Gastronomia de Belém é experiência inusitada da Amazônia

É na maior floresta tropical do planeta que Belém se inspira na hora de montar a mesa.

Mas não basta apenas incluir pimenta, tucupi e maniva nas receitas. Tão variada quanta a Floresta Amazônica que se planta bem no quintal de casa, a gastronomia da capital do Pará se exibe com uma originalidade e criatividade que têm feito chefs de cozinha voltarem a atenção para o Norte do Brasil, uma atenção voltada para aquelas terras distantes que não se via desde os tempos do Ciclo da Borracha.

Porta de entrada da Amazônia, Belém dá as costas para a globalização da cozinha brasileira e se orgulha do toque regional impresso em cada um de seus pratos.

“A Amazônia é o quintal do cozinheiro”, descreve Allan Renato, chef do restaurante Manjar das Garças.

E é dos fundos de casa que saem ingredientes típicos amazônicos que ganham versões inusitadas como ravioli de cupuaçu e maniçoba, nhoque de pupunha, risoto de jambu e tomilho, e até sorvetes de bacuri e taperebá.

Recentemente, o Viagem em Pauta desembarcou em Belém para conhecer alguns dos endereços com os pratos mais inusitados (pelo menos para quem vem do lado de cá do Brasil).

Confira a seleção:

⇒ Para amantes de açaí

Só pelo nome na fachada do casarão centenário do centro de Belém já dá para ter uma ideia do festival que acontece ali dentro.

Inaugurado em 2010, o Point do Açaí é conhecido por pratos com gó, pirarucu, filhote, dourada, camarão e carne seca (tudo acompanhado pelas tradicionais jarras de um litro de açaí preto e do branco, conhecido como bacaba, que podem ser temperadas com açúcar, farinha d’água e farinha de tapioca.

Bacaba e açaí preto acompanham os pratos do Point do Açaí, em Belém (foto: Eduardo Vessoni)
Bacaba e açaí preto acompanham os pratos do Point do Açaí, em Belém (foto: Eduardo Vessoni)

Dizem que o pirarucu está para o Pará como o bacalhau está para Portugal, por isso esse é o carro chefe da casa, cujas porções fritas (e bem sequinhas) são acompanhadas por arroz branco, vinagrete e farofa.

Sobre a mesa, sempre há açúcar, farinha d’água e farinha de tapioca (foto: Eduardo Vessoni)
Sobre a mesa, sempre há açúcar, farinha d’água e farinha de tapioca (foto: Eduardo Vessoni)

Para quem vem do Sul ou do Sudeste do Brasil, a mistura é quase como alternar etapas de uma refeição e provar o prato principal junto com a sobremesa. Só não pode cometer o pecado de pedir granola e banana para comer com o açaí (essa invenção incompreendida por ali, a gente deixa para provar em algum quiosque aqui de São Paulo ou da beira da praia).

Point do Açaí
Bairro Campina, em frente à Estação das Docas
Tel.: (91) 3212-2168
De terça a sábado, das 11h às 22h30; e domingo, das 11h às 16h
www.pointdoacai.net

⇒ Mais açaí

“Comeu, morreu”, conta a lenda local sobre comer açaí com outra fruta.

Não se sabe a origem dessa crença e, como ninguém quer se arriscar, a próxima parada é no tradicional Mercado Ver-o-Peso, um clássico de Belém que recebe clientes com barracas onde são comercializadas porções de peixe frito com… açaí.

Peixe com açaí, uma das especialidades amazônicas encontradas no Mercado Ver-o-Peso, em Belém (foto: Eduardo Vessoni)
Peixe com açaí, uma das especialidades amazônicas encontradas no Mercado Ver-o-Peso, em Belém (foto: Eduardo Vessoni)

Tombado pelo IPHAN, esse complexo de quase quatro séculos de existência abriga também barracas de frutas e ervas, mercado de carnes instalado entre antigas estruturas de ferro e o Mercado de Ferro.

Mercado Ver-o-Peso
Avenida Boulevard Castilho França, s/n (Bairro Cidade Velha)
Diariamente, das 6h às 18h.

