Cogumelo gigante, hippies e serras, no (des)carnaval de Córdoba

por: Eduardo Vessoni

Eu odeio o Carnaval.

Não pela manifestação popular que arrasta milhões de brasileiros (e agregados estrangeiros) às ruas, muito menos pelo batuque cadencioso que sai de bandolins, cuícas e pandeiros.

Os blocos de rua tampouco me incomodam. Vêm carregados de certa nostalgia que rola ladeira abaixo em cidades do interior ou em bairros descoladinhos de São Paulo.

A cidade grande fica vazia e o trânsito se transfere para outros endereços. Dá até para ir no cinema no sábado à noite, achando que é segunda-feira.

Sem contar que é nessa época que não chegam emails urgentes, não há contas por vencer e nenhum editor te liga pedindo revisão naquele texto enviado há quatro semanas.

Ainda assim eu continuo odiando o Carnaval.

É nesta época que somos obrigados a ser felizes (ainda que a quadra de samba seja sua mais ruidosa vizinha), a trilha sonora da vida parece ter espaço para um único ritmo e todo mundo adquire uma capacidade inata (descartada na Quarta-Feira de Cinzas seguinte) de dar opinião sobre comissão de frente, harmonia, samba-enredo e evolução.

No Carnaval de 2009, durante um longo roteiro pela América do Sul que me rendeu nove meses longe de casa, desembarquei em San Marcos Sierras, região serrana de Córdoba, na Argentina.

San Marcos Sierras

Foi ali, em pleno Carnaval, que descarnavalizei o período mais aguardado dos viajantes que costumam encarar as quatro horas para percorrer os 80 km entre São Paulo e o Guarujá, em busca de uma dose extra de confetes e serpentinas.

Esse vilarejo  a 153 km de Córdoba se transformou, nos anos 60, em uma comunidade hippie que serviu de refúgio para os que defendiam o paz-amor.

Desde então, os movimentos de contracultura parecem ter se mudado para outros rincões (da Galáxia, talvez), mas o espírito Flower Power, não.

As ruas de San Marcos Sierras ainda são de terra, não há cartazes luminosos sobre as fachadas, as placas de trânsito são artesanais (de madeira mesmo como a arte vendida na feirinha da República), os raros automóveis que circulam são abastecidos a 30 km dali e a produção agrícola é toda orgânica.

O destino carrega também títulos imponentes como ‘Território Não Nuclear’ e de ‘Proteção à Natureza’. Que responsabilidade, hein?

Só pelo nome dos estabelecimentos comerciais do destino já dá para ter uma ideia. Colonia Naturista, Madre Tierra e El Jardín. Não seria de se estranhar se acrescentássemos outros nomes como Pachamama e Shangri-La.

Argentina

No camping municipal onde armei a barraca, literalmente, o vizinho ouvia ‘Mutantes’. A comida era preparada em fogões improvisados, abertos em pedaços grandes de pedras.

A população é de pouco mais que 900 habitantes, sem contar os forasteiros de dreadlocks na cabeça e famílias alternativas que trilham diques que serpenteiam aquelas serras.

E para não perder o espírito paz e amor, San Marcos Sierras tem até um Museu Hippie. Dentro de um cogumelo gigante!!!

Argentina

Argentina

Considerado o único do gênero em todo o mundo, o museu fica a 1,5 km do centro do povoado. Está tudo lá dentro: capas de discos da época, cartazes de clássicos musicais como Hair, roupas coloridas com referências orientais e instrumentos de percussão.

Pois é…  Já não fazem mais carnavais como antigamente.

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