(Des)Noronha

Vinha eu arrastando chinelos na ladeira íngreme da Vila dos Remédios, em Fernando de Noronha, quando fui abordado por um casal.

− “Você sabe onde tem um bistrô por aqui?”, perguntou o desavisado, enquanto a namorada ao lado arrumava o cabelo e ajeitava a bolsa dourada.

Cheguei até a olhar ao redor para ter certeza de que eu estava no lugar certo.

− “Um bistrô? Por aqui???”, devolvi, incrédulo.

− “Sim, um bistrozinho para gente jantar”, reforçou o deslocado.

Improvisei uma resposta e indiquei o primeiro restaurante que vi, no final da ladeira, e que eu nem conhecia. Achei que o casal ia gostar das lampadinhas charmosinhas com cara de bistrô.

Mal concluí a sugestão displicente e, no caminho contrário, descia uma caminhonete lotada de músicos, a bordo de um veículo envolto em adesivos que anunciavam a atração da noite: o “Aniversário da Piriguete”, no tradicional Bar do Cachorro.

A noite prometia, e o relógio da igreja nem tinha marcado ainda sete horas.

MPB no Muzenza, em Fernando de Noronha (foto: Eduardo Vessoni)
MPB no Muzenza, em Fernando de Noronha (foto: Eduardo Vessoni)

Há tempos, a ilha de Fernando de Noronha virou destino de celebridades e de turistas com orçamento despreocupado, estimulados por uma profissionalização local que trouxe à ilha novos ares e cifras elevadas.

Afinal de contas, quem não quer boa cama para dormir e comida bem elaborada, em um destino paradisíaco de praias exibidas? Mas precisa fazer das férias uma versão gourmetizada que parece uma extensão fiel da sua rotina diária?

É preciso (des)noronhizar Fernando de Noronha para não ver a ilha virar uma grande Sala Vip com convidados VIPs que se veem e são vistos em lounges VIPs, em endereços ainda mais VIPs, onde só os VIPs podem entrar.

Em Noronha, já vi mulheres em bugues de passeio, envoltas em echarpes de seda; já vi turista vaidosa se equilibrar no salto-alto do chão rústico de paralelepípedos do centro histórico; e já flagrei um iate fazendo barulho na Praia do Sancho, onde os embarcados rebolavam na proa, empunhando taças de espumante, ao som daqueles sons de apelo popular que carregam no nome sufixos como “nejo” ou “brega”.

Às vezes, tem-se a impressão de que falta sentimento de pertencimento em quem vai para ficar e em quem fica para ir.

Ali não é Ibiza, nem Miami ou muito menos o litoral norte de São Paulo. Noronha é Noronha desde bem antes de estrangeiros se digladiarem em terras estratégicas, entre o Novo Mundo e a Europa.

Noite de sábado e minha pauta era acompanhar a discreta e intensa vida noturna de Fernando de Noronha. O que ninguém estava esperando era que a noite seria do aniversário da Piriguete, moradora local que anda investindo pesado para reforçar o currículo de nova celebridade.

Nessa nova versão de “o Paraíso é aqui”, frase que o navegador Américo Vespúcio teria deixado escapar quando chegou a Noronha, em 1503, teve até gogo boy na festa da auto-intitulada piriguete, segundo me confessou uma empresária de Recife .

Não se falava em outra coisa.

Quem descia a ladeira, ia para festa; quem subia, fugia dela.

O vizinho Muzenza viu a MPB sensível de Daniel Marrom ser esvaziada; o Bar da Dice (assim mesmo sem o R) baixou as portas, logo nas primeiras horas da madrugada e antes de acender o globo de luzes negras, no centro do galpão improvisado; e o violão hippie do Boldró se calou mais cedo, com todo mundo de bode, deitado na areia.

A Noronha real não é balada da Vila Olímpia e nem se agarra às luminárias charmosinhas expostas em bistrôs da Vila Madalena.

Noronha é o maracatu colorido que muda a trilha sonora da ilha, às segundas, no Bar do Cachorro; é o encontro dos alternativos dos saraus improvisados da Praia do Boldró, na casa do Gerson; é a balada forte do Bar da Dice que só começa depois das duas da manhã, no bairro Três Paus.

O Pico, em Fernando de Noronha (foto: Eduardo Vessoni)
O Pico, em Fernando de Noronha (foto: Eduardo Vessoni)

A Noronha que a gente quer é o bar que se veste de cordel e xilogravura de J. Borges para receber música em tons mais baixos, n’O Pico; é o restaurante a portas fechadas da Mesa da Ana que recebe apenas 10 pessoas por noite, ao som de The Doors ou de outro vinil escolhido na pilha de discos, manuseada pelos próprios clientes; é a feijoada que cai bem ao som de chorinho, aos sábados, no mesmo bar que, horas, depois, veria a Piriguete apagar velinhas.

Para nossa sorte, Noronha é feita de nativos (originais ou emprestados, temporariamente, “lá de fora”, como é conhecido o continente) que fazem a “praia mais linda do mundo” ficar ainda melhor e a visibilidade marinha ganhar níveis mais profundos.

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Noronha é a balconista estrangeira do mercadinho que, depois do expediente, bate forte o tambor do maracatu; é a empresária africana que dá novos tons à programação sócio-cultural da ilha; é o senhor quebra-galhos da mercearia que, quando o sol vai embora, larga tudo para se contorcer em um forró bem ensaiado que convida mocinhas tímidas; é a merendeira Lenice que, de dia, vende lanches na escola da ilha, mas que se transforma em Dice, na balada mais underground daquelas terras.

Noronha é o chef de cozinha gaúcho que, em dias de folga, se veste de cilindro e desce em águas profundas; é o francês bem humorado que trocou as comodidades da Europa pelas fotografias sob novas perspectivas que ninguém teve tempo para ver; é o empresário que larga tudo para acompanhar o jornalista recém-desembarcado; e é o policial que faz ronda no centro histórico da ilha, mas que sempre dá um jeito de dar uma passada para ouvir mais um arrasta pé, no Bar do Cachorro.

A gente nunca sabe se é trabalho na balada ou se é balada com trabalho.

E no meio desse mundo de possibilidades, tem até quem procura o bistrô mais próximo para um jantar a dois.

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(*O Viagem em Pauta viajou para Fernando de Noronha a convite da Atlantis Divers)

1 Comentário

  1. Parabéns pela matéria! Estive em fernando de noronha em 2007 e novamente esse ano. Noronha é um destino caro que para o meu caso so fazendo um bom planejamento financeiro, pesquisei bastante, restaurante, passeios e etc. Em junho desse ano ficamos na Pousada Carmo muito boa recomendo simples e com pessoas educadas. O almoço na maioria das vezes foram no JC, mas o jantar diversificamos, gostamos bastante do restaurante mergulhão acompanhar o entardecer nesse fomos diversas vezes. Ficamos 8 dias na ilha tudo de bom! Paraíso!
    Mas o que que infelizmente desanima, mas já estava ciente do valor que seria pago, mas cobrar o mesmo valor de uma criança de 5 anos e o pior não vemos o valor sendo investido na ilha que é a Taxa de Preservação Ambiental.

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