Ruta 40: a mítica estrada da Argentina

texto e fotos: Eduardo Vessoni

São 6h30 em Bariloche. A temperatura é baixa, o sol ainda não deu as caras e poucos se atrevem a sair na rua.

Em uma das esquinas da rua Moreno, um grupo chama a atenção: mochilas grandes jogadas na calçada e diversos idiomas se cruzam em diálogos confusos protagonizados por mochileiros de todas as partes do mundo.

Mais do que turistas, esses são os viajantes que embarcam em uma aventura com duração de três dias por mais de 1500 km de extensão: a Ruta 40.

Essa lendária estrada argentina, que une o país de norte a sul, deixou de ser apenas uma via de acesso para transformar-se em um atrativo da Patagônia andina com personalidade própria, entre Bariloche e El Calafate.

Às sete em ponto, o ônibus começa a deixar a capital nacional do esqui rumo à estrada. No primeiro dia, são 843 km de viagem cruzando cidades pequenas e isoladas que emprestam suas ruas de terra para que a Ruta 40 possa seguir seu caminho. Do total desse trecho, 113 km são sobre cascalhos.

O ônibus não conta com guias nem serviços de bordo. E quem precisa dessas facilidades turísticas quando lá fora a estrada segue paralela às imensas Cordilheiras dos Andes? Mas como ninguém é de ferro, paradas estratégicas são feitas ao longo das primeiras 12 horas de viagem, seja para o almoço ou para tirar fotos do bando de guanacos (parentes próximos das lhamas andinas) que cruza o caminho. É impossível entediar-se.

Estrada argentina com mais de 5 mil km de extensão que liga o sul ao norte do país, na fronteira com a Bolívia
Estrada argentina com mais de 5 mil km de extensão que liga o sul ao norte do país, na fronteira com a Bolívia

Construída a partir de 1935, a Ruta 40 é um produto criado pela Secretaria de Turismo argentina para promover o trecho oeste do país e já teve seu trajeto modificado diversas vezes para incluir pontos turísticos de interesse internacional, como El Calafate e seu impressionante glacial Perito Moreno, e San Carlos de Bariloche, a queridinha dos brasileiros.

Atualmente, a Ruta 40 é considerada a maior estrada da Argentina, com mais de 5.000 km de extensão, unindo Río Gallegos, no sul do país, e La Quiaca, na fronteira com a Bolívia.

São tantos os atrativos naturais ao longo da rota sul que os passageiros nem se dão conta de que o primeiro dia de viagem já está concluído. À noite, os aventureiros renovam a energia dormindo na cidade Perito Moreno.

O dia seguinte começa tarde, às 10h30. Mas quem escolhe colocar uma dose extra ao percurso, sai cedo em direção às pinturas rupestres de Las Cuevas de las Manos e encontra os mais preguiçosos no início da tarde.

O trecho a ser percorrido no segundo dia é menor, com 663 km, o que não significa que a viagem até El Chaltén será mais curta: são 12 horas sobre chão de rípio, uma espécie de cascalho utilizado na construção de estradas da Patagônia. O sacolejo do ônibus chega a incomodar, mas a tonalidade de cores que surge no horizonte da estepe adormece qualquer efeito colateral. É um dos momentos mais belos de todo o percurso.

No início da noite, a hospedagem é no Rancho Grande, um aconchegante e cálido hostel de madeira que costuma ser frequentado pelos amantes de esporte radical que chegam a El Chaltén. Sopa quente, pratos patagônicos bem servidos e alguns bons vinhos são as opções da segunda noite. É uma espécie de oásis após tantas horas de estrada.

O hostel, que oferece quartos duplos e compartilhados, está na cidade desde o início dos anos 90, quando a região ainda recebia, sem estrutura hoteleira, os poucos europeus que desembarcavam na cidade em busca de aventura. Hoje, o bar do Rancho Grande é o ponto de encontro de jovens que buscam ecoturismo sem abrir mão do conforto das grandes cidades.

