Haja fígado

Dia desses fui parar no Vale dos Vinhedos, na Serra Gaúcha.

Não que tenha sido uma escolha minha. Fui a trabalho e confesso que o destino nunca foi minha prioridade (e vinhos nacionais, muito menos).

Quatros dias de viagem e me convencia de que estava, completamente, equivocado. A região é linda e os vinhos excelentes.

A viagem etílica regada a vinhos e espumantes funciona assim: aquelas altitudes médias são cortadas por uma estrada (a Estrada dos Vinhedos) que dá acesso a uma infinidade de vinícolas que disputam a atenção dos visitantes com parreiras recheadas de uvas de formas quase cenográficas.

Quanto mais rosados são os cachinhos no pé, parece que mais gente engrossa a fila da entrada para visitas guiadas.

Fui acompanhado por um fotógrafo contratado pela revista que me encomendara uma reportagem sobre vinhos em Bento Gonçalves e região.

Ele ia ao volante. Eu, no banco de passageiro.

Eu queria ter assumido a direção logo em Porto Alegre, mas o fotógrafo tomou a dianteira logo no balcão da locadora e nunca mais me deixou sequer colocar a chave no contato.

Fiquei frustrado como criança impedida de subir na gangorra, mas na primeira curva acentuada da estrada me dei conta de que a decisão dele fora acertada.

A cada parada em uma vinícola, seis ou sete tacinhas inocentes desfilavam sobre a mesa, flertando com o jornalista degustador.

É só fazer as contas: foram três dias inteiros com visitas a dois estabelecimentos diários, totalizando, em média, 36 taças de vinhos e espumantes durante toda a viagem (sem contar as doses roubadas quando o anfitrião se virava para abrir a garrafa seguinte). Põe então na conta final umas 45.

Vale dos Vinhedos
Fazendo degustação (ops… trabalhando) na vinícola Salton (foto: Chema Lins

Bebi todas, orgulhoso, de não ter utilizado nenhuma vez aqueles (dispensáveis) baldinhos de inox para descarte de vinhos de degustação (que me perdoem os enólogos, enófilos e outros “enos”, mas não é todo dia que Brut e Naturale feitos com método champenoise cruzam nosso caminho e enchem nossas taças, preenchendo nossa alma de alegria).

Ao final de cada prova, a prova de que o fotógrafo tinha razão: aquelas curvas fechadas não combinavam com visitantes de coração (e fígado) tão abertos para degustações.

Diz a lenda local, confirmada depois em entrevistas, que a Lei Seca é liberada por ali. Ou seja, os visitantes tomam todas e o motorista (o mesmo que também tomou todas) assume o volante após degustações em caves geladas.

Mas como é que uma região respeitada, internacionalmente, com títulos ilustres como Denominação de Origem e Indicação Geográfica não conta sequer com uma linha de ônibus que vá passando pelas vinícolas? Uma espécie de hop-on hop-off para embriagados.

Impressionante também o “vinhoquês” que dita conversas em sessões de provas de vinhos encabeçadas por enólogos que se orgulham de seus conhecimentos etílicos.

foto: Eduardo Vessoni
foto: Eduardo Vessoni

Corte, dégorgement, terroir, assamblage, enclave e outros tantos palavrões que não me atrevo a repetir.

Sou de uma época em que vinho no Brasil ainda não era tratado como celebridade e só tinha dois tipos: tinto e branco, seco e suave.

Hoje, tomar uma taça significa tragar um mundo de expressões quase todas de origem francesa. São tantas dentro de um único objeto de cristal que sempre termino de beber com a sensação de não ter apreciado à altura aquele líquido sagrado que, há séculos, relaxa a humanidade.

Enólogos entendem de tudo (sobre vinhos, que fique bem claro), mas andam displicentes com questões históricas.

Cheguei em uma vinícola centenária, cujo nome não revelo nem sob tortura, e perguntei por detalhes da história do estabelecimento que pudessem me ajudar na hora de contextualizar aquelas vinícolas em uma linha do tempo escrita por imigrantes italianos desde 1875.

Eis que o próprio me responde sem frescura:

– “Estas questões burocráticas eu te mando por email”.

História, sua burocrática. Há séculos você conta a história da humanidade e é assim que te tratam?

Dei um gole mais demorado e segui ouvindo, calado, o desfile de conhecimentos vinícolas que o profissional ia exibindo diante de leigos (e já embriagados) visitantes.

Aquela última taça desceu indigesta (parecida aos vinhos brasileiros da época em que só se conhecia o tinto e o seco). Neste caso, desceu bem seco.

PS: Escrevo essas embriagantes (e tortas) letras uma semana depois de voltar do Vale dos Vinhedos, a bordo do avião que agora me leva para a Paraíba para a realização de uma matéria sobre cachaça.

Haja fígado.

4 Comentário

  1. Olá Eduardo adorei as dicas, estou indo para Bento Gonçalves com o meu marido no próximo mês e queria alugar um carro para ficar mais livre de conhecer as vinícolas que a gente quiser passar o tempo que a gente quiser sem ta dependendo de grupos, porem minha maior preocupação é com blitz de lei seca.
    Vc acha que vale a pena alugar carro?

    • Annezinha, pra sua maior liberdade é recomendável, sim, alugar um carro, uma vez que não há transporte público para visitar as atrações. Faça isso já no aeroporto de Porto Alegre.
      Só não se esqueça de que bebida e volante não é uma boa combinação (e a Lei Seca também funciona por ali).

      Obrigado pelo contato e seja sempre bem vinda no site.

  2. Olá Eduardo
    Muito bom ler suas impressões sobre o Vale dos Vinhedos, apesar de algumas vinícolas, inclusive a centenária, nao serem do Vale. Quem sabe numa próxima você possa conhecer um pouco mais o roteiro. Convite feito. Abraço
    Lucinara

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