Bolívia com pé de inca

“Você acredita que vai fazer uma viagem, mas em seguida a viagem é quem te faz, ou te desfaz”.

Quando esta frase do escritor Nicolas Bouvier caiu no meu colo, por meio de um comentário postado por uma amiga cujo sobrenome Villas Bôas dispensa explicações, achei que havia entendido a frase.

Naquele momento, eu me preparava para visitar o umbigo da Bolívia, uma viagem por esse país incompreendido que ainda chora a perda de sua saída para o mar. Nos três dias seguintes, viajaria 120 km a pé entre altas montanhas, penhascos, vulcões e casas de seres mitológicos, entre Mojinete e Guadalupe (cidades de uma Bolívia distante e rural a mais de 4500 metros de altitude que ainda não ganhou páginas de guias de viagem para mochileiros nem destaques em reportagens em cadernos de turismo).

A travessia tem início em Mojinete, um povoado rural e alaranjado de 80 habitantes localizado a 90 km de Tupiza.

Os números soam ingênuos, mas em terras bolivianas uma viagem dessa significa serpentear montanhas do Altiplano por longas (e mareantes) seis horas. Deixamos Tupiza ainda de madrugada a bordo de um carro 4×4 de luxo que pouco combinava com aquelas terras andinas que mal se entendem com suas diferenças internas. No volante, o prefeito da cidade que, nas horas seguintes, confessaria que seriamos os primeiros estrangeiros a pisarem aquele terreno (além dos incas experientes, naturalmente). Ao lado, seu fiel escudeiro (uma espécie de guarda-costas que nos acompanharia até o fim da viagem).

A chegada de dois forasteiros causou certa agitação em Mojinete. Naquele povoado minúsculo de tons monocromáticos, os locais ainda paralisam diante da visita de raros estrangeiros. As portas fechadas de madeira foram se abrindo, cabeças surgiam em janelas das casas humildes e crianças tomavam o chão de terra batida.

Desembarcamos, tímidos, na única via existente no povoado e improvisamos um primeiro contato entrando por corredores estreitos que cortavam casas de adobe.

À noite, uma reunião extraordinária fora convocada pelo prefeito e o corregedor da cidade pediu que eu me apresentasse e revelasse nossa real missão para aquela gente, historicamente, desconfiada.

O salão comunal foi se enchendo, lentamente. Um evento concorrido que, há tempos, aquela gente não era convidada a participar. Do fundo da sala, olhares entrecruzados e penosos cruzavam a minha apresentação. Se eu tivesse entendido as expressões de espanto daquela gente enquanto eu discursava inocente, eu juro que teria terminado a visita por ali mesmo e teria deixado a empreitada para outra encarnação.

Confesso que aceitei o convite para essa caminhada exclusiva no deserto boliviano não apenas por gosto pessoal (nem por imposição de nenhuma pauta jornalística que justificasse tais riscos), mas pela procura constante de cenários na Bolívia que surpreendessem espíritos aventureiros cansados da mesma imagens.

Naquele primeiro dia de trilha, escalamos montanhas a 45°, caminhamos quase como um rastejo por longas duas horas, cruzamos povoados perdidos a três mil metros de altitude, bordeamos abismos traiçoeiros, caminhamos em chão escorregadio sobre rochas pontiagudas e nos agarramos em algumas árvores para seguir caminho.

O corpo parecia preparado, mas esquecera de avisar a alma do que viria nos próximos dias: uma espécie de pesadelo cheio de simbologias que eu levaria alguns anos para decodificá-las.

O terreno acidentado e cheio de armadilhas nos levaria, dez horas mais tarde de caminhada, a La Ciénaga. Tensos e decididos a desistir da travessia, chegamos com fome, sede e cansaço.

La Ciénaga, Bolívia
La Ciénaga, Bolívia

Renunciar naquele ponto significava voltar outras dez horas e correr, novamente, os mesmos riscos. Era só uma questão de ter uma bem dormida noite para que os pés esquecessem os passos dados naquele dia e a alma seguisse tranquila no trecho da manhã seguinte.

No segundo dia, seguimos à próxima cidade: Bonete Palca, onde a regra também era subir. Nosso guia Severino havia garantido que esse seria uma caminhada mais leve, mas fui enganado pelo velho inca de pés calejados a escalar montanhas e rochas.

Naquele dia, começamos a sentir o risco da viagem.

