África do Sul celebra 20 anos de democracia com música do mundo

Se você é um daqueles fãs tradicionais de jazz, acostumado a solos intimistas de saxofones solitários, é melhor parar a leitura por aqui e passar para o post seguinte.

Considerado o maior festival de música da África subsaariana, o Cape Town International Jazz Festival, que aconteceu na Cidade do Cabo, nos dias 28 e 29 de março, foi um encontro do mundo com a África, em um evento que reuniu artistas locais e internacionais em uma mistura de jazz, blues, rap, soul, indie rock e outros ritmos ainda não pensados para um festival de jazz.

Assim mesmo, tudo junto, como deve ser um um festival de música na multifacetada África do Sul.

Confesso que faltou África na programação dessa edição do festival que foi marcada por um jazz mais tradicional que pouco lembrava a fusão arrojada de clássicos africanos como a do camaronês Manu Dibango, do nigeriano Fela Kuti e do pai do jazz etíope, Mulatu Astatke.

Mas é preciso confessar também que não é todo dia que os sons da Austrália e dos Estados Unidos, só para citar algumas nacionalidades que deram as caras por ali, ecoam no mesmo palco onde se apresentaram bandas do Senegal e de subúrbios históricos sul-africanos como o Soweto.

África do Sul
Logo da 15ª edição do Cape Town International Jazz Festival que aconteceu no final de março, na Cidade do Cabo, na África do Sul

Em 2014, cujos ingressos se esgotaram semanas antes da abertura do evento, o line up do Cape Town International Jazz Festival contou com mais de 40 bandas em cinco palcos montados no Centro de Convenções da Cidade do Cabo, uma tarefa quase impossível (para não dizer injusta) para selecionar os shows a serem assistidos.

Só na edição de 2013, o festival recebeu mais de 34 mil pessoas com uma programação eclética que contou com a brasileira Céu, a cubana Omara Portuondo da orquestra Buena Vista Social Club e a popular Thandiswa Mazwai, da África do Sul.

Em sua 15ª edição, o festival deste ano marcou os 20 anos de democracia e liberdade na África do Sul. Em 1994, após décadas sob um sistema de segregação racial criado por brancos, Nelson Mandela assumia o cargo de primeiro presidente sul-africano eleito, democraticamente.

Confira a seleção com as bandas preferidas do Viagem em Pauta, um dos dois representantes da mídia brasileira nos dois dias do festival.

“The Soil”
(África do Sul)
Veio do Soweto, a cidade periférica próximo a Joanesburgo, o som que agitou um dos shows mais concorridos.

Formada por três vozes (Buhle Mda, Luphindo Ngxanga e Ntsika Fana Ngxanga), a banda é conhecida pelo repertório entoado em (emocionantes) tons a capela que mesclam a música contemporânea dos subúrbios sul-africanos com estilos como hip hop, jazz e Afro-pop, resultando em um trabalho único que os próprios cantores definem como Kasi Soul.

The Soil é a banda na qual bastam apenas três vozes, cuja ausência de instrumentos de acompanhamento é compensada pelo beatbox clicante de músicas cantadas em línguas da África do Sul como inglês, Xhosa, Zulu e Sotho.

O nome da banda, que em português significa “o solo”, é uma referência ao som básico e cru de suas músicas entoadas a capela que remetem a sons ancestrais.

Embora seja um trio, o grupo costuma ser apresentado como um quarteto. pois o quarto elemento se apresenta de forma espiritual, “o Criador de tudo”, na descrição da própria banda.

The Soil (foto: Eduardo Vessoni)
The Soil (foto: Eduardo Vessoni)
The Soil (foto: Eduardo Vessoni)
The Soil (foto: Eduardo Vessoni)

“Reason”
(África do Sul)
O som underground da cena hip hop de Joburg, como é conhecida Joanesburgo, marcou a tenda Bassline na primeira noite do festival.

Sizwe ‘Reason’ Moeketsi é o rapper que ganhou o país com sua poesia lírica inspirada em experiências pessoais na periferia do maior centro financeiro do país. No palco, Reason nem parece um jovem de apenas 26 anos que, há sete anos, lançava um dos melhores álbuns da África do Sul (” The Reasoning”, 2010), segundo críticos locais.

Reason (foto: Eduardo Vessoni)
Reason (foto: Eduardo Vessoni)

Simpático e protagonista de um show interativo com fãs fiéis, Reason comandou um show entusiástico de uma hora para uma plateia discreta acompanhado por um DJ e pelo Ill Skillz, duo de rap da Cidade do Cabo.

E mesmo quem nunca tinha estado em um show do gênero (como esse jornalista que vos escreve), sentiu emocionado a versão eletrônica de um rap sul-africano ainda influenciado pelo tradicional discurso cantado em rimas do rap estadunidense.

“Hiatus Kaiyote”
(Austrália)
A sala lotada do auditório Moses Molelekwa provou a preferência do público pelo som labiríntico dessa banda australiana de Melbourne com influências da música de Stevie Wonder, Otis Redding, flamenco e canções tradicionais do Mali e da Colômbia.

