Flor de Sarajevo

por Eduardo Vessoni

A capital da Bósnia segue ferida como se a última bomba inimiga acabasse de ser estourada sobre sua cabeça.

Mais de 20 anos depois, Sarajevo ainda vê fachadas de edifícios históricos sangrando com as marcas de fuzis que até hoje furam o concreto; bondes elétricos de passado soviético ainda deslizam sobre trilhos velhos; e a população continua pagando com sacrifício pelo isolamento e destruição dos anos de confrontos que aconteceram no país entre 1992 e 1995.

Sarajevo, capital da Bósnia
Sarajevo, capital da Bósnia (foto: Eduardo Vessoni)

Fiz questão de forçar uma passagem pela cidade durante uma longa (e apressada) viagem de três meses na Europa e voltar para casa com o maior número possível de reportagens sobre experiências inusitadas do setor turístico.

Vida de jornalista freelance tem dessas coisas. Quanto mais cansativa e com menos horas de sono, mais a alma parece ficar em alerta para as experiências pautáveis.

Poucos lugares dessa turnê (como uma vez definiram minhas viagens de longa duração) conseguiram bater tão forte na alma do jornalista como Sarajevo.

Quando anunciei para os amigos que viajaria à Bósnia, fui recebido com rostos que expressavam espanto e temor. Uns se calavam diante da notícia (por pena, talvez). Outros me preguntavam, com um atraso de duas décadas, “mas e a guerra?”

Os mais eufóricos (e neuróticos) soltavam um sonoro: “Bósnia? Mas o que você vai fazer lá?”

De todos os questionamentos (com os quais me divirto até hoje pelo grau de ingenuidade), o que mais me marcou foi o do irmão de uma amiga: “Você vai pra a Bósnia? Quer emprestado um colete a prova de balas?”

Tivesse ele me dado tal objeto inútil para uma viagem à Bósnia e teríamos mantido a amizade por mais tempo. Naquele momento, recém casado, ele partia com a esposa para uma daquelas viagens à Europa em que uma dezena de países do Velho Continente cabe, sufocantemente, em 10 dias.

Pelo que me lembro, a capital francesa era uma das paradas do casal. Fui logo avisando que acabara de passar por Paris pela primeira vez e que eu tinha odiado a tal Cidade Luz. E fim de papo.

Localizada na multicultural e conflituosa Península Balcânica, a Bósnia é um trecho pobre de uma terra que começa na Eslovênia, que por ter vizinhos mais ricos escapou em quatro dias da fúria balcânica de uma guerra de quatro anos; segue para a Croácia, onde o passado bélico já se mostra mais explícito, ainda que o turismo tenha produzido a imagem de um país que parece folheto de pacote de agência de viagens; e segue até seus extremos com países como Albânia, a oeste, e outras nações que ainda agonizam com o fim da esperada (e estúpida) Grande Sérvia que nunca, de fato, se concretizou, frustrando a ideia de uma unificação dos Bálcãs idealizada pelo genocida Slobodan Milosevic.

Contrariando todas as teoria sobre intolerância religiosa da Bósnia, a Catedral Católica de Sarajevo está localizada na mesma rua onde estão mesquitas e sinagogas
Contrariando todas as teoria sobre intolerância religiosa da Bósnia, a Catedral Católica de Sarajevo está localizada na mesma rua onde ficam mesquitas e sinagogas (foto: Eduardo Vessoni)

E no meio daquele caos, uma Bósnia esquecida que começa a se reerguer com projetos de reforma dos edifícios históricos de Baščaršija, a região comercial da cidade, construída no século 15 e endereço de construções  como sinagogas, mesquitas e ruelas com comércio de produtos turcos.

Deixamos a Croácia no final da tarde, a bordo de um trem de carcaça envelhecida que assustava viajantes acostumados aos serviços em território europeu.

Do lado de fora, pouco para ser apreciado, exceto pela monotonia das paisagens rurais que riscavam apressadas a janela.

André e eu viajávamos sozinhos em uma cabine de surradas poltronas azuladas. Às três e meia da manhã, vencidos pelo sono que abraçara nosso medo de deixar as malas desassistidas, um oficial da polícia irrompeu nossa cabine com a mesma delicadeza e amabilidade de um antigo militar sisudo da antiga União Soviética.

Do alto dos seus dois metros, ordenou: “Passport”.

E a partir daquele momento, a ampulheta da viagem começaria a marcar os 30 minutos mais longos da minha vida.

Entregamos, desconfiados, os documentos. Pelo tremor sob os pés, sabíamos que o trem seguia em funcionamento (ainda que parado na estação na fronteira entre a Croácia e a Bósnia).

O policial de imigração deu as costas sem sequer deixar pistas do que aconteceria nos minutos seguintes. Permanecemos imóveis, de pé, entre mochilas pesadas com equipamento fotográfico, malas de roupa e um corredor estreito decorado com as tais poltronas russas que carregavam no tecido o peso dos anos soviéticos.

Logo o trem foi desligado e o silêncio que rasgou a noite me congelou o corpo. Aquilo parecia querer me lembrar que os procedimentos por ali seriam demorados.

Seguimos imóveis à espera dos nossos caderninhos de capa azulada que atestavam nossas procedências.

Vinte minutos se passaram e o trem voltou a ser ligado. Agora, as conjeturas pareciam ainda mais reais e, outra vez, o ruído da locomotiva era mais rápido do que o coturno pesado do policial que não dava sinais de voltar.

Neuroticamente precavido, pedi para que o André deixasse as malas à mão. “Nós vamos pular pela janela se o trem começar a andar”, alertei.

Fronteiras terrestres sempre foram meu fraco (alimentado por outras experiências malsucedidas em países da América do Sul com níveis de democracia pouco confiáveis).

Naquele momento, estávamos prontos para fazer malas e corpos voarem pela janela. Os trens balcânicos são velhos e ainda contam com aquelas janelas que descem, horizontalmente, até a metade e que permitiriam, facilmente, a passagem dos dois e de toda a bagagem.

Mas quando o trem ameaçou voltar a riscar os trilhos, trinta minutos depois, o policial retornou com os dois passaportes na mão e um sorriso que trazia na boca um suave “obrigado” acompanhado de um forte sotaque.

Até hoje me pergunto o que interessara aqueles oficiais bósnios para justificar tanto tempo de verificação dos documentos. Certamente, brasileiros devem ser raros por ali (sobretudo às três e meia da manhã).

'Flor de Sarajevo trabalho artísico encontrado no centro da capital da Bósnia (foto: Eduardo Vessoni)
‘Flor de Sarajevo trabalho artísico encontrado no centro da capital da Bósnia (foto: Eduardo Vessoni)

“Flor de Sarajevo” são desbotadas pinturas em tons avermelhados que são isoladas por um quadrado nas calçadas que marcam os pontos onde civis perderam a vida em bombardeios, durante a Guerra da Bósnia.

Os anos tentam apagar a tinta sobre rachaduras no chão de Sarajevo feitas pelas marcas de granadas ou de fuzis, mas aquelas intervenções artísticas sempre são retocadas e não deixam a população esquecer dos acontecimentos de mais de duas décadas atrás.

É quase impossível visitar a Bósnia sem ser tocado pelos fantasmas da história recente deste destino do Leste Europeu e isso a gente aprende ainda no trem, antes mesmo de desembarcar na cidade.

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