CRÔNICA: Sr. passageiro, o assento da frente não lhe pertence

Nós, jornalistas de turismo, vivemos entre altos e baixos, literalmente.

Mas entre todos os aborrecimentos de quem voa com frequência é ser (mal) acompanhado pelo passageiro traseiro que não se dá conta de que a poltrona da frente não lhe pertence.

Sempre tem aquele que acredita que o assento dianteiro é uma espécie de extensão de seu próprio lugar. Quem nunca foi, violentamente, levado para trás quando outro passageiro decide usar, displicentemente, o seu encosto para se apoiar ao deixar ou entrar na fileira de trás?

Recentemente, viajei entre São Paulo e Santiago, uma viagem de 4 horas em que o indiano de trás insistia em demonstrar seu desinteresse pelo passageiro da frente (no caso, eu). Aliás, não sei se nessa encarnação andei serei evoluído o suficiente para entender a particular relação que os indianos têm com certos espaços físicos na Terra.

Cada vez que ele deixava a fileira, um braço pesado se deitava na minha poltrona e eu me inclinava para trás. E quando ele voltava, o mesmo acontecia.

E a ioga indiana seguia numa nervosa e descompassada dança de Kali quando seus pés insistiam em tocar as costas do meu assento. Não uma ou algumas. Mas durante as 4 horas de viagem.

Cogitei mudar de lugar, mas o voo vinha lotado.

O indiano tapou o rosto com uma daquelas máscaras cirúrgicas que a gente vê em asiáticos (e no Michael Jackson). Juro que desejei que houvesse ali algum tipo de anestésico que pudesse tirar aquele homem do meu caminho. Das minhas costas para ser mais específico.

Mas a cada espasmo seu, já adormecido, eu voltava a beijar a poltrona da frente.

Decidi terminar os últimos minutos da viagem de pé, ao seu lado.

Na manhã seguinte, menos de 12 horas depois, voltei a encarar a lata voadora até Punta Arenas e mais uma vez, fui surpreendido por outro passageiro incauto.

O voo ia ser turbulento.

Durante todo o tempo em que estivemos em solo, longos 20 minutos, ele manteve um diálogo com alguém que parecia ser um colega de trabalho.

Planilhas, horário da reunião e outros assuntos que não consegui ouvir, quando a voz foi baixando o tom (aliás, qualquer dia escrevo sobre as técnicas que tenho para sustentar o vício que tenho em acompanhar histórias alheias. Sem que elas saibam, claro).

E para ocupar a mão nervosa enquanto o dono falava ao celular, a bandeja se fechava e se abria, compulsivamente. Sabe quando a pessoa atende um telefone e começa a andar em círculos? Pois no seu caso, era a mesinha da frente (no caso, a das minhas costas).

Minha tolerância aérea andava nas alturas e, a cada movimento de mesinha, eu lhe retribuía com um subir e descer de poltrona.

Quem nunca foi vítima de um passageiro vizinho que não tenha se dado conta de que o assento da frente não lhe pertence? Aliás nenhum lhe pertence, exceto aquele minúsculo espaço comprado na classe econômica.

Aliás, sugiro que as instruções de segurança sejam acompanhadas de regras de como se relacionar com a poltrona da frente. Que não lhe pertence, senhor passageiro.

1 Comentário

  1. Eduardo, acompanho seu blog e post’s diariamente já faz algum tempo.
    Coleciono dicas e sugestões e com frequência envio ideias para minha irmã que mora na Suíça .
    Não tenho o hábito de comentar, mas este artigo em particular merece os parabéns. Precisamos sim educar as pessoas em todos os sentidos. Outra situação que particularmente não me conformo é como os viajantes em avião perdem a vergonha de soltar gases, existem vôos que vc entra e é um cheiro horrível.

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