História no vinhedo: conheça o ‘Museu do Vinho’, em Bento Gonçalves

No mundo dos vinhos tem todo tipo de colecionador.

Tem aquele que exibe rolhas em vasos de vidro, os que se orgulham de coleções de rótulos e, claro, os que passam a vida guardando garrafas de vinhos que envelhecem sem pressa.

Mas em Bento Gonçalves, cidade da Serra Gaúcha que ainda se agarra às tradições da época da chegada dos primeiros imigrantes europeus, tem gente que coleciona história (do Brasil e do mundo).

Rinaldo Dal Pizzol, o velho experiente da viticultura que adora citar capítulos históricos para falar de vinho, também é um colecionador (de história, naturalmente).

 Vista do 'Eco Museu da Cultura do Vinho', na vinícola Dal Pizzol, na Serra Gaúcha
Vista do ‘Eco Museu da Cultura do Vinho’, na vinícola Dal Pizzol, na Serra Gaúcha

Na sua vinícola de oito hectares, no distrito de Faria Lemos, Dal Pizzol abriga um acervo particular de 235 garrafas nacionais e estrangeiras, no Eco Museu da Cultura do Vinho.

“São vinhos que ajudaram a construir a memória da região”, afirma Rinaldo em um humilde tom quase acadêmico que faz qualquer visitante passar horas, calado, ouvindo aquela sequência de datas e curiosidades.

O rótulo mais antigo é de 1937, um provável Cabernet Franc produzido pela Cia Vinícola Riograndense que repousa em uma discreta garrafa escura produzida, quase de forma caseira, em uma época em que vinhos ainda não traziam etiquetas.

Mas o maior orgulho é o Velho Capitão, um tinto produzido pela então viticultora Dreher em homenagem a Assis Chateaubriand, gaúcho da área da comunicação que sempre esteve envolvido em assuntos relacionados à viticultura e responsável pela vinda da Möet & Chandon para o Brasil.

Rinaldo Dal Pizzol, no EcoMuseu da Cultura do Vinho, em Bento Gonçalves (foto: Eduardo Vessoni)
Rinaldo Dal Pizzol, no EcoMuseu da Cultura do Vinho, em Bento Gonçalves (foto: Eduardo Vessoni)
O rótulo mais antigo é de 1937, um provável Cabernet Franc produzido pela Cia Vinícola Riograndense (foto: Eduardo Vessoni)
O rótulo mais antigo é de 1937, um provável Cabernet Franc produzido pela Cia Vinícola Riograndense (foto: Eduardo Vessoni)

“O vinho era um produto rural e, atualmente, a bebida se tornou algo cultural. Já está na hora de reconhecer o vinho nacional como patrimônio brasileiro”, afirma Rinaldo, de 77 anos.

O museu abriga também peças como garrafões empalhados da década de 30, duas garrafas raras de Pedro Domecq usadas para o Troféu Carlos I, em 1974, e uma área destinada à exposição de 99 saca-rolhas.

Do exterior, o acervo adquirido durante viagens feitas pelo próprio colecionador conta também com um Möet & Chandon Brut Imperial de 1969; um Couvee Speciale da Argélia (1979), além de garrafas da Armênia, China, Japão e (quem diria) da Bolívia.

Mas nem só com garrafas e rótulos se faz a coleção particular dessa empresa que, em 2014, comemorou seus 40 anos de funcionamento.

Do lado de fora, entre gansos, pavões e coelhos, o mundo do vinho se exibe, literalmente, em um terreno de 5 mil m².

Vista do 'Vinhedo do Mundo', considerado a 3ª maior coleção privada de uvas do mundo (foto: EDuardo Vessoni)
Vista do ‘Vinhedo do Mundo’, considerado a 3ª maior coleção privada de uvas do mundo (foto: EDuardo Vessoni)

O projeto “Vinhedo do Mundo”, considerado a 3ª maior coleção privada de uvas do mundo, é um espaço didático e experimental que abriga 401 variedades de uvas provenientes de mais de 30 países dos cinco continentes. Tem Monuka trazida do Afeganistão, Shiraz do Irã e a uva Királyeányka da Romênia.

“Este é um pequeno centro de pesquisa particular da empresa”, descreve o enólogo Dirceu Scottá. Daquele laboratório a céu aberto saem amostras que são transportadas para regiões de escala maior.

É tanto apego pela história e tradições locais que as duas enotecas que ficam do lado de fora do pequeno vinhedo internacional funcionam no interior de dois fornos desativados da antiga olaria local, onde garrafas empoeiradas guardam vinhos como um Merlot de 1981 (que “surpreende pela alta qualidade”, segundo o enólogo Dirceu) e um Cabernet Sauvignon de 1995.

O local abriga também uma réplica do primeiro vinhedo construído pelos imigrantes que chegaram à região, a partir de 1875.

Embora reservadas apenas para consumo próprio, as garrafas sempre vão parar à mesa quando chega algum forasteiro como o assamblage 2000 feito para a virada do milênio com vinhos das safras de 98 e 99: um encontro intenso de Cabernet Sauvignon e Franc, Merlot e Tannah que, com os anos, ganharam notas de uísque.

Detalhe das garrafas armazenadas na enoteca da Dal PIzzol (foto: Eduardo Vessoni)
Detalhe das garrafas armazenadas na enoteca da Dal PIzzol (foto: Eduardo Vessoni)
Vista da entrada da enoteca localizada no interior de antigos fornos de uma olaria localizada na vinícola Dal Pizzol (foto: Eduardo Vessoni)
Vista da entrada da enoteca localizada no interior de antigos fornos de uma olaria localizada na vinícola Dal Pizzol (foto: Eduardo Vessoni)

Aquelas histórias parecem não ter fim (pelo menos no que depender do Rinaldo Dal Pizzol).

Assim que anuncio o fim da entrevista, enquanto vou guardando o bloco de anotações no bolso, ele solta um sonoro “não” e segue descrevendo cada uma das garrafas do acervo do museu como se ainda faltasse história para contar.

LEIA TAMBÉM: “Degustação às cegas é experiência inusitada da Serra Gaúcha”

SAIBA MAIS

Site de turismo de Bento Gonçalves
www.turismobento.com.br

EcoMuseu da Cultura do Vinho Dal Pizzol

www.dalpizzol.com.br

 

*por Eduardo Vessoni

 

4 Comentário

  1. Sou Sr. José Reinaldo, guia de turismo e artista plástico residente de BG desde 2007, vim a passeio, e meu coração bateu muito forte em ver as belezas deste lugar, não voltei mais a Belém-Pará, minha terra natal e meus avós espanhóis e portugueses, aqui encontrei espaços para desenvolver meus trabalhos em turismo e artes plásticas e artesã (esposa)meus filhos todos gostaram.Parabéns a todos que fazem esta empresa decolar.!!!!

  2. Possuo uma garrafa de vinho branco de mesa Granja União,conteúdo 720 ml., da Reserva Especial, em comoração ao Cinquentenário da Companhia Vinícola Rio Grandense, fundada em 1929. Passando aí 35 ou 36 anos. Gostaria de saber se existe interesse de colecionador, e qual seria o valor?

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