Responsável pelo 1º champanhe do Brasil, vinícola tem tour em cave subterrânea centenária

Naquelas terras férteis da Serra Gaúcha, a história parece se repetir em cada vinícola que se visita.

No final do século 19, imigrantes europeus desembarcavam no lado de cá do Alântico, em busca de novas oportunidades de trabalho e com as malas cheias de experiência na produção artesanal de vinhos. Acabariam não só emprestando seu talento para a vinificação como também traziam novos sabores para o Sul do Brasil.

Na vinícola Peterlongo, que em 2015 celebra seu centenário, a história seria quase a mesma, não fosse pelo arrojamento do fundador Manoel Peterlongo. Essa empresa de Garibaldi, a 110 km de Porto Alegre, é responsável pela produção do primeiro champanhe do Brasil, em 1913, dois anos antes de sua fundação.

Primeira vinícola brasileira a obter o direito de uso do termo champagne no País, de acordo com decisão do Supremo Tribunal de Justiça brasileiro, a Peterlongo recebe visitantes em suas caves subterrâneas feitas com pedra basalto.

foto: Eduardo Vessoni
foto: Eduardo Vessoni

Elaborada segundo os ensinamentos do abade francês Don Perignon, quem dizia estar “bebendo estrelas” quando tomava champanhe, a bebida é tema de um tour que conta a história da produção da empresa.

A visita começa em um edifício que segue os padrões arquitetônicos da francesa Champagne, onde hoje funciona o varejo, continua pela área modernizada da empresa que abriga os tanques de inox e termina em cenográficas salas subterrâneas de fermentação, sob telhas originais da década de 30.

Um dos destaques do tour de 50 minutos é a sala com 108 barricas de carvalho que guardam o cobiçado licor de expedição com 22 anos de armazenamento em barris, bebida adicionada em pequena quantidade na etapa final do processo de elaboração dos espumantes.

Licor de expedição, na sala de barricas de carvalho da Peterlongo (foto: Eduardo Vessoni)
Licor de expedição, na sala de barricas de carvalho da Peterlongo (foto: Eduardo Vessoni)

Outra etapa da visita, que passa por sete espaços temáticos, é o histórico ‘Túnel à la glace’, um corredor estreito de pedras, usado para congelar os gargalos com a técnica de dégorgement, processo que consiste em eliminar sedimentos da garrafa.

‘Túnel à la glace’, na Vinícola Peterlongo (foto: Eduardo Vessoni)
‘Túnel à la glace’, na Vinícola Peterlongo (foto: Eduardo Vessoni)

Erguidas em uma época em que a tecnologia ainda não havia chegado aos ambientes da viticultura, as caves da vinícola foram feitas a partir de um túnel que capta os ventos frios típicos do Rio Grande do Sul e mantém a temperatura estável em seu interior.

A experiência na Peterlongo inclui também passagem pelas pipas de madeira de guarda e pelo museu de máquinas antigas.

Museu de máquinas antigas da Peterlongo, em Garibaldi (foto: Divulgação)
Museu de máquinas antigas da Peterlongo, em Garibaldi (foto: Divulgação)

Declarada a ‘Capital Nacional do Espumante’, a gaúcha Garibaldi, a 10 km de Bento Gonçalves, é também endereço da Rota dos Espumantes, roteiro turístico com 20 vinícolas produtoras da bebida.

Na Serra Gaúcha, o enoturismo não se resume a encher taças e ouvir apresentações sisudas encabeçadas por enólogos. Por ali, o visitante também participa daquelas histórias que começaram a ser escritas por imigrantes italianos, no final do século 19.

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CURIOSIDADES DA EMPRESA

→ Fundada em 1915 como Estabelecimento Vinícola Armando Peterlongo S.A., a empresa tem esse nome em homenagem ao primogênito da família;

→ A Peterlongo é considerada a primeira vinícola do Brasil a empregar mão de obra feminina; e Armando Peterlongo, o único filho homem do fundador da empresa, foi o primeiro empresário da região a pagar salário mínimo para seus funcionários, na década de 30;

→ Diferente do que se costuma dizer, que o termo ‘champanhe’ só pode ser usado na região de Champagne, a Vinícola Peterlongo obteve, judicialmente, o direito ao uso do termo de acordo com a lei 78.835;

→ No entanto, a palavra só pode ser usada nas garrafas comercializadas em território nacional e em produtos feitos pelo método champenoise, técnica tradicional em que a segunda fermentação do vinho base acontece dentro da própria garrafa;

Vista noturna da Peterlongo, em Garibaldi, na Serra Gaúcha (foto: Eduardo Vessoni)
Vista noturna da Peterlongo, em Garibaldi, na Serra Gaúcha (foto: Eduardo Vessoni)

→ Quando a Peterlongo passou para as mãos dos atuais proprietários, há 13 anos, a empresa tinha uma dívida de 50 milhões de reais, só em garrafas;

→ A popular ‘Espuma de Prata’ e o suco de uva representam 70% da produção anual da vinícola. Porém, a empresa também produz o Elegance, linha top da marca, e espumantes Extra Brut e Brut da linha Presence, elaborados pelo mesmo método trazido da Itália por Manoel Peterlongo;

→ A primeira exportação da empresa foi para a Macy’s, em Nova York, em 1942. Atualmente, a vinícola exporta também para a Colômbia, Paraguai, Panamá, Japão e China;

→ A bebida era usada em banquetes oferecidos pelo governo Getúlio Vargas e chegou a ser elogiada pela rainha Elizabeth da Inglaterra, ao visitar o Brasil.

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SAIBA MAIS
Peterlongo
O tour de degustação custa R$ 10, valor que pode ser revertido na compra de produtos, e acontece das 9 às 16h, diariamente.

Rua Manoel Peterlongo, 216 – Garibaldi – Rio Grande do Sul

Tel.: (54) 3462-1355

www.peterlongo.com.br

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(* O jornalista Eduardo Vessoni visitou o local, durante a festa de comemoração do centenário da Peterlongo, a convite da empresa)

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