Acampamento ao ar livre é um dos destaques na Antártica

Como repórter de turismo já provei algumas das mais curiosas experiências em nome de uma pauta inusitada para um mercado editorial que não se cansa de falar dos mesmos destinos em meses de férias.

Cruzei o interior de São Paulo seguindo a rota dos bandeirantes por 240 km trilhados em 11 dias; sobrevoei de balão as mais altas dunas do deserto da Namíbia; vi animais endêmicos rodeando minha cabana em um parque nacional da Tasmânia; cruzei secretos corredores subterrâneos que cortavam Sarajevo durante a guerra da Bósnia; já nadei nu nas águas geladas do Danúbio, em pleno verão austríaco; e fui longe em um ritual xamânico em uma comunidade indígena da Amazônia peruana.

Nestes anos dedicados ao jornalismo de viagens (mais de alma do que de corpo, por conta da preguiça que tenho com os monótonos preparos físicos prévios a viagens de aventura), pisei em todos os continentes e achei que já tinha tido a oportunidade de escrever sobre as mais inusitadas experiências (bom… pelo menos para o meu padrão de ineditismo).

Mas acampar na Antártica, como naqueles documentários sobre sofridas expedições polares, entrou, definitivamente, para a primeira posição da lista das experiências mais marcantes da vida (e não estou falando apenas das baixas temperaturas que, por vezes, enrijecem os dedos).

foto: Eduardo Vessoni
foto: Eduardo Vessoni

Desembarcamos sob neve forte em Paradise Harbour, na Península Antártica, com um cenário que eu duvidava ser adequado para uma atividade, digamos assim, tão selvagem e ao livre. Deixei o barco desconfiado, ainda com o gosto amargo de um montanhismo mal sucedido que nos levaram pela manhã.

A embarcação foi ficando para trás, enquanto o zodiac (aqueles típicos botes infláveis) ia desviando de icebergs que interrompiam a passagem, em um carregado trânsito antártico de blocos de gelo como obstáculo. A neve ainda caía forte, as mochilas negras já se pintavam de branco e as lonas vermelhas e amarelas das barracas iam ganhando novos tons.

Entre cordas enroladas e armações que pareciam não se encaixar, os intrépidos recém desembarcados iam, lentamente, armando sua moradia provisória para aquela noite. E o que era uma imensa plataforma branca foi se pintando de iglus coloridos aos pés de montanhas geladas.

Final de tarde em Paradise Harbour, na Antártica(foto: Eduardo Vessoni)
Final de tarde em Paradise Harbour, na Antártica(foto: Eduardo Vessoni)

O grupo se agita, pegadas fundas se cruzam na neve, alguns estendem o saco de dormir para uma noite a céu aberto diante da baía (certos viajantes levam a sério esse história de turismo de aventura).

Um casal de focas-de-wedeel dorme bem ao lado do acampamento (já em área proibida para forasteiros), outra ainda mais perto se exibe e paralisa os campistas do gelo; um ruidoso grupo de pássaros se esquece que não existe noite no verão antártico e seguem em trabalho (musical) durante todo o tempo. O único rastro humano é uma pequena base científica argentina, Bryde, que segue no mesmo ritmo de sempre.

À meia noite, o sol ainda risca o céu no horizonte e eu ensaio dormir. Deito dentro do saco acolchoado, escrevo umas poucas letras no bloco de notas e acho que já é hora de dormir. Naquelas terras não é permitido comer em solo, fazer barulho, caminhar além das bandeiras que delimitam a área de acesso humano, fumar ou qualquer outra atividade que faça a gente passar o tempo.

Virei dentro do saco de dormir por mais de duas horas, impedido não só pelo impacto do visual lá de fora que ainda me chamava para fotos, mas pelo frio que nem as duas meias térmicas deram conta de amenizar.

Ficaria sabendo no dia seguinte, já de volta ao barco que servia de base, que o mais recomendado é usar dois sacos de dormir. Agora eu entendi porque tinhas duas unidades naquelas sacolas imensas que cada passageiro era obrigado a carregar até o acampamento.

Consegui me segurar até às duas da manhã, quando a vontade de ir ao banheiro já não me permitia mais me concentrar em nada. Voltei a vestir as botas (a única vestimenta que tive coragem de tirar para dormir) e encarei a realidade antártica do lado de fora até o banheiro químico às margens da baía local.

E foi ali que descobri que dormir não deve ser prioridade em terras tão geladas e distantes. Sobretudo quando cenários como esse se escondem para quem consegue dormir.

Sobre a viagem
Esta é uma das atividades de aventura oferecidas aos passageiros que navegam em direção à Península Antártica, uma das regiões mais populares entre viajantes que visitam a Antártica. 

Viajei no Plancius, um antigo navio quebra-gelo da Marinha holandesa adaptado para viagens polares no Ártico e na Antártica. Entre atividades como montanhismo, prática de caiaque, mergulho e visita a colônias de pinguins, a embarcação singra impressionantes canais estreitos, navega no interior de um vulcão na Deception Island e chega a isoladas estações científicas.

A curta temporada de turismo no Continente Branco vai de novembro a março quando a temperatura é mais alta (aproximadamente, -2º durante o dia) e os animais são abundantes na região

Mais informações
Oceanwide Expeditions

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