Os povoados encravados em fendas nas montanhas não contavam com nenhuma estrutura para visitantes desavisados, bebemos água de origem duvidosa no rio Guadalupe e, na tentativa de deixar a trilha mais confortável, nosso guia começou a fazer o caminho para que pudéssemos andar com segurança. Nosso fiel acompanhante inca se dera conta de que aquilo não era para nós e, para isso, nos deixava sentado em uma área segura para descobrir o melhor lugar para passar.

O roteiro insano ainda incluía caminhadas por quebradas, escaladas em rochas (naturalmente, sem nenhum tipo de equipamento de segurança) e uma insólita montanhas alaranjadas com pequenas fendas no alto que teriam servido de moradia para seres minúsculos conhecidos como Chulpas, uma sociedade anterior aos incas que, segundo a crença local, desaparecera com a chegada da luz do sol.

Seguíamos com pouca água, duas garrafas pequenas de refrigerante de sabor xaropado, bolacha e frutas. O sol andino do segundo dia começava a castigar e as primeiras sensações de febre e delírio deram as caras.

Ameaçamos outra vez um regresso desesperado, mas acabamos convencidos de que o próximo destino seria ideal para pedir ajuda terrestre. Sete horas mais tarde, desembarcamos em Bonete Palca, um povoado flutuante sobre plataformas aéreas penduradas entre montanhas.

Vomitei frases desconexas para os poucos habitantes que nos receberam e logo recebemos a notícia de que ali não teríamos nenhuma possibilidade de resgate, pois não há estradas que ligam o povoado a qualquer outra cidade.

Deitei tremendo na cama improvisada de um barracão vazio que nos ofereceram, tentei devolver ar aos pulmões e umedecer a boca seca. Faltavam também água e banheiro no povoado.

No terceiro (e último) dia, descobrimos que o nosso fiel guia Severino jã não era assim tão fiel. O velho inca decidira regressar a Mojinete e passar o bastão para outro experiente índio das montanhas, um jovem que mal falava espanhol e o misturava com quéchua.

Bonete Palca (foto: Eduardo Vessoni)
Bonete Palca (foto: Eduardo Vessoni)

Deixamos Bonete Palca sem água nas mochilas, exceto uma garrafa com um refrigerante local feito com papaya. Naquele trecho em direção a Guadalupe, dariam os passos mais tensos e intensos de toda a viagem.

Cruzamos cenários impressionantes que fui incapaz de registrar. O jornalista teve que dar lugar para a criança que precisava chorar. No primeiro abismo que cruzou, as pernas tremeram e não conseguiram seguir adiante. Chorei um choro forte e longo.

E, pela primeira vez, meu acompanhante de viagem não insistiu. Ficou de pé, ao meu lado, e esperou a minha vez de seguir.

Ainda hoje lamento a falta de imagens dos últimos cenários visitados, mas posso garantir que vimos cabras escalando paredões verticais e cemitérios incas isolados entre altas montanhas.

Sentei (e alucinei, literalmente), na tríplice fronteira entre a Bolívia, o Chile e a Argentina; vi crianças e filhotes de animais me esperando na esperança de que eu lhes registrasse para sempre (e essa foi a minha maior frustração nesta viagem. Fui egoísta e neguei uma imagem por conta do corpo cansado e da boca seca).

Chegamos ao destino final e fomos recebidos, como sempre, com um carinho raro de ser visto no resto do país. As conclusões levaram alguns anos para serem processadas, mas voltamos plenos (ainda que de carona na traseira de um caminhão que nos levaria de volta a Tupiza).

E no final daqueles três dias, o fazer e o desfazer do viajante Bouvier começava a fazer sentido.

 

6 Comentário

  1. Olá! Fiquei maravilhada com as descrições e até apreensiva com as dificuldades. Vc contratou ou recomenda alguma empresa específica que possa auxiliar quem deseja se aventurar pelos mesmos lugares?
    Obrigada!

  2. Cara, parabéns por essa viagem! Eu fiquei muito curioso para conhecer esse lugar, tu sabe dizer se essa aventura ainda esta disponível? porque pelo que pude notar a infraestrutura é quase zero, eu gostaria de algum contato com agencia ou guia se possível.
    um abraço.

    • Taner, obrigado pela mensagem e pela visita ao site.

      Segundo uma amiga que esteve na região, a rota está em funcionamento com algumas alterações no caminho, porém deve ser sempre realizada com o acompanhamento de um guia.

      Abraços e seja sempre bem vindo ao site.

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