Vista da Laguna de los 3, ao pé do Cerro Torre
Vista da Laguna de los 3, ao pé do Cerro Torre

Você está na capital nacional do trekking e, certamente, não vai perder a chance de visitar locais famosos de El Chaltén, como os cerros Fitz Roy e Torre. Para isso, será necessária uma breve pausa na aventura pela Ruta 40.

As saídas para a próxima e última cidade do trajeto são diárias e programadas para que o viajante possa lançar-se, primeiro, nos caminhos que dão acesso a atrações impressionantes de Chaltén como a Laguna de los Tres, aos pés dos 3405 metros do clássico Fitz Roy, e a as prateadas águas da Laguna Torre que se localizam em frente à sequência de pontas rochosas da montanha de mesmo nome.

Algumas trilhas ultrapassam os 10 km de extensão, por isso uma noite a mais nesse tranquilo povoado de 500 habitantes será fundamental antes do ponto máximo da viagem: El Calafate e o imenso Perito Moreno, um glacial de 254 km².

No último dia da viagem, percorrem-se 215 km em pouco mais de 3 horas. O tom da viagem ainda é ditado pelo clima seco dos Andes e quem chega a El Calafate renova os ares no Parque Nacional los Glaciares. Da aridez patagônica para a paisagem branca da região.

Vista do Glacial Moreno, atrativo de Calafate, uma das cidades com parada do ônibus que cruza a Ruta 40
Vista do Glacial Moreno, atrativo de Calafate, uma das cidades com parada do ônibus que cruza a Ruta 40

O parque está a 80 km do centro e oferece aventuras que vão de safáris náuticos ao paredão sul do imponente glacial a emocionantes caminhadas sobre o glacial Perito Moreno, com direito a uísque e gelo retirado ali mesmo.

A aventura parece ter terminado e, mesmo que ainda sobrem mais de 3.500 km da lendária Ruta 40 para conhecer, o viajante leva para casa a experiência única de cruzar a Patagônia como um autêntico aventureiro.

Como funciona a viagem
– De Bariloche a Calafate, a viagem dura três dias e exige deslocamentos diários que variam de 12 a 14 horas por dia;
– De Calafate a Bariloche, o trajeto completo é feito em dois dias e inclui também paradas em El Chaltén, a pouco menos de meia hora do terminal de ônibus de Calafate;
– A Chaltén Travel é a única empresa terrestre que opera a linha Bariloche–El Calafate pela Ruta 40;
– A empresa também funciona como agência de viagens e opera saídas extras pela região da Patagônia argentina como o Bosque Petrificado José Ormaechea e Península Valdés.

 

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7 Comentário

  1. Pessoal, dá uma ajuda!

    Farei de carro próprio o trecho El Chaltén-Bariloche. Eu gostaria bastante de chegar de carro a Bariloche ainda durante o dia. A paisagem é incrível. Meus planos são fazer esse trajeto em dois dias.

    Agora, onde eu devo dormir? Perito Moreno parece muito perto de El Chaltén, ainda teria muito chão para o dia seguinte. Só que ali perto tem pouca cidade.

    Alguém tem uma dica?

    • EStácio, há dois Perito Moreno: um se refere à cidade que se chama Perito Moreno. Já o outro é o famoso glacial chamado Perito Moreno, cuja porta de entrada para visita é El Calafate. São duas coisas diferentes.

      • Oi Eduardo, sim! Obrigado por lembrar. Inclusive já comi um filé horrível num pequeno restaurante na cidade de Perito Moreno. Cidade bonitinha.

        Eu vou visitar o glacial antes de subir para El Chaltén. Depois de Chaltén meu destino é Bariloche. No caminho fica Perito Moreno, a cidade. Só que ela está a 586 km de onde eu sairei. Ficaria muita coisa até completar os 1385 km até Bariloche no dia seguinte.

        Minha dúvida está em qual cidade dormir depois que passar pela cidade de Perito Moreno.

        Muito obrigado pela ajuda!

  2. Oi, você sabe informar o valor dessa viagem de Bariloche para El Calafate e o contrário?
    Estou com um pouco de dificuldade com o site da Chalten Travel.

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