Sobre vacas e hospedagem no feno

Eu e minha mania teimosa de dormir em endereços pouco prováveis.

Em nome das experiências inusitadas, já acampei na floresta amazônica ouvindo, ao longe, um casal de suçuaranas dialogando entre si em um cio animado; balancei em uma rede em longas noites de hospedagem improvisadas em uma comunidade xamânica, no Peru; e dormi em uma barraca armada, displicentemente, sobre o deck de um navio que acordou encharcado durante uma tempestade nos fiordes chilenos.

Em época de orçamento apertado (quase sufocante) cheguei até a dormir no mezanino de uma marcenaria, na Patagônia, cujo banheiro mais próximo ficava a 500 metros dali (dentro de um shopping que fechava às dez da noite).

E quando a gente promete dar um basta nessa brincadeira e trocar o inusitado pelo quarto básico de hotel (com cheiro de hotel e tudo), a alma se rebela e insiste com mais uma. Inclusive, uma amiga jornalista me alertou, recentemente, que eu já não tinha mais idade para isso.

Recebi a proposta de passar uma noite em uma fazenda na Suíça.

Fazenda da família Spichtig, em Obwalden, na Suíça
Fazenda da família Spichtig, em Obwalden, na Suíça

Batia à porta a chance de dormir dentro de todas aquelas imagens conhecidas sobre esse país alpino: casinhas de madeira, comida preparada a lenha, café fumegante no bule e, do lado de fora, vaquinhas malhadas que pareciam saídas de embalagens de chocolate, pastando em terreno íngreme e verdoso,

O cenário helvético estaria completo não fosse um detalhe: a noite seria sobre… feno.

Não se tratavam de camas com colchão recheado com gramínea. Era feno mesmo, espalhado sobre um tablado, onde saco de dormir e cobertor forravam aquele chão improvisado.

No inverno, o galpão alto de madeira abriga vacas. No verão, quando esse curioso programa turístico vivencial acontece, hóspedes passam a noite ali. No estábulo mesmo.

E antes que os, exageradamente, assépticos entrem em pânico, devo lembrar que o local é higienizado para receber humanos, após a temporada bovina.

É tudo limpinho e o único odor que se sente é de… feno.

Ah, se não fosse o feno…

Mas se não fosse o feno, seria cama e se fosse cama, não teria graça nenhuma.

Hospedagem sobre o feno em uma fazenda de Obwalden, na Suíça
Hospedagem sobre o feno em uma fazenda de Obwalden, na Suíça

Durante o dia, um típico programa rural.

Vacas que quebram o silêncio do vale com o balançar de sinos; visitas a galpões onde trabalham os fazendeiros; comida assada, cuidadosamente, na lenha; raros automóveis riscando estradinhas que se encurvam aos pés de montanhas alpinas; e uma sequência de animais como patos, burros e cachorros cruzando o caminho de hóspedes desavisados.

Café da tarde na fazenda de Obwalden com queijos feitos ali mesmo, suco de maçã caseiro e cerejas ainda na haste
Café da tarde na fazenda de Obwalden com queijos feitos ali mesmo, suco de maçã caseiro e cerejas ainda na haste

Deitei na cama (digo, no feno) meio desajeitado, procurando a posição mais cômoda (sim, deveria ter um jeito de fazer aquilo ficar mais cômodo).

Assim que comecei a rascunhar este texto, alguns chumaços se enroscaram na blusa e o feno deu seu primeiro sinal de vida com um sussurro discreto debaixo do saco de dormir.

Ajeitei o travesseiro entre as tábuas da parede de madeira e segui escrevendo.

Ao lado de cada espaço reservado para as vacas (digo, para os hóspedes) um cestinho de feltro vermelho que guardava um urso de pelúcia, uma espécie de companhia para eventuais momentos de solidão, durante à noite.

Um grupo ruidoso de alemães ocupava o galpão ao lado e eu estava sozinho no meu (um estábulo inteiro só para mim!!!).

Parei.

E quanto mais eu buscava o jeito certo de interação com aquela cama, mais o feno cuidava da trilha sonora leve debaixo do corpo.

Eu só esqueci de lembrar que, além de cheiro de feno, o feno tem também textura de feno. E som de feno.

Em uma das redes sociais onde eu postara o primeiro registro da experiência, uma das seguidoras chegou a comentar que ficava imaginando o barulhinho quando eu me mexesse. Em um primeiro momento, tomei como ironia aquele sufixo no diminutivo, mas conforme a noite ia avançando, vi que  a mensagem tinha um certo tom premonitório.

Ou seja, não adiantava negar. Eu aceitara dormir sobre aquela cama inusitada e deveria ir até o fim (até por que desistir naquela hora significava esperar um ônibus que só passaria na manhã seguinte).

Rascunhei mais umas letras tortas no bloco de notas e peguei no sono.

Dormi como criança (ou como uma vaca, já adiantando-me aos comentários irônicos apegados a trocadilhos).

Acordei antes do despertador programado para soar no mesmo ritmo da fazenda. Os mais hipocondríacos até me questionaram sobre dores lombares ou possíveis deslocamentos traseiros.

Nada. Eu continuava ali, intacto e vivo.

Lá fora, a Suíça continuava a ser Suíça (pelo menos a Suíça que deve ser nos cantões mais isolados e rurais).

Casinhas de madeira recebiam as primeiras luzes de sol, o sino das vacas que me emprestaram sua cama voltavam a tocar e a família Spichtig do vale de Obwalden me esperava, ansiosa, para saber minhas primeiras impressões.

Vale de Obwalden, na Suíça
Vale de Obwalden, na Suíça

E, bem longe daquilo tudo que eu já ouvira falar sobre o país, eu acabara de me levantar de uma das experiências hoteleiras mais nostálgicas de todos esses anos, dessas que fazem a gente querer ser criança de novo: ter uma casa na árvore, passar o dia na caverna ou encontrar o trevo de quatro folhas.

Passar a noite sobre o feno é como deixar o lugar comum, sair do conforto da rotina viciada e vestir a alma com outra roupa, como já diria o velho Quintana.

É estar de verdade em um lugar,  entregar-se e ser um pouco do outro.

Aliás, andei pensando em trocar aquele colchão velho lá de casa por um desses tablados de feno.

 

5 Comentário

  1. Ah, Dudu! Eu retiro o que eu disse! Vc tem idade pra isso kkkkkk e para muitas outras aventuras que virão! Tuas fotos e registros fazem de nós testemunhas da vida de um viajante que não cansa de nos surpreender!

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