Mergulho: saiba como é se certificar em Fernando de Noronha

Ismael Escote queria ser astronauta, mas logo a intenção de ver a Terra de longe virou apenas sonho de criança.

Mas se Escote não chegou à Lua, foi parar em outros ambientes onde poucos ousam chegar, onde tubarão não usa cilindro e peixe não precisa de pé de pato.

Atual Chefe de Operações da empresa Atlantis Divers, em Fernando de Noronha, esse paulista de Campos de Jordão largou a logística dos transportes da empresa do pai para realizar outro sonho: provar a sensação da gravidade zero dos mergulhos.

“Eu era um mero espectador do Jacques Cousteau”, afirma Escote, 50, quem só foi se especializar na área aos 33 anos, em Bonito, onde aprendeu a mergulhar em cavernas e chegou a 105 metros de profundidade.

E é em Fernando de Noronha, uma espécie de Harvard do mergulho brasileiro, que Ismael Escote, há uma década, se dedica a treinar e certificar mergulhadores novatos.

Aula em águas confinadas da praia do porto de Santo Antonio, em Fernando de Noronha (foto: Ismael Escote/Atlantis Divers)
Aula em águas confinadas da praia do porto de Santo Antonio, em Fernando de Noronha (foto: Ismael Escote/Atlantis Divers)

Localizado a 545 km de Recife, Fernando de Noronha é um arquipélago oceânico que emerge do fundo do Atlântico, cuja distância do litoral e a ausência de águas de rios e seus sedimentos garantem a esse destino pernambucano uma das melhores visibilidades do Brasil, podendo chegar a 50 metros de profundidade.

Mais do que riqueza em biodiversidade, Noronha fascina pelos cenários marinhos com fundos de pedra e de areia, pequenas cavernas e uma fauna exibida. E é ali, entre golfinhos, raias-chita, tubarões lixa e tartarugas-de-pente, que aspirantes a mergulhador se certificam para a prática de mergulho autônomo, em um dos mares mais cobiçados do litoral brasileiro.

“É uma tarefa difícil comparar Noronha com outro lugar no mundo, talvez as condições do Havaí sejam parecidas”, arrisca Zaira Matheus, fotógrafa subaquática que também atua no destino.

foto: Andreza dos Santos/All Angle
foto: Andreza dos Santos/All Angle

O curso em Fernando de Noronha segue as mesmas etapas de qualquer curso Open Water, exceto pelo cenário único que se exibe diante dos olhos e sob os pés.

Primeiro, o candidato deve frequentar as três aulas teóricas nas dependências da escola (incluindo a prova final de múltipla escolha), onde o aluno é exposto a temas relacionados com a física, fisiologia e equipamentos de mergulho.

“É como aprender a dirigir e ter que coordenar tudo ao mesmo tempo”, compara Escote, quem afirma que a curva de aprendizado é muito grande nos dias de curso.

No entanto, conceitos como flutuabilidade neutra, como é conhecida a técnica de controlar a posição vertical na água apenas com a respiração, dispositivos de sinalização e controle de equipamento só parecem fazer sentido quando o novato cai, pela primeira vez, em águas marítimas.

As primeiras aulas práticas acontecem em ambientes conhecidos como ‘águas confinadas’ que, em Noronha, são ministradas na praia do Porto de Santo Antonio, cujas areias finas servem de sala de aula para reconhecimento de equipamentos, detalhamento das peças e montagem de mangueiras do cilindro. É um (necessário) excesso de informações, ainda em terra firme, que só começa a ficar claro quando o futuro mergulhador afunda, lentamente, no mar.

O corpo insiste em querer subir à superfície, para logo afundar até o solo arenoso da praia rasa do porto da ilha. A gente parece desaprender a respirar e a máscara quase sempre quer se encher de água (mais uma armadilha que a mente ainda agitada insiste em nos pregar).

E então começam os exercícios.

