CRÔNICA: Gringo brasileiro

O barco para 847 pessoas sai às 6h30 da manhã, mas pode chegar às 4h45 para ir preparando o espírito para uma viagem fluvial amazônica.

E haja espírito e haja Amazônia.

O início da fila no salão estreito do Terminal Hidroviário de Belém se junta com o fim dela, enquanto o meio se encontra com o começo e a gente já não sabe se é fim, meio ou começo.

Logo cedo, aquela gente arrodeia o salão como a formiga que dá volta na embaúba ou o igarapé que rasga a floresta.

Tão variada quanto a maior floresta tropical do planeta é a fauna humana que desfila na sala de acesso à embarcação.

Tem todo tipo de gente: a que volta pra casa, a que sai de casa, a que veio do médico, a que vai trabalhar e a que quer fazer turismo. Uns preferem praia oceânica; outros, de rio.

Tem o homem que vai emendando uma história na outra como quem costura um manto para o Círio de Nazaré.

Tem a moça do vestido de chita com cara de quem espera o boto que nunca chega e a senhora evangélica da roupa comportada que nem se importa com golfinhos que levam inocentes para o fundo do rio.

Tem a roda de adolescentes que ensaiam uma coreografia tão desajeitada quanto aquele barco que se mexe sobre águas barrentas e agitadas.

Tem o casal que viaja abraçadinho como em um cruzeiro para recém-casados, mas também tem a senhora que chora, atravancando o caminho, porque o marido já não é tão bom como antes e não lhe ajuda mais a carregar as malas.

Tem aquele que se embala na maré e tem os que são pegos de surpresa com a água que respinga dentro do barco.

Tem o vendedor de jornal sensacionalista que empunha a capa da edição do dia, cuja manchete “Homem é morto com 6 tiros” não combina com a geografia do lado de fora.

Tem o passageiro que alerta os amigos para ficarem no último andar do barco, pois é mais fácil sair se a embarcação afundar.

Tem o vendedor que sai batendo o saco de 30 kg com biscoito de farinha na cabeça de quem senta no corredor, mas também tem o que vende óculos espelhados que se equilibra na escada com o tabuleiro azulado em uma mão e o espelho de borda alaranjada na outra.

Sussuarana, macaco e cobra não tem, mas tem gato, cachorro e coelho (cada um na sua gaiola).

(crédito da foto: vizinho de poltrona que disse que só sabe fazer foto com celular)
(crédito da foto: vizinho de poltrona que disse que só sabe fazer foto com celular)

Tem gente que, quando a viagem termina, nem espera pra desembarcar pela porta. Vai logo pulando pela janela com pressa de pisar na terra firme.

“E falta quanto pra chegar em Camará?”, pergunto, cansado de ver tanta coisa que tem pra ver naquele barco. “Quando o barco encostar é porque chegou”, me responde o rapazinho falastrão que viaja ao lado.

É tudo tão novo que a gente de fora até se sente estrangeiro. Tão forasteiro que fica estampado na cara.

Fui pedir pro vizinho de banco registrar minha viagem com uma foto e a mulher que cruzava nosso caminho disparou: “Ele é gringo ou é gringo do Brasil mesmo?”

Tem todo tipo de gente numa viagem de barco pela Amazônia, inclusive jornalista gringo nascido no Brasil mesmo.

LEIA TAMBÉM: “CRÔNICA: Do tempo do ontem”

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*