CRÔNICA: Do tempo do ontem

Eu sou do tempo em que reservar passagem aérea era um ritual que começava em cadernos de turismo e terminava com longas ligações telefônicas em que atendentes buscavam as melhores combinações de datas e tarifas.

Hoje, em dois ou três cliques, a gente pesquisa, compra o bilhete, faz reserva de carro, compara preço de hotéis e, por falta de atenção ao quadradinho marcado, automaticamente, adquire até seguro-viagem.

Eu sou do tempo em que a passagem aérea era um papel carbonado, preenchido à mão, que vinha anexado a um longo livrinho de páginas com letras minúsculas com regras de uso e restrições de bagagens que a gente nunca lia.

Hoje, o acesso ao embarque se resume a um papel fino e frágil que sai, quase sempre já picotado, de máquinas com cara de fax gigante que cospem sua passagem no chão, no meio do saguão do aeroporto.

Eu sou do tempo em que todo voo era precedido de uma coreografia bem ensaiada de movimento de mãos e braços que se lançavam no ar para indicar saídas de emergência e máscaras de oxigênio que cairiam sobre nossas cabeças, em caso de despressurização da cabine.

Hoje, somos entretidos com animações sem vida que tentam nos entreter com instruções de segurança e de comportamento, na tela individual de vídeos operados por comissários já acomodados em seus assentos.

(foto: THOR/Flickr-Creative Commons)
(foto: THOR/Flickr-Creative Commons)

Eu sou do tempo em que o corpo comissariado, em sua maioria formado por mulheres de penteado esmerado, desfilava solene pelo corredor do avião com a mesma intimidade e graça de modelos que invadiam passarelas.

Hoje, a profissão de comissário, que naquela época atendia pelo nome de aeromoça, parece ter se banalizado tanto que às vezes me sinto em um ambiente corporativo qualquer em que moças de escritório servem, roboticamente, um café insosso ou pacotinhos barulhentos de biscoito que seu vizinho de poltrona parece fazer questão de demorar em abri-lo.

Dias desses voei em uma companhia de baixo custo da Europa em que o uniforme das moças eram calças jeans justas e uma blusinha fina de gola. Para mim, aquilo foi como visitar um amigo que nos recebe de pijama.

Eu sou do tempo (leitores, retirem as crianças da sala) em que fumávamos na parte posterior do avião (ou “encrenca voadora” como bem definiu Graciliano Ramos em seu “Viagem”). Maliciosamente, eu reservava a última poltrona da ala de não fumantes e, logo após a sobremesa, eu corria para a poltrona de trás para tragar a mesma fumaça que corria pela tubulação que renovava o ar do ambiente daquele “aparelho assassino”, outra definição do autor de Vidas Secas.

Hoje, o entretimento a bordo é uma seleção de músicas que a gente nunca gosta, um cardápio de filmes dublados com cheiro de Sessão da Tarde e uma mesinha apertada que faz a gente se sentir um dinossauro de braços curtos, na hora de comer.

Aliás, eu sou da época em que a refeição, tanto em voos transoceânicos como na ponte aérea, era um ritual que começava com o esquentar cuidadoso de pratos bem elaborados e terminava com um ruído nostálgico de talheres de inox (ou de prata, nas outras classes do avião) que nos iludiam com a sensação de estarmos em um restaurante em terra firme.

Hoje, entre pacotinhos de amendoim ruidosos e difíceis de serem abertos, a gente tenta cortar o melão da sobremesa sem quebrar o garfo e a faca de plástico. No meu caso, eles sempre se partem em dois.

Eu sou do tempo em que refeições não eram assinadas por chefes de cozinha reconhecidos, internacionalmente, mas um simples café da manhã no trecho Rio-SP era um pequeno almoço servido com pão quente, queijo que tinha sabor, frutas e iogurte (além de um carrinho de bebidas que ia e vinha pelo corredor, diversas vezes).

Hoje, o conceito de low cost deixou aquela gente tão tacanha que, mal terminam de servir a última poltrona, e já correm para esconder o carrinho de bebidas.

Dia desses, voando para Fernando de Noronha, me senti saindo de uma festa infantil com direito a caixinha-surpresa entregue depois do parabéns. O serviço de bordo eram balinhas de goma em forma de aviãozinho, um pacote de batatinha frita, outro de bolachinha recheada e um suco industrializado. Tudo bem acomodado em uma caixinha bem colorida (e calórica).

(foto: Julia P./Flickr-Creative Commons
(foto: Julia P./Flickr-Creative Commons

Eu sou do tempo em que roteiros de viagens cabiam, inteiros, em longas páginas de cadernos de jornais e revistas que se dedicavam a detalhar destinos turísticos, cujas informações eram ampliadas em imensos guias impressos que levávamos debaixo do braço para ler no avião.

Em tempos de vida virtual, tudo parece caber em textos curtos e apressados dos veículos sobreviventes ou em blogs displicentes em que seus autores estão mais preocupados em ganhar coraçãozinhos em redes sociais de fotos.

Recentemente, fiz questão de contar o número de palavras em um post de um desses profissionais que vivem de falar sobre viagens: eram 3 palavras descrevendo o lugar, acompanhadas de 23 hashtags em agradecimento aos patrocinadores (#prontofalei).

Eu sou do tempo em que voltar de férias implicava aguardar, ansiosamente, três ou quatro dias úteis para fotos serem reveladas em lojas da avenida Liberdade, aqui em São Paulo. Um ou dois rolos de 36 poses eram suficientes para registrar, fielmente, uma viagem inteira.

Hoje, tudo é registrado na hora (de fotos com pratos esverdeados a imagens desfocadas) e a gente nunca sabe se o viajante está mesmo aproveitando a viagem ou se é a viagem que está se aproveitando dele para aparecer em redes sociais.

Em tempos de hashtags, o mais importante é indexar a mensagem (e a viagem).

Eu sou do tempo em que bagageiros sobre poltronas de avião carregavam apenas com sacolas inofensivas de souvenirs ou bolsas femininas.

Mas quem já voltou de Miami ou Nova Iorque, acompanhado de outras centenas de brasileiros, sabe que a situação agora é outra. Dia desses flagrei uma passageira desesperada querendo esconder as malas excedentes no minúsculo compartimento onde são guardados o material de uso exclusivo da tripulação.

Eu tô ficando velho e rabugento, mas eu sou do tempo em que viajar era algo mais nobre.

3 Comentário

  1. Minha primeira viagem de avião foi para BHZ num Looked Lodestar, pousando no aeroporto de Lagoa Santa. Na época, Pampulha ainda estava sendo construida. O Lodestar anteceu ao DC3. Sou velho paca…

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