5 x Paraíba

texto e fotos: Eduardo Vessoni

Certa vez, o escritor Ignácio Loyola de Brandão escreveu: “o passado vem nos buscar onde quer que a gente esteja”.

E toda vez que eu ameaço voltar para a Paraíba, é assim. A alma viaja longe e uma sequência de imagens começam a ser acessadas, novamente. 

Visitei este estado nordestino duas vezes (e, na semana passada, bateu à porta uma terceira oportunidade de voltar). 

Sua geografia árida é de tons alaranjados, áreas rurais ditam o ritmo da visita com aroma forte de cachaça, e a sequência de praias em estado (quase) selvagem convidam para uma viagem sem pressa.

Mas o melhor da Paraíba ainda é sua gente.

Isabel passou mais de duas décadas em uma gruta isolada do Cariri, Ivan está a ponto de trocar a rotina de advogado por uma vida selvagem no distante norte paraibano e Dona Rosa ainda insiste em morar sobre a montanha de difícil acesso de uma serra do Sertão.

As descrições até parecem contos imaginados em rincões isolados do interior do Brasil, mas são também capítulos de histórias de personagens reais que viajantes encontram quando desembarcam na Paraíba.

Zabé da Loca
Zabé da Loca

A vida de Isabel Marques da Silva poderia ser como a de qualquer outro morador de uma das cem comunidades rurais da paraibana Monteiro, a 300 km de João Pessoa, mas parece que o destino preferiu reservar-lhe outros capítulos para a sua história. Nascida no agreste pernambuco, essa mulher de estatura pequena e rosto marcado pelos anos sob o sol nordestino ganhou o mundo tocando uma flauta feita com um tubo de PVC.

Tornou-se Zabé e ganhou o título de ‘Rainha do Pífano’ (ou do ‘pifo’, para os iniciados).

Ela gosta mesmo é de morar no ‘mundo pedra’, como costuma descrever sua residência anterior. Durante 25 anos, Zabé morou com dois filhos dentro de uma pequena gruta (ou ‘loca’ ) encravada no alto de uma colina.

A residência rústica era como uma extensão do solo árido do Cariri. Em meio àquela geografia rígida de cactos e árvores baixas, duas pedras paralelas serviam de abrigo fixo, onde os filhos improvisaram portas e janelas feitas com taipa após a família ver o tempo consumir sua casa anterior.

Vontade não lhe falta para voltar, mas as condições precárias do local e a saúde debilitada por uma bronquite crônica e os anos de cigarro caseiro já não permitem que Zabé cruze os 200 metros íngremes entre a loca e o assentamento.

Ela gosta mesmo é de morar lá em cima. “Eu sou filha de mocó”, dispara referindo-se a esse roedor, um preá que habita regiões rochosas da caatinga.

“Eu sou de todo lugar, qualquer canto é canto”, dispara a musicista que já tem um currículo com três CDs gravados e é declarada Patrimônio Imaterial da Paraíba.

Antiga residência de Zabé da Loca

Zabé talvez não tenha consciência do alcance que conquistou nos últimos anos e continua levando a vida com a mesma simplicidade.

foto1“Eu recebo todo mundo que chega aqui na minha casa. Se tem café, nois bebe, se tem comida, nois come”, descreve enquanto dá mais um gole do café recém preparado no fogão no fundo da casa. Eu não me contive e, mesmo com os olhares de reprovação de outros moradores, pedi um daqueles cigarros que ela mesma faz questão de enrolar.

E assim, entre pedras e sopros que já saem do pífano com dificuldade, Zabé se tornou um dos símbolos da arte popular produzida em terras paraibanas.

Francisco de Paulo descreve fatos do passado com a mesma naturalidade de quem viveu capítulos históricos escritos pelas mãos de personagens que passaram pela região.

Conhecido como Chico Jó, esse senhor de barbas brancas volumosas e olhar profundo nasceu em Cruzeta, no Rio Grande do Norte, mas aos cinco anos mudou-se para Piancó, no Sertão da Paraíba, onde antigas estradas de terra rumo ao interior do sertão começaram chamava a atenção.

Chico Jó
Chico Jó

Chico Jó é considerado um dos pais de um roteiro turístico e histórico que recria a rota percorrida pela Coluna Prestes, um movimento militar que percorreu, entre 1925 e 1927, cidades do interior do Brasil em defesa de mudanças sociais em todo o País ante sua insatisfação com as políticas adotadas durante a República Velha.

Mais do que um estudioso desse período histórico, autor de um extenso projeto com mais de 80 páginas sobre o assunto, Chico parece ter olhos no futuro de sua proposta, mas sem tirá-los do passado.

Durante a sessão de fotos que fiz com ele em um trecho da estrada que liga Coremas a Piancó por onde teriam passados os membros da Coluna Prestes, pedi para Chico Jó olhar adiante como se estivesse avistando militares cruzando aquele território árido rodeado de colinas e blocos rochosos e, com olhos que pareciam perder-se no horizonte, Chico afirmou que ainda era possível ver aqueles homens caminhando ao longe como se fosse hoje.

Chico Jó

Nesta hora, afastei o dedo do botão disparador da câmera e tratei de ver, com ele, os personagens históricos do início do século passado que passavam diante dos seus olhos (e dos meus).

Basta sentar-se a seu lado para que Chico comece uma infinda sequência de detalhes acompanhada de uma lista de nomes de personagens envolvidos naquele momento histórico nacional com se fossem seus vizinhos de porta. 

Já na costa norte da Paraíba, as histórias são contadas em um tom menos acalorado do que na pequena Piancó, mas figuras como o advogado Ivan Buriti são personagens que ajudam na preservação de uma das regiões mais selvagens de todo o litoral nordestino.