Aulas práticas em águas confinadas do porto de Santo Antonio, em Fernando de Noronha (crédito das fotos: Isabella Matheus/All Angle)
Aulas práticas em águas confinadas do porto de Santo Antonio, em Fernando de Noronha (crédito das fotos: Isabella Matheus/All Angle)

Respiração 2×5 com o regulador na boca, resgate de mangueiras submersas, desembaçamento de máscara (esse, sim, nos faz querer larga tudo e voltar para a praia e tomar sol em solo seguro) e natação livre ao lado de cardumes e embarcações atracadas.

De resto, é fechar os olhos, sentir que o ar segue chegando do cilindro e provar uma das experiências mais marcantes de Noronha (e de qualquer outro destino submarino do planeta com fauna variada e altos níveis de visibilidade).

No nível básico de treinamento, cujo limite é de até 18 metros de profundidade, o objetivo é orientar o uso prático do equipamento, dar confiança ao mergulhador e auxiliá-lo em situações de emergência.

Concluídas as duas sessões em águas confinadas, passa-se para aquela que é a etapa mais esperada pelos iniciantes: o batismo no mar.

Atividades durante curso básico de mergulho, em Noronha (foto: Flávia Robles/ All Angle)
Atividades durante curso básico de mergulho, em Noronha (foto: Flávia Robles/ All Angle)

Em duas sessões com dois mergulhos cada, o mergulhador deve colocar em prática a teoria adquirida nos dias anteriores. E, por vezes, a gente quase esquece tudo aquilo que parecia tão óbvio, em terra firme.

A regra vital de inspiração e expiração vale lá embaixo também, diga-se de passagem, mas a ansiedade e um certo instinto de sobrevivência em ambientes nada normais para seres humanos costumam fazer a gente querer desistir.

O mergulho, aliado à motivação e ao prazer, funciona como uma espécie de ferramenta de autoconhecimento que permite ao mergulhador reeducar sua respiração e ter autocontrole em um ambiente adverso ao humano. É quase como passar a ter consciência dos procedimentos naturais de respiração que a gente já realiza, naturalmente.

Porém, enquanto lastros e colete equilibrador nos ajudam a afundar, o aluno vai substituindo o medo pelo assombro, a cada novo metro conquistado.

A pelo menos seis metros de profundidade, o mergulhador deve provar que é capaz de realizar procedimentos como o desembaçamento da máscara, resgate da mangueira ligada ao cilindro e manter a flutuabilidade neutra.

A reprovação de iniciantes é, praticamente, zero, mas limpeza da máscara na própria água e alunos que sejam um risco para si próprio podem ser fatores reprobatórios.

“O mergulho já foi considerado um esporte radical e misterioso, em que os profissionais eram vistos como uma espécie de herói dos mares. Mas a segurança está ligada à atitude e o índice de acidentes fatais tende a ser zero”, afirma o Chefe de Operações da Atlantis Divers, quem afirma que mergulhar é tão perigoso quanto jogar boliche.

E quando o novo mergulhador vai ganhando confiança, ainda em águas rasas, dá até para avançar na praia do Porto de Santo Antonio, que abriga os restos do naufrágio do Eleni Stathatos, em 1929. Poder cruzar o interior da cabine do eixo desse navio grego, tomado por algas e cardumes exibidos, é uma das experiências mais estimulantes para quem ainda tinha dúvida do prosseguimento do curso.

Aliás, para cada desembarque em Noronha, um cenário diferente.

Atividades durante curso básico de mergulho, em Noronha (foto: Andreza dos Santos/All Angle)
Atividades durante curso básico de mergulho, em Noronha (foto: Andreza dos Santos/All Angle)

Com batismos nas Ilhas Secundárias, os mergulhos de nível básico acontecem em locais como Buraco do Inferno (12 metros de profundidade), com fundo de pedra e de areia, conhecido por suas grutas e cavernas de fácil acesso.

A versatilidade cênica é também a marca de Cagarras Rasas, ponto de mergulho protegido por paredões de até 30 metros de altura, bem como a vizinha Ilha do Meio, entre os mares de Fora e de Dentro.

