“Fala com Deus, vagabundo”

Fazia tempo que eu não visitava o Paraná.

Já tinha até me esquecido das particularidades linguísticas daquelas terras quentes de sotaque que se confundem entre a toada arrastada do caipira do interior de São Paulo e o ritmo galopante do português gaúcho (que me perdoem os paranaenses, mas para os daqui do Sudeste é quase impossível não confundir o sotaque gaúcho com o do Paraná. Mas a gente sabe que a rixa segue no mesmo nível do eixo Rio-São Paulo).

Nas quase 24 horas que fiquei hospedado em Curitiba, presenciei uma espécie de esquizofrenia linguística. Não me lembro desse termo durante os (sofridos) anos de Linguística na época da PUC e da USP. Mas se não existe, deveria.

Explico.

Nosso anfitrião na cidade (aliás, fazia tempo que eu não via um de nível tão profissional) sofria de uma dupla personalidade (linguística, que fique bem claro) que o fazia acordar interiorano (de São Paulo, para ser bem específico) e, ao longo do dia, ia flertando com um gauchês preguiçoso. Parece até que levava dentro de si dois anõezinhos especializados em línguas que se duelavam dentro do rapaz.

Nas ruas de Curitiba, o mesmo fenômeno. Eu nunca sabia se estava em Pindamonhangaba ou em Erechim, mesmo sem sair de Curitiba.

Nesta mesma viagem, fui para Superagui, no litoral norte do Paraná.

Superagui, litoral norte do Paraná

Na ilha, me hospedei em uma pousada de frente pro mar, onde uma das funcionárias passava a maior parte do dia sobre uma cadeira posicionada, estrategicamente, na sacada frontal da casa (o tricô social só não era mais longo, pois estava em “horário de serviço”, como ela mesma me contou).

Em uma das conversas inocentes pé na areia, me confessou que não entendia bem a diferença de cores de pele entre as pessoas. Causava-lhe certa confusão ver conterrâneos ilhéus bronzeados deixando Superagui para, meses mais tarde, voltar para casa com uma “pele de tom curitibano”, ou seja, de um branco anêmico.

Me veio então à mente um mapa do Brasil dividido por matizes regionais de cútis no lugar de estados ou cidades.

Assim, São Paulo e a capital paranaense se confundiriam em uma massa coesa de um branco sem graça conquistado no interior fechado de escritórios. O Nordeste viria destacado em um (invejado) tom amorenado de quem tem as praias mais cobiçadas do mundo bem na porta de casa.

Todo o Norte seria representado por cores acaneladas dos povos ribeirinhos amazônicos e Brasília (ah, Brasília) viria destacada com um chamativo vermelho-sangue (quem sabe aqueles caras de pau responsáveis pela má fama da capital do Brasil não se envergonhariam do que andam fazendo pelo País).

Noutra conversa descompromissada com a funcionária cromática, a moça chegou tímida no canto da roda, voz mais baixa e um certo ar de quem ia pedir um favor.

– Eu queria saber se vocês sabem o CEP daqui, disparou.

– Oi?

– É que eu moro há muito tempo aqui, mas não sei o CEP lá de casa, justificou-se.

Tudo bem que no nosso pequeno grupo de viajantes iam um jornalista de turismo com um número considerável de milhas acumuladas, uma advogada bem sucedida que já passara por CEPs curiosos como a litorânea Sua, no Equador, e a praia do Buraquinho, em Salvador; e um tradutor especializado em verter para o inglês documentos como certidão de óbito e manual de peças industriais.

Mas esperar que a gente soubesse o CEP de uma ilha isolada a 2h30 de barco do porto de Paranaguá era, no mínimo, um pedido infame para quem só queria se preocupar em escolher em qual bar seria a próxima rodada de cataia, a cachaça local.

Me comprometi a entrar no site dos correios, caso ela pudesse esperar até a manhã seguinte, mas o tradutor atropelou a minha fala e sugeriu:

– Pega na sua conta de luz, disse com certa obviedade.

A funcionária corou e se desculpou. Fica assim, não, moça. Tradutores sempre dão um jeito de achar uma palavrinha para traduzir aquilo que a gente não sabe (nem que seja algo tão  óbvio como uma conta de luz).

Morretes

Antes da parada na ilha, passei por Morretes, destino histórico pertinho de Paranaguá. O calor derretia as ideias, os pés se arrastavam preguiçosos sobre o cimento quente e na calçada, com roupas sujas e cabelos emaranhados, Deus dormia no chão.

Como?

Sim, Deus. Logo atrás, um grupo pequeno de meninos brincava na rua como nestas típicas cidades interioranas onde o espaço público é quase uma extensão obrigatória de casa.

Um grito mais animado, um chute de bola descompromissado na parede quase em ruínas de um casarão antigo. Eis que Ele se levanta rápido e emite um som incompreensível.

Sem entender, as crianças seguem brincando até que o maltrapilho ordena:

– Fala com Deus, vagabundo.

O moleque abre um sorriso de meia boca e levanta o polegar em forma positiva para saudar a divindade que acabara de cruzar seu caminho.

O mendigo, digo, Deus, até tentou continuar a conversa, mas os meninos pareciam poucos fieis.

Das duas, uma. Ou aquelas crianças crescerão orgulhosas com a experiência de dar de cara com uma figura tão esperada pelos religiosos mais fanáticos ou serão ateus na idade adulta depois da frustração de encontrar um Deus tão mal cheiroso e sem papas na língua.

Já pensou se isso pega nas igrejas mais ortodoxas?

Vagabundos, abris sua bíblias no capítulo X, versículo Y. Ou ainda: Vagabundos, o Senhor é nosso pastor e nada nos faltará.

Naquele estado deplorável em que se encontrava Deus (sujo, bêbado e com vocabulário pouco adequado para ambientes religiosos e infantis), quem via de fora acreditava muito mais estar diante do capeta.

Aliás, acabei de lembrar que aquele amigo da amiga costuma definir os curitibanos como as “bestas dos pinheirais”. Para ele, os habitantes de uma cidade que acha que tem o melhor de tudo só pode ser uma verdadeira… besta.

Tem até uma rede de restaurantes que se orgulha com o letreiro dourado onde se lê the best burguer in the world. Sem dizer que eles também acham que produzem a melhor coxinha do mundo (do mundo?).

Os paranaenses podem até serem os melhores para alguns títulos, só não andam bem informados sobre o CEP da própria casa.

E isso nem Deus sabe a resposta, vagabundos.

por Eduardo Vessoni

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