CRÔNICA: Nu e (des)armado

Essa história de praia de naturismo não é para os fracos. Muito menos para jornalistas nus e armados com câmera.

Durante uma viagem para preparar um guia sobre o litoral da Paraíba, fui convidado para conhecer a primeira praia de naturismo do Nordeste. Mais do que convidado, fui embebedado, antes de ser convencido de que deveria tirar a roupa para entrar em Tambaba, considerada a primeira praia de naturismo do Nordeste.

O processo de persuasão começou em um simpático restaurante pé-na-areia da região, onde a excêntrica e divertida proprietária foi me tranquilizando com uma ébria sequência de caipirinhas exóticas preparadas pelo bartender do estabelecimento.

Primeiro veio a clássica de limão. Logo, a de uva, outra de cajá e uma quarta opção que, naquele momento, eu já nem sabia mais do que era.

Por mim, eu já tirava a roupa ali mesmo (não que os praticantes de naturismo precisem recorrer a bebidas para se entregar às delícias de nadar sem roupa, mas jornalistas urbanos acostumados a trabalhar metidos em calças e camisas, sim).

Seguimos de bugue para a praia.

Praia de Tambaba, em Conde, na Paraíba (foto: Eduardo Vessoni)
Praia de Tambaba, em Conde, na Paraíba (foto: Eduardo Vessoni)

Declarada a primeira praia de naturismo do Nordeste, Tambaba fica no município de Conde e abriga piscinas naturais, falésias e um fascinante labirinto de pedras que dá acesso a áreas mais reservadas.

Mas isso não importava. Naquele momento, não me saía da cabeça a ideia de ter que andar pelado, na frente de desconhecidos, também pelados.

E as regras são claras: homens desacompanhados não entram e todos os que cruzam o portão de acesso devem, obrigatoriamente, estar nus.

Cheguei com uma das assessoras que me acompanharia, durante a visita à Paraíba.

Eu, nu. Ela com roupa.

Paramos na lojinha de artesanato que separa o trecho frequentado pelos que não vão tirar a roupa e os outros 500 metros exclusivos para o naturismo.

— “Posso entrar com câmera? Sou jornalista e blá blá blá”, perguntei, inocente.

A simpática mocinha que fazia a recepção olhou, fixamente, na minha câmera jogada sobre o balcão e armada com uma teleobjetiva 70-200 mm, antes de disparar:

— “Poder, você pode. Só não sei se vai conseguir esconder essa câmera aí”.

Arrisquei.

O local é administrado por uma associação bem séria e conta com regras rígidas como acesso exclusivo apenas para quem está sem roupa e entrada proibida de homens desacompanhados, ao longo dos 500 metros dedicados, exclusivamente, ao naturismo.

Cruzamos a breve trilha de mata fechada, uma espécie de fronteira ideológica que separa os vestidos dos nus, e saímos no paraíso dos naturistas, uma pequena faixa de areia fofa recortada por pedras e coqueiros altos.

Mal demos meia dúzia de passos (eu, nu; e ela com roupa, só para deixar bem claro) e fomos abordados por um simpático casal de idosos que foi logo questionando minha acompanhante:

— “Por que você está com roupa?”

Deu até para ouvir a engolida seca da interlocutora, antes de disparar alguns argumentos que não convenceram aqueles convictos naturistas.

Ela teve que se retirar.

E fiquei eu, lá, sozinho (nu e com uma câmera na mão), mas, àquela altura, eu não podia deixar a minha pauta morrer na praia.

O jornalista está nu (e armado)
O jornalista está nu e (des)armado

Fui entrando devagarzinho com a câmera estendida ao longo do corpo (exposto e tímido).

E pode ficar tranquilo e livre de qualquer moralismo ou preocupação com curvas corporais.

Tambaba se exibe em sua forma mais natural (e seus visitantes também). Tem jovens, adultos, crianças, casais de idosos, magros e obesos. Só não tem gente vestida.

Voltei para deixar a câmera com a assessora, quem me espiava na passarela de madeira de acesso à praia. Livre e já acostumado com a sensação de estar exposto em público, corri até o mar e dei aquele que seria um dos meus mergulhos mais espontâneos da vida.

— “O bichinho correu todo solto que nem um passarinho feliz”, soltou a proprietária do restaurante que também me fitava ao longe, na área dos vestidos.

Fiz de conta que não ouvi o comentário de dupla interpretação.

Peguei a câmera de volta e fui para a areia, como quem cruza a avenida Paulista, a fim de registrar, por fim, Tambaba.

Praia de Tambaba, em Conde, na Paraíba (foto: Eduardo Vessoni)
Praia de Tambaba, em Conde, na Paraíba (foto: Eduardo Vessoni)

Dois ou três cliques discretos, sempre com o cuidado de não registrar ninguém, e fui surpreendido por um homem, nu e furioso com tudo balançando no mesmo ritmo apressado de quem queria me impedir de trabalhar.

Abaixei a câmera e, com a paciência de quem não queria perder a pauta, comecei a explicar minhas intenções por ali, que era jornalista em missão oficial acompanhado da assessoria da Paraíba e blá blá blá.

Inútil.

E logo se armou na praia uma discussão de peladões, acalentada por mais um que chegou se apresentando como o gerente da praia. Em poucos minutos, um bando de homens nus, com tudo solto e à mostra, protagonizava um discussão surreal, na beira da praia. Com direito à plateia (nua, só para deixar bem claro) que me olhava de longe.

Mais uma troca de argumentos e decidi deixar o local. A discussão já beirava o insuportável e eu ainda tinha duas acompanhantes (vestidas) me esperando na entrada da praia.

Voltei de cabeça baixa para a passarela de acesso e relatei, frustrado, o que tinha acontecido.

E sem nenhum pudor, como deve ser entre quem frequenta aquelas terras escondidas, despidas e lindas, a dona do restaurante disparou:

— “Coitado do bichinho, não tem nem um manchinha na pitoca e ainda é tratado assim”.

Me senti nu com o comentário.

Sobre Tambaba

A prática do naturismo é coisa séria e tem regras rígidas estabelecidas pela Federação Brasileira de Naturismo.

Segundo as normas, são considerados faltas graves os seguintes comportamentos, com direito até à expulsão do infrator: ter comportamento, sexualmente, ostensivo e/ou praticar atos de caráter sexual ou obscenos nas áreas públicas; praticar violência física como meio de agressão a outros; e causar dano à imagem pública do Naturismo ou das áreas naturistas.

Homens desacompanhados ou acompanhados de outros homens têm acesso proibido. Mas mulher acompanhada de outra mulher, pode.

Com ares selvagens e escondida entre imensos coqueiros, a praia conta apenas com um bar, um restaurante e uma pousada.

 

 

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