⇒ Menu degustação

A experiência é quase como ter um desfile amazônico bem diante dos olhos, em uma das áreas verdes mais belas de Belém.

No menu degustação do Manjar das Garças, restaurante localizado no Mangal das Garças, o cliente participa de um jantar de 8 tempos, elaborado a partir de uma breve conversa com o chef mineiro Allan Renato, há 12 anos no Pará.

No jantar em que o Viagem em Pauta conheceu a casa, uma espécie de resumo gastronômico do que se encontra na floresta do lado de fora, Allan nos recebeu com uma sequência de pratos contemporâneos com influências europeias e produtos da Amazônia como o biju de macaxeira com salmão e aroma de priprioca; camarão com painço, manga e emulsão de laranja; nhoque de pupunha; filhote com amêndoas, risoto de jambu e tomilho; foie gras com brioche de cupuaçu; e o obrigatório petit gateau de tapioca e sorvete de paçoca.

Prato do Manjar das Garças, em Belém (foto: Divulgação)
Prato do Manjar das Garças, em Belém (foto: Divulgação)

Para o chef da casa, a nova cozinha paraense encontrada em Belém é resultado de fatores como os avanços na capacitação profissional da região e a maior exigência do público.

Para quem não quer encarar os R$175 do menu degustação, o restaurante conta também com pratos a la carte como o filhote assado com amêndoas e o buffet do almoço com pratos quentes como tambaqui, tucunaré, pirarucu e filhote, acompanhados de molhos regionais como os de bacuri, cupuaçu e taperebá.

Manjar das Garças
Rua Dr. Assis s/nº (Pq. Ambiental Mangal das Garças – Cidade Velha)
Tel.:(91) 3242-1056
De terça a sábado, das 12h às 16h e das 20h às 2h / domingo, apenas almoço)
www.manjardasgarcas.com.br

⇒ Cozinha orgânica

Vegetarianos e simpatizantes da comida saudável sabem o drama que é na hora de comer em destinos da região amazônica brasileira. Afinal de contas ainda tem gente que acha que peixe dá em árvore.

Localizado na Estação das Docas, o Bio Mercato é um restaurante discreto do segundo andar desse bem-sucedido complexo gastronômico que funciona em antigos armazéns reformados, no porto de Belém.

Diariamente, a mesa do buffet recebe invenções criadas pelo chef Djan Tourinho Monteiro como o vatapá vegano, pesto de chicória do Pará, yakissoba, estrogonofe e quibe (tudo feito com soja), além de opções com proteínas animais (geralmente, frango, carne e peixe).

Perca-se no risoto marajoara feito com arroz integral, chicória, tucupi, jambu e queijo de Marajó.

Embora funcione apenas no almoço, o restaurante está aberto até de noite com uma loja de produtos como chocolate artesanal amazônico, biscoitos veganos, e chá e café orgânicos.

⇒ Sorvete da Amazônia

Eis o exótico mundo amazônico em forma de picolé ou bolas de sorvete.

Fundada há mais de 50 anos, a Sorveteria Cairu possui mais de 50 sabores (um para cada ano de existência da casa).

Mas como ninguém vai até a Floresta Amazônica para provar sorvetes de chocolate ou creme, seja arrojado e invista em sabores como bacuri, graviola, castanha-do-pará, açaí, cupuaçu e taperebá.

Sorveteria Cairu
Belém conta com 14 endereços diferentes.
www.sorveteriacairu.com.br

⇒ Itália com Amazônia

Todo mundo sabe que a cozinha amazônica nem sempre é para todos os estômagos (que o diga a incompreendida maniçoba).

Por isso, o Famiglia Sicilia é uma espécie de introdução à cozinha paraense em que a Itália se encontra com a Amazônia, em pratos arrojados como os raviolis de maniçoba e de cupuaçu, o risoto com jambú e tucupi, e o petit gateau com doce de cupuaçu e chocolate amazônico feito na própria casa, acompanhado de sorvete de tapioca.