Ivan é procurador do estado em João Pessoa e, nos últimos anos, tem dividido seu tempo entre defesas estaduais e questões ambientais. Dono de pousadas na Barra de Camaratuba, uma extensa área de praias desertas do litoral norte da Paraíba, esse advogado é um dos responsáveis pela criação da trilha Caranguejo Uçá, uma inusitada caminhada curta pelo interior de um mangue.

Com esse trabalho, não ganha nenhum centavo, mas desembarca com a família todos os finais de semana para acompanhar novos grupos de viajantes intrépidos dispostos a conhecerem outras versões da Paraíba.

“Isso é uma necessidade existencial. A Barra tem um poder de cura que me ajuda a serenar as ideias”, confessa antes de contar com detalhes sua ideia de transformar a região em um destino de turismo sustentável.

“Eu vivi várias vidas nestes últimos 50 anos, mas esta é a minha nova vida e pretendo planejar meus próximos 50 anos aqui em Camaratuba”, diz orgulhoso.

A Paraíba é mesmo um território de gente insistente e de histórias que seguem sendo contadas como se estivessem acontecido, ainda ontem.

São José de Princesa
São José de Princesa

Localizado no alto de uma montanha próximo à Serra do Marinho, em pleno sertão paraibano, o Sítio Livramento é considerado uma das comunidades remanescentes de quilombolas mais originais de todo o Nordeste devido ao cenário bem preservado de casas construídas com pedras.

Os negros que chegaram por ali, no final do século 17, tiveram seu refúgio protegido da visita de capitães do mato da época devido ao difícil acesso e à longa distância dos canaviais do litoral pernambucano e jazidas de ouro paraibanas próximas.

Acredita-se que aqueles heróis negros de São José de Princesa, a 460 km da capital João Pessoa e a 1135 metros de altitude, teriam adiantado em cem anos o que só seria oficializado em 1888 com a assinatura da Lei Áurea por Princesa Isabel.

São José de Princesa
São José de Princesa

Naquela paisagem seca de vias estreitas de terra moram personagens capazes de marcar para sempre quem vem de fora.

Dona Rosa Pereira dos Santos tem 78 anos e poucos anos de estudo, mas conta com detalhes o passado de seus antepassados negros como se tivesse vivido com personagens como Zé Patrício e Aiá, ‘a bela jovem negra que caiu no rio e a água levou’.

Animada com a chegada de forasteiros, figuras raras naquelas terras ainda sem estrutura para receber turistas, a negra Rosa vai emendando detalhes da época do quilombo e costura uma deliciosa rede de histórias que, se historiadores ainda não conseguiram comprovar sua veracidade, pelo menos encantam quem vem de tão longe.

“Vamos embora para as minhas pedras”, convida para conhecer sua casa, no alto de uma colina. 

Dona Rosa já tentou morar fora dali duas vezes, mas não conseguiu passar mais do que dois anos longe, mesmo diante de problemas frequentes como a seca que castiga aquelas terras alaranjadas e a falta de estrutura local.

“Meu lugar é aqui”, diz orgulhosa.

Dona Rosa e o "namorado" dela, como costuma chamar seu marido
Dona Rosa e o “namorado” dela, como costuma chamar seu marido

Curiosamente, do outro lado da Paraíba, no Brejo Paraibano, outra mulher negra fazia uma comentário semelhante um ano antes da minha visita à casa de Dona Rosa.

Conhecida como Dona Vitorinha, essa mulher de estatura frágil e quase 90 anos fora convidada para uma sessão de fotos para uma reportagem sobre turismo em Areia, cidade declarada Patrimônio Histórico Nacional, a 53 km de Campina Grande.

“Mas vocês não vão me levar daqui não, né? É que eu nasci aqui e e tenho que ficar aqui”.

Com quase 90 anos de idade e em atividade desde 1987 como funcionária de uma casa de repouso para idosos, Vitorinha lembra pouco do passado, mas faz questão de recordar histórias da família como a mãe refugiada na mata para fugir das agruras da escravidão antes de ter dez filhos e vender ovos de galinha na rua, o pai que trabalhara em um engenho mexendo mel de rapadura e o avô que vendia rapaduras produzidas pelo patrão.

O escrevinhador de matérias e a contadora de histórias
O escrevinhador de matérias e a contadora de histórias

É com relatos de figuras anônimas que este estado nordestino vai escrevendo novos capítulos de uma história que bem que poderia ser argumento de algum conto imaginado para as terras áridas do interior do País.

Mas esta é a história real de um estado ainda pouco explorado pelos viajantes do lado de cá do Brasil e que, mais uma vez, eu me preparo para (re)conhecer (e aproveitar para colocar na mala queijo coalho, farinha d’água e pimenta Da Gota).

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3 Comentário

  1. Estive la tb em Livramento,faltou a visita a Patos do Irere, terra de Marcolino e Xanduzinha…imortalisados na canção de Luiz Gonzaga…O caboclo Marcolino tinha oito boi zebu uma casa com varanda dando do norte pru sul seu paio esta xeinho de feijão. e de andu sem contar com mas os cobris la nu fundo do bau marcolino dava tudo por um xero de Xandu…

  2. Lindo texto, me emocionei de verdade. Meus pais são paraibanos: minha mãe é de uma cidadezinha chamada Esperança e meu pai é de Monteiro.
    Lendo seu post, me lembrei de tanta coisa dessa terra linda e de gente forte…nossa adorei!!!!
    Estou com muita vontade de viajar para lá nesse ano…espero que dê certo e assim como você também quero (re)conhecer lugares e pessoas 🙂

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