Dom Quixote, Sancho Pança, Dulcineia e a entrega de um prêmio

Ganhei um prêmio de jornalismo na Europa. Um não, dois.

Um número bastante significativo para quem nunca levou sequer uma prenda em festa junina de igreja ou foi sorteado em promoção de mercado. Não que prendas de quermesses e sorteios de lojas possam sem comparados com prêmios jornalísticos. Mas mesmo assim achei que contava com sorte.

Curado da ressaca da comemoração com amigos, parti para a Espanha para pegar os prêmios (o primeiro por uma das matérias publicadas aqui neste site e outro por um texto sobre trens que fiz para o caderno de viagens do jornal O Globo).

Confesso que até o momento do embarque, ainda em São Paulo, encarava a travessia como mais uma daquelas viagens a trabalho para registrar histórias (e imagens) em algumas dessas esquinas do mundo.

Mas a notícia de ser premiado, 15 anos depois de formado e outros seis do (re)início da carreira, só parece ter feito sentido quando cheguei no aeroporto de Madri.

Me dirigi à cabine da imigração, aquele mundo isolado por vidros e agentes com caras de pouquíssimos amigos que costumam fazer suspense com passaportes segurados no ar e troca de olhares desconfiados.

  • “O que você veio fazer na Espanha?”, questionou com a formalidade e frieza obrigatórias das filas de imigração.

  • “Vim receber um prêmio”, respondi rápido como se prêmios fossem suficientes para ter acesso a território alheio.

  • “Mas um prêmio de que?”, retrucou sem se abalar com este ou aquele prêmio.

  • “De jornalismo”.

E foi assim, como eu nunca tinha presenciado antes em um desembarque europeu, um sorriso relaxado se prolongou na boca do agente.

  • “Parabéns”, me desejou o policial com o carimbo ainda flutuando no ar, antes de tocar firme o passaporte.

Era como se eu acabasse de ganhar o 3º prêmio da viagem.

Para a noite de gala, fui metido em terno e gravata, aquelas coisas que só me permito fazer em dias de formalidade exigidas em rituais que, hoje em dia, são raros (para não dizer exóticos) como casamentos.

Entrega dos prêmios do 25º Concurso Europa de Jornalismo, organizado pela European Travel Commission (foto: Divulgação)
Entrega dos prêmios do 25º Concurso Europa de Jornalismo, organizado pela European Travel Commission (foto: Divulgação)

Segui o grupo de jornalistas até o local da cerimônia, um restaurante que funciona dentro um autêntico parador espanhol de Alcalá de Henares, cujo filho mais ilustre dessa cidade a 35 km de Madri é Miguel de Cervantes.

Paradores são hotéis que funcionam no interior de construções históricas restauradas e transformadas em hospedagem de luxo. É daqueles lugares que a gente nunca sabe se é um hotel boutique com pé  fincado na História ou uma construção histórica metida a hotel boutique.

Parador de Alcalá de Henares (foto: parador.es/Divulgação)
Parador de Alcalá de Henares (foto: parador.es/Divulgação)

Chegamos ao local sob chuva insistente (a final de contas, nem prendas de festa junina ou sorteio de mercado eu tinha ganhado), um edifício do século 17 que servira como colégio-convento.

E o que parecia ser apenas uma bem contada história fantasiosa, se transformaria, nas próxima horas, em uma experiência única com direito a fidalgo que perde o juízo, velho barrigudo e bonachão, e à donzela “de muy buen parecer”.

Como se tivessem saltado daquele clássico da literatura espanhola, Dom Quixote, Sancho Pança e Dulcineia foram os anfitriões da noite e nos receberam na porta do restaurante com breves interrupções de protocolo com dramatizações de trechos de Dom Quixote de La Mancha, escrita por Miguel de Cervantes.

E enquanto pratos como sopa de amêndoas e lombo de bacalhau se exibiam na mesa redonda da sala privada da Hosteria del Estudiante, uma construção de 1510 onde os prêmios seriam entregues, diálogos quixotescos quebravam o gelo protocolar.

Paralisei (embrigado pela ansiedade do prêmio e por um certo excesso de vinhos servidos) como o protagonista de la Mancha diante dos moinhos de ventos que Quixote os trataria como “desaforados gigantes”.

Se eu soubesse disso antes, teria entendido o sorriso largo do agente do aeroporto de Madri.

Afinal de contas, receber prêmios na Espanha tem lá suas formalidades protocolares com ares quixotescos.

2 Comentário

  1. Parabéns Eduardo.
    Moro na espanha há quase 10 anos, já jantei neste mesmorestaurante, sou jornalista como você, porém nunca recebi nehum premio ( também não exerço a profissão). Adoro a formalidade aqui da Espanha, agora, No final do ano, fazemos muita festa e comemorações todo mundo de terno e gravata e as mulheres com seus vestidos de festa. Parabéns pelo premio ! Que este seja o primeiro de muitos.

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