Ravioli de maniçoba do restaurante Famiglia Sicilia, em Belém (foto: Divulgação)
Ravioli de maniçoba do restaurante Famiglia Sicilia, em Belém (foto: Divulgação)
Ravioli de cupuaçu do restaurante Famiglia Sicilia, em Belém (foto: Divulgação)
Ravioli de cupuaçu do restaurante Famiglia Sicilia, em Belém (foto: Divulgação)

A cozinha ítalo-amazônica é chefiada pela proprietária Angela Sicilia e a harmonização dos vinhos fica por conta de seu irmão Fábio, sommelier responsável pela seleção dos quase 600 rótulos de vinhos italianos e chilenos.

Famiglia Sicilia
Av. Conselheiro Furtado, 1420 (Batista Campos – Belém)
www.famigliasicilia.com

⇒ Maloca amazônica

Para chegar a esse restaurante da Ilha do Combu, é preciso encarar uma viagem de barco de pouco mais de 15 minutos, mas cada milha náutica percorrida será recompensada com cada uma das opções gastronômica servidas no local.

Inaugurada há 33 anos como única opção de refeição no destino, o Saldosa Maloca (assim mesmo com L) é pioneiro nessa ilha conhecida pela produção de açaí e cacau, e serve, mensalmente, mais de 600 kg de peixes como a pescada amarela com molho de tucupi e jambu, além de tambaqui, filhote e pescada branca.

O Brasileirinho (pescada amarela com molho de tucupi e jambu) é um dos pratos do Saldosa Maloca, na Ilha do Combu, em Belém (foto: Eduardo Vessoni)
O Brasileirinho (pescada amarela com molho de tucupi e jambu) é um dos pratos do Saldosa Maloca, na Ilha do Combu, em Belém (foto: Eduardo Vessoni)

Destaque para a simpática Prazeres, proprietária da casa que faz questão de ir de mesa em mesa para saber como anda o serviço e levar comensais até o quintal, onde uma samaumeira repousa, há 400 anos, na margem esquerda do Rio Guamá.

“Ela é a alma daqui”, descreve, orgulhosa, a proprietária.

Saldosa Maloca
Ilha do Combu
Margem esquerda do Rio Guamá s/n (esquina com o Igarapé Combu)
Tel.: (91) 9 982-3396 / 8148-8396
Aberto aos sábados, domingos e feriados (durante a semana apenas com reservas)
www.saldosamaloca.com.br

⇒ Lá em Casa

Aberto há 43 anos pelo chef Paulo Martins, o Lá em Casa parece ter colocado toda a Amazônia dentro de um mesmo cardápio e surpreende com o corridinho de peixe, uma sequência de pratos para quem quer provar um pouco de cada uma das opções.

Por R$ 69 por pessoa, é possível provar porções de pirarucu, picadinho de tambaqui, filhote no tucupi, pescada amarela e gurijuba defumada, acompanhados de feijão de Santarém, arroz de jambu, molho de alcaparra e geleias de pimenta-de-cheiro, priprioca e jambu.

Prato do 'Lá em Casa', restaurante localizado na Estação das Docas, em Belém (foto: Eduardo Vessoni)
Prato do ‘Lá em Casa’, restaurante localizado na Estação das Docas, em Belém (foto: Eduardo Vessoni)

E como se já não bastasse o mundo amazônico que se vê sobre a mesa, o serviço ainda inclui suco de cupuaçu e o viciante sorvete de bacuri, fruta regional que lembra o sabor da graviola.

Para fechar a noite, não deixe de provar o licor de jambu, aquela bebida regional conhecida pelo formigamento na boca.

A novidade da casa é o tucupi preto, uma redução de tucupi feita, exclusivamente, na cozinha do restaurante, em que são usados 10 litros do líquido para fazer 130 gramas da versão escura do tucupi, uma espécie de shoyo amazônico.

Lá em Casa
Av. Boulevard Castilho França (Estação das Docas, Galpão 2, Loja 4)
Tel.: (91) 3212-5588
www.laemcasa.com

 

SAIBA MAIS
Site do turismo do Pará
www.paraturismo.pa.gov.br

(* O Viagem em Pauta viajou a Belém com o apoio do Visit Pará)

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