Crônica: Pole dance a 45° de inclinação, em pleno alto-mar

Passei as últimas semanas respondendo a perguntas sobre temperaturas extremas, pinguins e outros bichinhos simpáticos da Antártica, e questionamentos excitados sobre a experiência de pisar aquelas terras distantes e geladas.

Mas toda grande aventura tem seu preço e, no caso da Antártica, a taxa se chama Passagem de Drake.

Da arte de caminhar a 45 graus, durante a Passagem de Drake
Da arte de caminhar a 45 graus, durante a Passagem de Drake

Drake é um agitado corredor oceânico onde se encontram as águas dos oceanos Pacífico e Atlântico, entre a América do Sul e a Antártica. Considerada a zona marítima com as piores condições de navegação do mundo, o Drake é o caminho mais rápido (e turbulento) até o destino. “Desculpe, mas isso é parte das regras do jogo”, já vai explicando o capitão do barco M/v Plancius, ainda no Ushuaia.

A embarcação que parecia deslizar sobre o Beagle se agita com as ondas violentas que fazem o navio assumir status de montanha russa.

O cruzamento por esta  região temida começa quando a noite chega de vez, logo após o jantar.  As águas relativamente calmas do Canal de Beagle se agitam com o encontro animado das águas dos dois oceanos. A partir de agora, os passageiros começam a pagar a taxa que o Drake cobra para liberar o acesso ao continente gelado.

No dia seguinte, a tripulação acorda bêbada e sem horizonte.

Dizem que em travessias sobre mar revolto, o ideal é focar sempre em um ponto distante. Mas cadê o horizonte? Ainda estamos sobre o Drake e todos, sem exceção, acordam embriagados pelo movimento violento daquelas águas profundas.

Ninguém consegue dar dois passos sem desafiar a lei da gravidade e deslizar até o apoio mais próximo. Seja uma parede, um corrimão ou até mesmo a bandeja da máquina de café do lounge.

Forcei um café da manhã, mas o cheiro do pão (e de qualquer outra coisa tivesse odor) me enjoou. Insisti em um capuccino na máquina de expresso. Mas antes de chegar até o aparelho, cambaleei, rodopiei ao redor do ferro de apoio no meio do salão e, ali mesmo, ensaiei um pole dance ridículo antes de cair, constrangido, sobre o sofá.

Ali mesmo, desisti de qualquer outra exploração no navio e voltei para a cabine para passar o resto do dia na horizontal (sei lá se isso é bom, mas pelo menos o iogurte do café da manhã parou de subir e descer no corpo).

As cortinas das beliches nas cabines correm sozinhas pelo trilhos, cadeiras deslizam sobre o chão acarpetado do restaurante e pessoas desenvolvem a curiosa habilidade de andar a 45 graus por corredores e salas sociais. Eis o Drake cobrando, outra vez, o pagamento de sua taxa.

Não era aventura que os viajantes queriam? Eis a montanha russa sobre o mar.

'Drake': a palavra que faz todo navegador tremer (e enjoar)
‘Drake’: a palavra que faz todo navegador tremer (e enjoar)

O estrago causado pela Passagem do Drake é contabilizado também na hora do almoço. O número de passageiros cai vertiginosamente (sem trocadilhos, por favor) pela metade nas refeições seguintes. Da cabine quádrupla que dividi com outros três passageiros, ninguém se atreveu a comer sequer uma inocente maçã. E, no almoço, apenas dois marcaram presença (inclusive eu, quem se arrependeu até o último pedaço de profiteroles).

Na minha cabine, havia um argentino exageradamente hipocondríaco que plantava seu próprio mate orgânico (que ele fez questão de deixar bem claro que não havia nenhum tipo de tóxico na mistura); um  australiano calado de Adelaide que até hoje eu não sei qual era a dele; e um professor chinês de Hong Kong que não sabia onde era o Brasil (com este logo cortei relações por questões ufanistas).

O barco tende para a direita, vai com força para a esquerda, é lançado para trás, para frente, e toda refeição começa a fazer estragos. Você sabe que é hora de fortes emoções internas quando os funcionários começam,  como quem não quer nada, a pendurar saquinhos, nos corredores, para os mais sensíveis.

Outro dia de navegação e os viajantes seguem embriagados, embora agora apresentem uma certa classe ao caminhar. Todos já são capazes de deslizar pelo restaurante com pratos e copos de suco na mão, e caminham pelos corredores estreitos sem o apoio em corrimãos ou paredes.

É certo que o Drake continua rebelde e, entre uma calmaria e outra, joga comensais do lado direito do restaurante para a ponta oposta do salão, enquanto os outros esperam a sua vez de fazer o caminho inverso.

Ironicamente, nesta tarde, os funcionários do bar saíram espalhando cartazes pelo navio oferecendo bebidas alcoólicas com 50% de desconto para que todos se preparassem para a temida passagem. Exceto uns ingleses e irlandeses, ninguém se arriscou no convite.

O recadinho irônico (e pouco animador) que a tripulação preparou para os embarcados
O recadinho irônico (e pouco animador) que a tripulação preparou para os embarcados

No final do dia, a viagem começa a se tranquilizar, porém ainda é capaz de arrancar com violência o horizonte de quem olha pelas janelas do navio. A viagem agora segue no ritmo lento de quem está cada vez mais próximo da Antártica.

E você sabe que vai chegando a hora de desembarcar quando o Drake fica para trás e as primeiras baleias cruzam o horizonte do navio.

Melhor assim. Baleias no horizonte e iogurte no seu devido lugar.

Sobre a viagem
Viajei no Plancius, um antigo navio quebra-gelo da Marinha holandesa adaptado para viagens polares no Ártico e na Antártica. Entre atividades como montanhismo, prática de caiaque, mergulho e visita a colônias de pinguins, a embarcação singra impressionantes canais estreitos, navega no interior de um vulcão na Deception Island e chega a isoladas estações científicas.

Mais informações
Oceanwide Expeditions

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