Aulas de português na África

por: Eduardo Vessoni

Visitei o continente africano, pela primeira vez, em 2010, para mapear as atrações turísticas do anfitrião da Copa do Mundo daquele ano, a África do Sul.

No roteiro, a versão menos selvagem do país de Nelson Mandela (certos lugares daquele país tem mais cara de Índia do que possa imaginar nossa estereotipada filosofia), a desconhecida Namíbia (onde o laranja dos desertos do sul e o verde dos parques do norte entraram para a minha lista dos destinos mais lindos em todo o planeta) e Moçambique, o incompreendido país da costa leste do continente negro que ainda tenta virar a página de seu passado violento por conta da guerra civil que assolou o país, entre 1976 e 1992.

Quem chega por ali confiante em falar português, a língua oficial de Moçambique, leva de volta na bagagem linguística a experiência de ouvir, e até arranhar, algumas palavras do melodioso changana, idioma de origem bantu falado pelo grupo étnico Tsonga.

Mas não basta dominar a versão atual (e africana) da língua de Camões. É preciso um certo esforço para compreender aquele melodioso português moçambicano que faz a gente questionar a nossa própria língua nativa. Por vezes, cheguei a questionar se eu mesmo dominava minha própria língua.

Como disse o cronista Mário Prata em uma de suas deliciosas crônicas escritas na época dos debates calorosos sobre o acordo ortográfico, ainda nos anos 90, no jornal Folha de São Paulo: “Cada um deve ficar na sua. Não dá mais para unificar nada”.

E nem que a gente quisesse. Na África, é tarefa impossível querer unificar aqueles pedaços de falares portugueses espalhados pelo continente. Para quem não sabe (ou não lembra), o português africano é falado também na Angola, Guiné Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe.

Dei um tempo no meu inglês zulu para praticar outros idiomas (ainda que se chamasse “português” mesmo). Desembarquei confiante em Maputo, a capital de Moçambique, achando que o meu brasileiro (sim, a esta altura eu já estava convencido de que a língua de cá não é a mesma daquela ouvida na beira do Índico) garantiria uma comunicação sem problemas. Enganei-me.

Larguei as malas na recepção do meu hotel no centro da cidade, na Praça Independência, e fui recebido por um moçambicano acelerado que, sem dó, disparou:

– O pequeno almoço é servido das 6h30 às 10h da manhã e
 temos virelés em todo o hotel.

Bom… pelo horário especificado concluí que aquele negro de sorriso fácil se referia ao café da manhã. Mas o virilés não saiu da cabeça. Terminei os trâmites de check-in, levei as malas para o quarto e continuei… viajando (no sentido mais figurado da palavra).

Saí para procurar um restaurante para uma primeira refeição.

A cidade ainda parece em obras. Não só pelas ruas em  um estado deplorável de conservação e pelos prédios decadentes da época em que o país flertou com o socialismo, mas também por toda uma nação que ainda tenta reerguer-se depois do passado trágico marcado por guerra civil, enchentes e terremotos.

Aliás, se você ainda não leu, coloque na lista de leituras obrigatórias o belíssimo Terra Sonâmbula (editora Companhia das Letras), escrito por Mia Couto, jornalista moçambicano nascido em Beira. A estrutura poética que costura cenas de uma Moçambique pós-independência é uma das obras mais impactantes que li nos últimos anos.

Assim como descreve o escritor em um dos capítulos da obra: “A guerra é uma cobra que usa os nossos próprios dentes para nos morder. Seu veneno circulava agora em todos os rios de nossa alma. De dia já não saíamos, de noite não sonhávamos. O sonho é o olho da vida. Nós estávamos cegos”.

Depois da digressão poética, voltemos à viagem.

Encostei em uma pizzaria improvisada (eu e minha mania de recorrer a esses paraísos gastronômicos em países onde a gastronomia não trata bem os estômagos mais sensíveis e vegetarianos, como o meu).

  • Quantos pedaços tem a pizza média?”, perguntei, ingênuo.
  • Seis”, respondeu a atendente.
  • E a grande”?
  • Seis também”.
    – “Então qual é a diferença entre a média e a grande?”, questionei.
  • A diferença é que uma é média e a outra é grande”.

Eu mereci. Perguntas idiotas merecem mesmo respostas à altura. Fiquei com a média mesmo (e uma nota “abaixo da média”, no quesito língua portuguesa).

No dia seguinte, na tentativa de puxar conversa com o funcionário do escritório de turismo onde fiz frustradas negociações para um possível apoio do governo, olhei pela janela e anunciei, preocupado:

  • Estourou um cano aqui embaixo, na rua. Tá tudo alagado”.
    – “Desculpa, não percebi”, respondeu o funcionário.

Achando que meu português começava a melhorar, ampliei a conversa:

– “Pois é, demorei um tempão para atravessar a rua por conta da água”.
– “Desculpe-me, mas ainda não percebi”, insistiu o rapaz.
– “É só olhar ali na janela que você consegue ver”, tentei mais uma vez.

E pela cara dele eu percebi que quem não tinha percebido era eu. “Perceber”, em um português pouco usado no Brasil, significa “entender”. Deu para perceber agora como o buraco, em Moçambique, é bem mais embaixo? (o do cano e o linguístico).

Minhas (divertidas) aulas de português moçambicano seguiriam também no aeroporto, em direção ao arquipélago de Bazaruto.

19

  • “Senhor, aqui está o seu bilhete”, avisou-me o funcionário da companhia aérea, após um check in improvisado no meio do salão (na verdade, uma sala apertada que parecia uma repartição pública dos anos 60 dividida por tapumes. O país andava em obras naquela época, na esperança de atrair os estrangeiros que desembarcariam para o mundial de futebol, meses mais tarde).
  • “É janela?”, perguntei, preocupado por conta das fotos aéreas que eu precisava registrar no sobrevoo sobre a ilha.
    – “Não, é passagem aérea”.

2×0 (para os moçambicanos, claro). O melhor que eu tinha a fazer depois daquela resposta tão literal (e óbvia), foi procurar um lugar para me sentar e esperar a chamada do meu voo. Afinal de contas como é que alguém pode confundir uma janela de avião com um bilhete de embarque?

Na mesma viagem, já embarcado, a comissária anunciou para os passageiros:

“Senhores, não está permitido o uso de telemóveis durante todo o voo”. E eu, como em um filme do Batman, tratei de desligar meu aparelho. Fiquei orgulhoso (essa pegadinha eu já conhecia).

Ah, e antes que eu me esqueça… Descobri depois que virilés era wireless, a tal da internet sem fio.

Se eu soubesse disso antes, teria tido mais tempo de fazer algum curso on-line de aperfeiçoamento em português (moçambicano, naturalmente).

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