O dia em que o Tubarão fez o almoço do pirata

Fazia tempo que eu não me atrevia a escrever o que costumo chamar, displicentemente, de crônica. Mas fazia tempo também que personagens cronicáveis não cruzavam meu caminho (ou eu que andava disperso em outros detalhes).

No mês passado, desembarquei em Galinhos, uma península estreita e frágil do Rio Grande do Norte que se esconde logo depois que o Brasil faz a curva e tenta se encontrar com o mar do Caribe (e se não consegue, pelo menos engana bem com seu mar de águas claras).

Lugar perfeito para inspirar crônicas e encontrar personagens.

Pôr do sol na Duna do André, em Galinhos (foto: Eduardo Vessoni)
Pôr do sol na Duna do André, em Galinhos (foto: Eduardo Vessoni)

Jr. Tubarão foi meu guia.

Cabelo topete de jogador de futebol, cara fechada com jeito de poucos amigos (mas só por pouco tempo) e habilidoso em preparar refeições a bordo, em uma travessia que ele mesmo chama de “passeio gastronômico”.

O cabra conduz o barco, para nas praias mais exibidas desse vilarejo rústico de pescadores, te faz  entrar em uma salina de montes gigantes para “sentir a energia do sal” e ainda te deixa pôr a mão na cobiçada (e cara) flor de sal que, naquelas terras, brota do chão.

Jr. Tubarão na salina Diamante Branco, em Galinhos (foto: Eduardo Vessoni)
Jr. Tubarão na salina Diamante Branco, em Galinhos (foto: Eduardo Vessoni)
Jr. TUbarão na salina Diamante Branco, em Galinhos (foto: Eduardo Vessoni)
Jr. Tubarão na salina Diamante Branco, em Galinhos (foto: Eduardo Vessoni)

Tubarão também mergulha perto do mangue para “colher” ostras (“o Viagra natural”, como me explicou com a malícia na cara de quem não acredita em sereias) e serve água de coco com uísque na taça que ele mesmo prepara (“mais natural do que isso não existe”).

Ele até tentou me convencer a provar a “caipiostra”, a caipirinha com ostra, mas o inusitado para mim tem limite. No meu caso, beber cachaça com três ou quatro ostras vivas boiando dentro de uma coco verde já seria demais.

Jr. Tubarão e a "caça" de ostras em Galinhos (foto: Eduardo Vessoni)
Jr. Tubarão e a “caça” de ostras em Galinhos (foto: Eduardo Vessoni)

Além de tudo, Tubarão flerta com a fotografia, ao direcionar seu olhar (e o barco) em direção à luz perfeita para fazer uma foto. E nem poderia ser diferente para um guia acostumado a ciceronear nomes da fotografia como Valdemir Cunha e Araquém Alcântara.

Embarcação em Galinhos, no Rio Grande do Norte (foto: Eduardo Vessoni)
Embarcação em Galinhos, no Rio Grande do Norte (foto: Eduardo Vessoni)

Mas Tubarão, que aprendeu a “cozinhar com a vida”, é o melhor anfitrião que aquelas terras de dunas e pores de sol exibidos poderiam ter inventado.

Tubarão não fala, nem se perde em detalhes enciclopédicos de guias falastrões.

Tubarão faz. E faz ali mesmo, sobre uma tábua laranja improvisada do barco, onde prepara o almoço.

Tubarão prepara o almoço ali mesmo, no barco (foto: Eduardo Vessoni)
Tubarão prepara o almoço ali mesmo, no barco (foto: Eduardo Vessoni)

Um corte certeiro sobre a carne branca da cavala que vira ceviche e a pescada que se transforma em sashimi.

O sushiman do mangue é exigente e não se contenta com a comida prática das refeições a bordo e finaliza a montagem dos pratos, sem pressa, com um molho que homenageia aquele lodaçal com vegetação resistente a ambientes salgados.

Sashimi e o molho manguezal (foto: Eduardo Vessoni)
Sashimi e o molho manguezal (foto: Eduardo Vessoni)
Ceviche com carne de cavala decorada com folha sapateiro (foto: Eduardo Vessoni)
Ceviche com carne de cavala decorada com folha sapateiro (foto: Eduardo Vessoni)

É o “molho manguezal” para temperar o ceviche. Limão, shoyu, azeite, pimenta, cebola e folha sapateiro do mangue.

Tudo feito ali mesmo, da colheita das folhas até o corte finíssimo das cebolas roxas.

E entre uma conversa e outra, como quem passa pão na manteiga, Tubarão arma um banquete em uma praia isolada de Galinhos que seu pai costumava levá-lo quando o cabra ainda era filhote de tubarão.

Ele mata a nostalgia dele. E eu, a minha saudade daquelas histórias sobre náufragos sobreviventes em ilhas perdidas que improvisam a vida com o que têm.

Tubarão não conta só histórias. Ele é a própria história.

E quando faltam personagens, ele mesmo trata de inventá-los.

Voltando para a península, pedi para dar uma meia volta a fim de registrar uma praia da região. Posicionei a câmera, fiz o corte da imagem e disparei o dedo no botão.

Tubarão ficou ali, só observando (e absorvendo mais uma habilidade).

Passei-lhe a câmara e pedi uma foto. Foram tantas (e em posições dignas de um profissional) que deu até tempo de um vento forte virar a ponta do meu chapéu e desenhar sobre a minha cabeça uma espécie de adorno de pirata.

Jack Sparrow de Galinhos (foto: Jr. Tubarão)
Jack Sparrow de Galinhos (foto: Jr. Tubarão)

“O Jack Sparrow de Galinhos”, soltou sem cerimônia e com uma intimidade de quem já me tratava como um velho amigo. O amigo pirata do Tubarão.

O cabra conduz o barco, vai até as praias mais isoladas, prepara a sua comida e ainda faz você se sentir um pirata (que por pouco não é o do Caribe).

Um guia desses merece muito mais do que uma mal escrita crônica, mas é isso o que um pirata urbano em terras distantes tem para oferecer depois de viver histórias que parecem inventadas para livros de aventura.

Obrigado, comandante Tubarão, pela crônica, pelo almoço e pelo título de pirata.

PS: E aproveito para agradecer a Pousada Peixe-Galo, em Galos, quem colocou Tubarão no meu caminho.


12 Comentário

  1. Fiz essa viagem…por duas vezes;e se possível farei outras.É apaixonante!!!
    Quisera ser escritora,cronista ou poeta para externar tão bem a delícia de viver esses momentos.Tudo o que você disse e mais a energia mágica de tocar o cavalo marinho,faz desse passeio um sonho.Parabéns à você,pirata rs rs e ao comandante Tubarão por nos levar juntos nesse passeio através da sua crônica.Abraços

  2. A D O R E I!!!!! Parabéns pelo roteiro, pela crônica e pelas belas fotos…Você realmente conseguiu nos levar junto com vc nessa aventura. Abrc

    Mirian

  3. Eduardo, na minha opinião, você deveria nos presentear com mais crónicas! Uma delícia de ler o seu texto! E viva o Jr. Tubarão que nos proporcionou além da crônica, belíssimas fotos! Ainda vou até Galinhos conhecer esse tal Tubarão e experimentar esse ceviche! Vai que eu consigo também me sentir um pouco “Elizabeth Swann” lá por aquelas bandas, hein?!

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