravadas uma das cenas do filme ‘A soma de todos os medos’, suspense policial com Morgan Freeman e Ben Affleck que, como não poderia ser diferente, tinha como protagonista um agente da CIA responsável por evitar um ataque terrorista que provocaria um conflito entre os Estados Unidos e a Rússia.

O bunker em números

  • O Diefenbunker, um audacioso projeto arquitetônico do coronel Edward Churchill, funcionou entre 1961 e 1994;
  • O local possui uma quantidade de aço três vezes maior do que o usado, normalmente, em edifícios do gênero;
  • Sua estrutura principal guarda, aproximadamente, 60 mil toneladas de concreto, capaz de suportar a detonação de uma bomba de até cinco megatoneladas, o equivalente a um milhão de toneladas de dinamite;
  • O edifício possui 17 metros de altura, aproximadamente, e conta com paredes de 76 centímetros de espessura;
  • O bunker levou dois anos para ser concluído e custou ao governo canadense entre 20 e 50 milhões de dólares canadenses da época;
  • Fechado em 1994, o local funciona como Museu da Guerra Fria desde 1999.

E por que o temor de uma invasão no Canadá?
O Canadá possuía pistas concretas de que o país estava na mira do inimigo soviético e seus aliados da Cortina de Ferro.

Um dos personagens históricos destacados no museu é Igor Gouzenko, um criptógrafo da Embaixada da Rússia, em Ottawa, que em 1945 conseguiu provar que o Canadá estava sob a mira da União Soviética. Com 109 documentos secretos roubados da embaixada, Gouzenko foi responsável pela prisão de diversos suspeitos de espionagem e, ao fazer denúncias em entrevistas para a televisão, aparecia encapuzado por temer a morte. Em 2000, dezoito anos após a sua morte, as ações do desertor russo foram reconhecidas pelo governo canadense como um evento de importância nacional.

Canadá debaixo da terra: conheça o bunker de Ottawa que virou museu
Boneco em homenagem a Igor Gouzenko, personagem que teria causado o início da Guerra Fria

Acredita-se que sua deserção, que causou grande comoção em todo o mundo ocidental e deu origem a um sentimento extremado de caça aos comunistas em todo o Canadá, teria sido o estopim para o início da Guerra Fria.

Ottawa era considerada um alvo fácil não apenas por ser a capital do país, mas também por abrigar a sede do departamento de defesa de todo o território canadense e pelo fato das Forças Armadas terem armas nucleares em seu poder, embora o país nunca tenha produzido, diretamente, tais artefatos.

O Canadá é também um dos membros fundadores do NORAD, sigla em inglês para Comando de Defesa Aeroespacial da América do Norte, uma organização em parceria com os Estados Unidos de controle e defesa aeroespacial de ambos países que conta com redes de satélites, radares terrestres e aerotransportados para detectar e interceptar possíveis movimentos suspeitos nos céus da América do Norte. A criação desse comando bilateral, em 1957, bem com o surgimento da OTAN, oito anos antes, seriam outros dos motivos pelos quais o Canadá estivesse na mira inimiga.

Dicas de visita
A visita é uma oportunidade única de conhecer um dos capítulos mais importantes da história recente do Canadá, porém prepare-se para uma experiência claustrofóbica e com forte impacto visual;
Vá com roupas confortáveis, pois a complexidade do local exige longas caminhadas por corredores, acessos por escadas e elevadores
Não existe transporte público até o local, de modo que o mais recomendado é contratar o serviço de alguma agência de turismo local ou alugar um carro em Ottawa, a 36 km do local;

SERVIÇO
DiefenBunker
3911, Carp Road (Carp, Ontário)
Ingresso: $14
Diariamente, das 11h às 16h
www.diefenbunker.ca

 Saiba mais sobre Ottawa

texto e fotos: Eduardo Vessoni

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