Coral infantil é atração turística da África do Sul

A rotina daqueles estudantes parece com a de tantas outras crianças da África do Sul.

Eles assistem a aulas do programa básico de ensino, praticam esportes ao longo do dia e saem de férias no final de cada ano para aproveitarem com a família o verão no hemisfério sul.

Mas quando sobem ao palco para a apresentação semanal da quarta-feira, aqueles garotos protagonizam uma das apresentações musicais mais famosas em todo o território sul-africano.

Localizada em Winterton, pequena cidade encravada entre as altas montanhas da África do Sul e do vizinho Lesoto, a Drakensberg Boys Choir School ficou conhecida, mundialmente, por abrigar um grupo de vozes formado por cem garotos que convivem, 24 horas por dia, em um rígido sistema de internato.

Assim como o passado multicultural de sotaques e etnias que marcou a história da maior potência do continente negro, aqueles cantores mirins entoam músicas em africâner, Tsonga, SeSotho, Xhosa, inglês, sueco, alemão, japonês, alemão e latim.

Apresentação do coral de Drakensberg, na África do Sul (foto: Eduardo Vessoni)
Apresentação do coral de Drakensberg, na África do Sul (foto: Eduardo Vessoni)

O coral parece mesmo um retrato fiel da Nação Arco Íris, como o país é conhecido por sua variedade cultural e étnica. Atualmente, o grupo conta com jovens indianos, em menor proporção, brancos e negros, filhos de pais de nações vizinhas como Namíbia, Zimbábue e Botsuana.

“O coral é uma espécie de irmandade multicultural que não se vê mais na sociedade. Todos gostam de cantar e é isso que os une”, afirma Steven Wellbeloved, gerente responsável pelos tours organizados no internato.

Meia hora antes das concorridas apresentações às quartas-feiras, os visitantes são recebidos em tours organizados pelo interior do internato e encabeçados pelos próprios alunos.

O espetáculo começa discreto com os jovens vestidos com roupas formais e um repertório misto que chega a destoar com hits como Beautiful Girls, febre internacional gravada pelo artista americano Sean Kingston; Someone Like You, a melada canção romântica da britânica Adele; e We are Young, tema da banda americana Fun que empresta o nome dessa música no título de um dos CDs gravados pelo coral.

Apresentação do coral de Drakensberg, na África do Sul (foto: Eduardo Vessoni)
Apresentação do coral de Drakensberg, na África do Sul (foto: Eduardo Vessoni)

No entanto, é após o intervalo que aqueles garotos protagonizam os momentos mais impactantes de toda a apresentação.

Vestido com batas com as cores da bandeira sul-africana e trajes típicos que representam grupos étnicos do país, como os zulus e os ndebele, o coral surpreende a plateia com clicantes músicas folclóricas cantadas em TshiVenda, língua falada pelos habitantes da Província de Limpopo, no norte da África do Sul; e Sesotho, idioma de origem bantu falado por mais de cinco milhões de sul-africanos e também em países vizinhos como Lesoto, Botsuana, Namíbia e Zâmbia.

Clássicos internacionais da música sul-africana também têm vez no show como Pata Pata, canção em língua Xhosa imortalizada por Miriam Makeba, nos anos 50.

Mais do que uma apresentação estática com uma sequência de músicas de coral, os garotos de Drakensberg são responsáveis por intensas interpretações corporais como as brincadeiras do jogo da neve na canção russa Sneg ou a alucinante gumboot, uma tradicional dança polirrítmica em que as botas de couro dos trabalhadores mineiros serviam como meio de comunicação durante a época das explorações de minas sul-africanas de ouro.

Apresentação do coral de Drakensberg, na África do Sul (foto: Eduardo Vessoni)
Apresentação do coral de Drakensberg, na África do Sul (foto: Eduardo Vessoni)

A percussão corporal também mexe com as sensações do público em momentos mágicos como a canção I denna ljuva sommartid, tema sueco cantado no escuro e entremeado por sons da natureza, ruídos de animais da savana e cliques com a língua.

Embora o repertório mude a cada ano e seja composto também por canções de apelo comercial, seu planejamento se dá a partir do número de vozes disponíveis naquele período com base no valor educativo da música e na teoria por trás dela, uma espécie de educação cultural através da música.

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Sobre o Drakensberg Boys Choir School
O coral começou a ser formado em 1967 como parte das atividades de uma pequena escola agrícola da região de Drakensberg, na província de Kwazulu Natal.

A inspiração veio com John Tungay, filho do então proprietário daquele estabelecimento de ensino de 40 hectares que na época se resumia a uma fazenda com um dormitório, sala de jantar, cozinha e apenas uma sala de aula. Tungay atuava como maestro do coral da Trinity Congretional Church de Londres e levou técnicas vocais dos corais europeus para aquelas terras isoladas do interior da África do Sul.

No primeiro ano, a escola contava com vinte sopranos e, em 1968, o grupo já era formado por sessenta cantores. Ao longo dos anos, o coral foi ganhando outras vozes e, atualmente, conta com quatro grupos: soprano, contralto, tenor e baixo. Na época, Tungay chegou a comparar aqueles garotos ao flautista de Hamelin por conta da alta capacidade de atrair novos integrantes por onde passavam.

O processo de recrutamento de novos cantores é longo e exaustivo. Anualmente, os alunos se inscrevem para o ano letivo, mas nem todos ingressam, diretamente, no coral.

Os aspirantes são submetidos a treinamentos intensos e 25 avaliações prévias, além do teste final (o temido teste 26) em que o candidato deve fazer um solo na frente de toda a escola com o diretor e os veteranos que dão sua opinião sobre a apresentação e decidem se o candidato está aprovado.

O processo de ingresso costuma durar entre sete e oito meses, embora alguns consigam atingir o objetivo em apenas dez semanas.

Os garotos da Drakensberg Boys Choir School cumprem uma rotina que começa às 7h30 da manhã e segue durante o dia com aulas de ciências sociais, matemática, tecnologia, economia e línguas como inglês e africâner (dois dos onze idiomas oficiais da África do Sul). Teoria musical, treinamento vocal e duas horas diárias de ensaio com o coral também fazem parte do cotidiano.

SAIBA MAIS
Drakensberg Boys Choir School
web.dbchoir.co.za

* O Viagem em Pauta viajou à África do Sul com o apoio da South African Airways e do South African Tourism

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