CRÔNICA: O gato (patagônico) subiu no telhado

Vínhamos a guia de expedição e eu, em uma conversa descompromissada sobre política chilena, geografia patagônica e praias paradisíacas do Brasil, quando o motorista fez uma parada brusca na beira da estrada estreita de cascalho.

Do lado oposto ao nosso, outra van também parara diante daquele terreno de estepe patagônica (uma rara movimentação para um dia chuvoso e de Torres del Paine encobertas).

O motivo da parada não programada naquelas terras isoladas de ar congelante era um puma que nos olhava com desdém, a menos de 10 metros de distância.

Um, não. Três. A fêmea e dois filhotes.

– “Posso descer?”, arrisquei, esperando já uma negativa.

– “Claro”, devolveu a guia.

Para cada passo dado em direção àqueles gatinhos que chegam a 90 kg e 2 metros de extensão, a mãe se aproximava com outras duas passadas. Fiquei ali, paralisado, disparando o dedo no botão da câmara.

Aquele era um momento raro. Em 8 meses de temporada no hotel Tierra Patagonia, minha guia de expedição havia visto apenas 5 vezes aquele bicho raro e tímido que habita a Patagônia.

Um ou dois minutos mais de exibicionismo e a família de felinos foi se escondendo debaixo do arbusto denso que se formava abaixo do nível da estrada.

Puma visto durante trilha no Parque Nacional Torres del Paine, no sul do Chile (foto: Eduardo Vessoni)
Puma visto durante trilha no Parque Nacional Torres del Paine, no sul do Chile (foto: Eduardo Vessoni)

E sumiram para nunca mais serem esquecidos pelos olhos frustrados do jornalista que viajara 13 horas, entre escalas e travessias de carro, até a Patagônia chilena para ver as Torres del Paine que nunca se mostraram, durante os 4 dias em que esteve ali.

O motorista até tentou dar uma volta, ainda na estrada, na esperança de que algum arbusto mais baixo revelasse algum pedaço de puma que se deixasse ser visto. Mas a família de felinos tinha ido embora para sempre.

Foram para longe dos olhos, mas continuaram ali, no Parque Nacional Torres del Paine, seu habitat natural.

Trilha Orígenes de la Vida, no Parque Nacional Torres del Paine (foto: Eduardo Vessoni)
Trilha Orígenes de la Vida, no Parque Nacional Torres del Paine (foto: Eduardo Vessoni)

Três quilômetros mais e a van voltou a parar. No meio do nada, com a frente embicada em direção à vegetação rasteira.

– “Nossa trilha começa aqui”, anunciou a guia.

Descíamos a exatos 3 km de onde acabáramos de ver aqueles bichos que habitam uma área de 80 km², caminham 50 km por dia e correm a 60 km por hora.

Era muito quilômetro para pouca perna humana.

– “Mas e se a gente encontrar um puma?”, perguntei, tenso.

– “Melhor”, devolveu a guia.

Já nadei com tubarões, mergulhei entre arraias gigantes, acampei na Amazônia e fiz safári na África. Mas nenhuma dessas experiências tinham sido capazes de me preparar (de corpo e de alma) para andar em um mesmo terreno frequentado por pumas (selvagens, para deixar bem claro o teor da tensão).

E, a partir das primeiras passadas, tudo era puma.

As calças impermeáveis da guia que se encostavam uma na hora parecia o miado forte de um gato; as cordas da mochila nas minhas costas que batiam nas pernas sempre davam a impressão de focinhos atrás de mim; e a jaqueta molhada pela chuva constante pesava no pescoço como um bafo quente de felino.

Para mim, eles estavam sempre à espreita.

E não era só coisa de jornalista querendo história para contar. Eram pistas reais, bem debaixo dos pés.

A trilha ‘Orígenes de la Vida’, um caminhada de 3 km que eu escolhera fazer naquela tarde, no setor leste do Parque Nacional Torres del Paine, é considerada um dos locais mais fáceis para avistar pumas.

As provas estavam nas dezenas de esqueletos de guanacos, macabramente, espalhados pelo mesmo território que acabávamos de passar. Alguns, recentemente, banqueteados.

Esqueleto de guanaco visto durante a trilha ‘Orígenes de la Vida’, na Patagônia chilena (foto: Eduardo Vessoni)
Esqueleto de guanaco visto durante a trilha ‘Orígenes de la Vida’, na Patagônia chilena (foto: Eduardo Vessoni)

Trilha ainda é minha atividade preferida ao ar livre (sobretudo quando a Patagônia se exibe em cenários de geleiras milenares, lagos de origem glacial e maciços imponentes).

Estava tudo lindo e tal… Mas eu devo confessar que, em nenhum momento, consegui tirar os gatinhos da cabeça.

A guia paciente, na tentativa de acalmar jornalista inexperiente no assunto, foi então descrevendo o manual de comportamento, no caso de um daqueles pumas cruzar nosso caminho. Olhar sempre nos olhos, nunca lhe dar as costas e se agrandar para parecer maior do que o bichano.

Para sorte (e azar) do jornalista, eles nunca mais apareceram, mas ficaram ali marcados, entre o medo e a surpresa, como aquelas experiências em que o nada da Patagônia é capaz de se exibir na sua versão mais completa.

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SAIBA MAIS
Tierra Hotels
www.tierrahotels.com

* O Viagem em Pauta viajou para a Patagônia chilena a convite do Tierra Hotels e esta é uma das atividades de expedição oferecidas aos hóspedes do hotel.

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