A voz sussurrada da vocalista Nai Palm já foi definida como uma mistura dos tons de Neneh Cherry e Erykah Badu, e interage, harmoniosamente, com o trio de backing vocals formado por Silent Jay, Loz Dog, e o americano Jace Excell, do Brooklyn.

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Seu estilo ficou conhecido como “future soul”, termo que funde o Soul e o R&B contemporâneos, e já rendeu uma indicação ao Grammy na categoria “Melhor Performance de R&B”, perdendo para a banda estadunidense Snarky Puppy, também presente na 15ª edição do Cape Town International Jazz Festival.

Hiatus Kaiote (foto: Eduardo Vessoni)
Hiatus Kaiote (foto: Eduardo Vessoni)

“Moh Dediouf”
(Senegal)
Esse senegalês de Dakar foi um dos destaques da segunda noite do festival e levou ao palco não só as referências africanas de sua música eletrizada, mas também as influências de Marvin Gaye, James Brown e seus estudos na França.

Suas músicas cantadas em inglês, francês e wolof (língua da África Ocidental, onde se localiza o Senegal) deram voz a um blues alucinado protagonizado por um artista, completamente, à vontade no palco, em uma apresentação em que Moh insistiu em uma interação constante não só com o público, mas com toda a banda que o acompanhou.

O que se viu sobre o palco foi um encontro perfeito entre som, movimento e interação. Pandeiros tocados, alucinadamente,  contra o chão; solos de guitarra do sul-africano Bheki Khoza estimulados pela cumplicidade de Dediouf; e um backing vocal formado pelo dueto de Julia Thejane e Khanya Ceza que merecia, diga-se de passagem, um show à parte.

Considerado símbolo da nova geração de artistas africanos, Dediouf cria uma impressionante ponte entre os sons europeus e a música tradicional africana sem criar clichês ou transformar canção folclórica em hip pop caça-níquel.

Como já foi definido, anteriormente, Moh Dediouf “pinta a música ocidental com sons africanos”.

(foto: Eduardo Vessoni)
Moh Dediouf (foto: Eduardo Vessoni)
(foto: Eduardo Vessoni)
Bheki Khoza (foto: Eduardo Vessoni)

“Shane Cooper Quintet”
(África do Sul)
“Falar de África é falar de música”. Foi assim que o baixista Shane Cooper definiu o Cape Town International Jazz Festival, durante a apresentação de seu quinteto na primeira noite do festival.

Esse sul-africano de Porth Elizabeth com influências musicais de baixistas estadunidenses como Jaco Pastorius e Ray lançou, em 2013, seu álbum de estréia (“Oscillations”), cujo trabalho foi considerado “poderoso, não arrogante e acessível”, e está na linha de frente do jazz sul-africano contemporâneo que vem ganhando os olhares de mídia internacional.

O show discreto no festival da Cidade do Cabo foi a prova de sua humildade e talento sobre o palco.

África do Sul
Apresentação da banda Shane Cooper Quintet, da África do Sul (foto: Eduardo Vessoni)

“Shape of Strings to come”
(África do Sul)
Esse coletivo de guitarristas liderado por Jimmy Dludlu protagonizou o show mais concorrido da segunda noite do festival, acompanhado de nomes como Alvin Dyers, Richard Ceasar e Saudiq Khan.

Bastou Dludlu irromper o palco com seu terno branco para que o público, já cansado com o atraso de mais de meia hora, se animasse com os famosos acordes desse artista que carrega no currículo trabalhos ao lado de africanos do nível de Miriam Makeba, Angélique Kidjo e Salif Keita.

Jimmy Dludlu durante apresentação do coletivo "Shape of Strings to Come"
Jimmy Dludlu durante apresentação do coletivo “Shape of Strings to Come”

Randy Weston
(Estados Unidos)

Nascido no Brooklyn, nos Estados Unidos, Rendy Weston mostrou no palco que suas maiores influências musicais vêm mesmo da África e de clássicos de artistas como  Nat King Cole e Duke Ellington.

Em cada uma das canções de evidentes referências vindas do continente negro, Randy reforçava, humildemente, seu status de celebridade máxima da 15ª edição do festival, com um show de ritmos que lembraram o clássico (e raro) African Cookbook, álbum lançado em 1964 como uma “dívida com a África”, o continente que o próprio Randy define como o lar de seu espírito e de sua alma.

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Prejudicado pelo início tardio do show, cujo horário afastou o público menos boêmio e esvaziou o auditório Rosie, esse pianista só encerrou sua apresentação às duas e meia da manhã por conta da insistência dos organizadores do evento e protagonizou uma espécie de encontro de ares informais com velhos amigos como o panamenho Alex Blaker, quem protagonizou um balé de movimentos alucinados sobre seu baixo, e o percussionista Neil Clarke.

Randy Weston (foto: Eduardo Vessoni)
Randy Weston (foto: Eduardo Vessoni)
O baixista Alex Blake durante apresentação com o pianista Rendy Weston, na Cidade do Cabo (foto: Eduardo Vessoni)
O baixista Alex Blake durante apresentação com o pianista Rendy Weston, na Cidade do Cabo (foto: Eduardo Vessoni)

Cape Town International Jazz Festival
www.capetownjazzfest.com

Site do turismo da África do Sul
www.southafrica.net

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