Jalapão: o deserto brasileiro

texto e fotos: Eduardo Vessoni

Às nove da manhã, os termômetros do centro de Palmas, capital do Tocantins já marcam 33 graus e anuncia o clima dos próximos dias.

Um caminhão adaptado, assim como aqueles que cortam savanas africanas, inicia a expedição por uma das regiões mais inóspitas do País: o Jalapão.

Caminhão adaptado para expedições no Jalapão, no Tocantins
Caminhão adaptado para expedições no Jalapão, no Tocantins

Longos deslocamentos sobre terreno irregular, estradas empoeiradas que parecem infinitas e atrativos naturais escondidos em áreas de difícil acesso.

E são justamente estes os melhores argumentos para deixar o lugar comum das viagens previsíveis e encarar uma das mais impressionantes aventuras por um território pouco conhecido, inclusive entre brasileiros.

As duas primeiras paradas da viagem em direção ao leste do Tocantins são pouco atraentes como Porto Nacional, a 60 km de Palmas, e Ponte Alta, cidade de 7.800 habitantes na porta do Parque Estadual do Jalapão e considerada a última cidade com estrutura para viajantes aventureiros.

O que os olhos verão a partir dali é um mosaico de paisagens que inclui áreas de transição entre o cerrado e a caatinga, falésias de 150 milhões de anos que um dia estiveram cobertas pelo mar e platôs imponentes que recortam aquele cenário extenso.

É tanta expectativa que, após os primeiros 324 km da viagem, os viajantes chegam aliviados ao acampamento.

Sem cerimônia alguma, alguns se sentem em casa, largam as bagagens dentro da tenda do acampamento e correm para a praia de água doce do rio Novo.

Outros resistem em entender o conceito de aventura selvagem com certa dose de luxo e só parecem relaxar após a primeira caipirinha servida na tenda de palha do restaurante. Esse será o cenário nos próximos dias no Safari Camp, acampamento administrado pela Korubo, empresa responsável pela mais famosa expedição do centro do Brasil e pioneira no desenvolvimento do ecoturismo sustentável na região.

Fim de tarde no Jalapão
Fim de tarde no Jalapão

No entanto, a fama do destino vem mesmo dos canais e rios que cortam essa região conhecida como o ”deserto das águas”. É desse líquido essencial à vida que vem a inspiração necessária para que até os menos intrépidos se lancem em atividades radicais no mesmo ritmo lento da correnteza do rio Novo.

Canoagem no rio Novo, no Jalapão, Tocantins
Canoagem no rio Novo, no Jalapão, Tocantins

Após o café da manhã, as instruções para a primeira atividade radical do roteiro: canoagem no rio. Entre instruções e piadinhas nervosas dos futuros remadores, os caiaques coloridos vão ganhando as águas serenas de correnteza insistente.

Os mais desajeitados vão brigando com os remos, mas o rio é paciente. Pequenas corredeiras fazem o nível de adrenalina subir, algumas paradas são programadas em bancos de areia e a viagem segue seu rumo, deserto adentro.

Pôr do sol nas Dunas do Jalapão, no Tocantins

No final do dia, o corpo já pede descanso, mas a alma ainda tem disposição para testemunhar outra fonte de inspiração: o pôr do sol sobre as Dunas do Jalapão, uma montanha de areia fina e móvel com 25 metros de altura que garante uma das mais surpreendentes vistas panorâmicas do Parque Estadual do Jalapão. E o grupo de viajantes vai se calando no mesmo ritmo em que os tons alaranjados são substituídos pelas cores frias que chegam com a segunda noite do roteiro no Jalapão.

É no terceiro dia que se compreende porque as águas são as protagonistas desse destino inserido na bacia hidrográfica dos rios Araguaia e Tocantins. Piscinas naturais alimentadas por águas correntes, pequenas cachoeiras e inúmeras veredas, uma espécie de esponja natural que acumula água da chuva e alimenta os rios da região, fazem desse o melhor e mais revigorante ponto de toda a expedição.

Os fervedouros, nascentes subterrâneas cuja pressão no solo arenoso evita que o visitante afunde, são outra experiência inusitada da região. Conhecido como ‘ressurgência’, o fenômeno das águas borbulhantes é capaz de fazer qualquer adulto virar criança nesses poços de águas transparentes rodeadas por bananeiras.

Fervedouro do Soninho
Fervedouro do Soninho

No dia seguinte, a caminhada é na Serra do Espírito Santo. A trilha até o platô deve começar cedo por conta do sol castigante do meio-dia. Mas lá do alto, outra vez, o Jalapão revela por que é uma das paisagens mais selvagens e fascinantes do Brasil. O nada e o tudo parecem dividir o mesmo território.

A trilha com subida de 900 metros íngremes e mais 3 km por terreno plano inclui vistas privilegiadas das dunas móveis que, novamente, se mostram sob outro ponto de vista, bem ao lado de sua principal fonte, as falésias de arenito com 150 milhões de anos responsáveis pelo constante crescimento de um dos símbolos desse deserto brasileiro.

O último dia é marcado pela imponência da Cachoeira da Velha, cujos 20 metros de largura renderam-lhe o título de mais extensa queda d’água da região.

A força de suas águas assustam assim como a lenda do espírito da velha que perambula pelo local (e que dá nome ao atrativo), mas alguns metros mais adiante uma prainha de águas calmas quebram todas as expectativas e refrescam os ânimos.

SERVIÇO
Quem leva
As expedições em grupo pelo Jalapão têm saídas semanais e incluem hospedagem em tendas, transporte entre as atrações, guias e refeições. Duas empresas atuam na região: a Korubo e a 0º no Cerrado

Como chegar
O Jalapão é acessível por terra, a partir de Palmas, capital do Tocantins. Deve-se seguir por 60 km pela TO-050 até Porto Nacional e de lá tomar a TO-255 até Ponte Alta. Como alternativa, o motorista deve tomar a TO-020 até Novo Acordo, a 108 km de Palmas.
Com estradas irregulares de terra e pouca estrutura, a viagem só deve ser feita em carros 4×4. A viagem independente sem o acompanhamento de agências só deve ser feita 
por motoristas experientes e com espírito aventureiro.

Para quem vai encarar a estrada, seguem algumas dicas:

– Use sempre carros com tração nas quatro rodas e com uma boa manutenção;

– Dirija a, no máximo, 60 km por hora, de acordo com o trecho a ser percorrido;

– Cidades como Ponte Alta e Mateiros são alguns dos poucos pontos que contam com posto de gasolina. Por isso, programe-se para não ficar na estrada com o tanque vazio;

– Redobre a atenção durante os meses de seca (de maio a setembro) devido aos traiçoeiros bancos de areia que se forma ao longo das estradas e que podem facilitar o atolamento do veículo;

– Além das ferramentas básicas veiculares, leve também pá e enxada, instrumentos úteis nesses terrenos, extremamente, arenosos.

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9 Comentário

  1. Eduardo que lugar maravilhoso, fiquei encantada… e os tais fervedouros, paradisíaco!!!
    Nosso país é realmente lindo!!!
    Adoro o post, não preciso nem falar sobre as fotos, que como sempre, estão um arraso!!!
    Parabéns!!!

  2. E uma pena que a comunidade do mumbuca q e um atrativo e percussora do campim dourado e com muita história linda nao esta no roteiros………

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