Conheça com exclusividade o Museu do Absinto, na Suíça

Só pela lista dos personagens que eram adeptos de absinto, já dá para entender o que foi a febre do consumo da bebida, nas últimas décadas da história da Humanidade.

Aquele líquido de tons surreais que encantara (em todos os sentidos) europeus do século 19 foi o aperitivo preferido de figuras como Vincent van Gogh, o pintor neerlandês que cortou a própria orelha, supostamente, sob o efeito da bebida.

O irlandês Oscar Wilde, quem dizia ver tulipas entre as pernas quando bebia absinto, tinha uma quedinha pela bebida, assim como Ernest Hemingway.

Outro devoto da Fada Verde, como também era conhecida, é o esquisitão Marilyn Manson, cuja paixão exagerada pela bebida o encorajou a criar a sua própria marca, o esverdeado Mansinthe produzido na Suíça.

Cartaz “A morte da Fada Verde” na Guguss, revista semanal publicada por Louis Bron, satiriza a proibição do consumo de absinto na Suíça. No canto superior à direita, calendário marca dia e horário da entrada em vigor da nova regra (foto: Eduardo Vessoni)
Cartaz “A morte da Fada Verde” na Guguss, revista semanal publicada por Louis Bron, satiriza a proibição do consumo de absinto na Suíça. No canto superior à direita, calendário marca dia e horário da entrada em vigor da nova regra (foto: Eduardo Vessoni)

Até a banda britânica de indie rock Kasabian já prestou homenagem ao personagem na música “La Fée Verte” no álbum “Velociraptor” (2011).

É tanta devoção pela bebida maldita, proibida na Suíça por abstêmios 95 anos, que aquele país alpino conta até com um museu inteirinho dedicado ao assunto.

Localizada em Val-de-Travers, a região do cantão de Neuchâtel que deu origem à bebida no século 18, abriga a Masion de l’Absinthe, casarão histórico de Môtiers que conta a trajetória da Fada Verde.

O local foi inaugurado em julho deste ano e o Viagem em Pauta foi o primeiro veículo brasileiro a conhecer o local, pessoalmente.

Nesse museu interativo, o visitante circula por salas que recriam ambientes relacionados à história da bebida como cafés parisienses do período da Belle Époque – onde estão expostos também cartazes publicitários antigos e objetos dos rituais de degustação como as colheres cromadas sobre cálices para adoçar aquele aperitivo de gosto questionável (devo confessor que tem que ser bem fã de anis para apreciar absinto).

Ambiente recria cafés parisienses do período da Belle Époque (foto: Eduardo Vessoni)
Ambiente recria cafés parisienses do período da Belle Époque (foto: Eduardo Vessoni)
Essas colheres cromadas era usadas sobre os cálices de absinto para adoçar a bebeida (foto: Masion de l’Absinthe/Divulgação)
Essas colheres cromadas era usadas sobre os cálices de absinto para adoçar a bebeida (foto: Masion de l’Absinthe/Divulgação)

Nas salas seguintes é possível ver também receitas antigas de preparação da bebida com fins medicinais, tocar e sentir os ingredientes usados na produção e conhecer a garrafa histórica de absinto de Couvet encontrada no naufrágio do navio Marie-Thérèse, em 1897, na Indonésia.

Bar da Masion de l’Absinthe (foto: Eduardo Vessoni)
Bar da Masion de l’Absinthe (foto: Eduardo Vessoni)

Entre as curiosidades do acervo está um sino francês de mesa do início do século passado, com extremidade em forma de figura diabólica, usado para chamar o garçom na hora de outra dose de absinto (dizem que era o diabo que abria as garrafas de absinto), e o divertido cartaz original de “A morte da Fada Verde” publicado na revista semanal Guguss, que satirizava a proibição do consumo da bebida na Suíça.

Na sala vizinha, o museu dedica parte do acervo ao período da produção clandestina, na Suíça e na França, como o barril de transporte ilegal de absinto da Madame Berthe Zurbuchen, considerada uma das melhores produtoras de absinto do século 20; o inusitado recipiente de metal usado para enviar absinto pelo correio, e até latas de frutas em conservas que eram, cirurgicamente, esvaziadas para transportar a bebida proibida.

Sala dedicado ao período da produção clandestina de absinto, na Suíça e na França (foto: Divulgação)
Sala dedicado ao período da produção clandestina de absinto, na Suíça e na França (foto: Masion de l’Absinthe/Divulgação)

Tudo isso bem diante dos olhos do visitante (e da mesa original do juiz que atuava no mesmo edifício, aplicando multas aos insurgentes).

O museu está situado no antigo apartamento onde morava (vejam que ironia!) o juiz responsável pelas condenações dos produtores ilegais de absinto.

(foto: neuchateltourisme.ch/Divulgação)
(foto: neuchateltourisme.ch/Divulgação)

“O absinto está em todos as partes de Val-de-Travers e os produtores locais gostariam de ter um lugar para homenageá-lo”, explica Yann Klauser, diretor do museu.

Maison de l’Absinthe
www.maison-absinthe.ch

SOBRE O ABSINTO

Inventado em 1792 como remédio multiuso pelo médico Pierre Ordinaire, em Couvet, na Suíça, o absinto logo ganharia outras ervas e doses de álcool (acrescentadas pelo próprio Pierre).

Nos anos seguintes, ganhou fama na região de Val-de-Travers, na fronteira com a França, começou a se popularizar no mundo como purificador de água pelas tropas francesas em viagens ao exterior e chegou aos cafés de Paris, em plena Belle Époque.

Exisitia até uma sessão exclusiva para os tragos de absinto: a “hora verde”, às cinco da tarde, tradicionalmente.

No entanto, acreditava-se que seu consumo excessivo causava alucinações, instabilidade mental e comportamento criminoso por conta da presença da tujona, algo como o  THC do absinto, um composto químico chamado de Artemisia Absinthium.

Detalhe da planta de absinto (foto: Eduardo Vessoni)
Detalhe da planta de absinto (foto: Eduardo Vessoni)

As discussões sobre a proibição da bebida, que se tornara um bode expiatório para os males sociais da época, se intensificaram após o agricultor Jean Lanfray matar sua esposa grávida e as duas filhas, sob efeito da bebida, em Commugny, em 1905.

No dia 7 de outubro de 1910 a bebida se tornava ilegal em toda a Suíça, a partir de uma lei que vigoraria até 2005.

Conheça a Rota do Absinto na Suíça: www.routedelabsinthe.com

SITE OFICIAL DO TURISMO DA SUÍÇA
www.myswitzerland.com

* por Eduardo Vessoni

 

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