Com condições excepcionais de mergulho, número reduzido de alunos e vida marinha que não se encontra em nenhum outro lugar, o mergulho em Fernando de Noronha é uma das experiências obrigatórias para quem desembarca nesse arquipélago de origem vulcânica.

Porém, prepare-se para aumentar sua referência e seu grau de exigência com relação a outros destinos brasileiros. “É como fazer um downgrade no mergulho”, explica Escote.

Nem poderia ser diferente.

Vista da praia do porto de Santo Antonio, onde acontecem as aulas em águas confinadas de Fernando de Noronha (foto: Eduardo Vessoni)
Vista da praia do porto de Santo Antonio, onde acontecem as aulas em águas confinadas de Fernando de Noronha (foto: Eduardo Vessoni)

O estratégico conjunto de ilhas e ilhotes, entre a Europa e o Novo Mundo, que tanto atraiu a atenção de navegadores estrangeiros, é considerado o melhor ponto de mergulho do Brasil, apresenta condições satisfatórias durante todo o ano, conta com facilidade de acesso aos pontos de mergulho, boa estrutura de ensino, variada vida marinha e cenários submarinos como cavernas, fundo de areia, costão rochoso e áreas com correnteza para a prática de drift dive.

E se não pudemos ser astronauta, pelo menos provamos experiências similares, nem que seja com flutuações em mares profundos que fazem a gente ter o gosto da gravidade zero em 3ª dimensão.

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CUIDADOS

Durante todas as etapas, prévias e posteriores, do mergulho, são necessários alguns cuidados que garantem segurança para seu mergulho. Aliás, desconfie de cursos ou batismos, extremamente, baratos. A segurança é um item caro para as empresas de mergulho.

• Lembre-se de que viajar de avião e mergulhar, no mesmo dia, pode. Já o contrário é, altamente, desaconselhável por conta do nitrogênio residual que leva de 12 a 24 horas para ser liberado do corpo.

• Confira também se a embarcação de apoio às operações de mergulho conta com balão de oxigênio puro e se tem um profissional de mergulho a bordo, em casos de emergência.

• Quando possível, visite a estação de recarga de gás em lugares remotos para ver se a captação do ar não está próximo do motor, para evitar fumaça de combustível. Recomenda-se também cheirar o ar que sai do cilindro, antes de iniciar o mergulho;

Procedimentos durante curso de mergulho em Fernando de Noronha crédito das fotos: Tati Vasconcelos/All Angle
Procedimentos durante curso de mergulho em Fernando de Noronha crédito das fotos: Tati Vasconcelos/All Angle

• Um dos exercícios mais importantes é o controle da respiração, em que se deve expirar mais do que inspirar. Evite também a respiração curta, de modo a evitar a intoxicação por gás carbônico.

• O mergulho é uma atividade cujos bons resultados estão ligados ao estilo de vida do mergulhador. Por isso, evite ingerir alimentos pesados ou gordurosos, bem como fumar, ingerir bebidas alcoólicas e uso de drogas, de 2 a 3 horas antes.

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QUEM PODE MERGULHAR

⇒ Mergulhadores certificados em níveis básico (mergulho como hobby e com limite de treinamento de até 18 metros de profundidade, em águas abertas); e avançado, especialidade que amplia as possibilidades do mergulho recreativo, com treinamento para mergulhos de até 30 metros;

⇒ De ‘mamando a caducando’, ou seja, pessoas acima de 10 anos e sem limite de idade, mas com condições perfeitas de saúde;

⇒ São consideradas contraindicações relativas os portadores de deficiência física, pessoas com diabetes, mas dentro dos padrões de glicemia, ou pressão alta, desde que sob controle;

Grávidas ou pessoas que apresentem convulsões, problemas pulmonares graves ou cardíacos são, totalmente, desencorajados à prática de mergulho.

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CONFIRA FOTOS

  • Aula em águas confinadas da praia do porto de Santo Antonio, em Fernando de Noronha (foto: Ismael Escote/Atlantis Divers)
    Aula em águas confinadas da praia do porto de Santo Antonio, em Fernando de Noronha (foto: Ismael Escote/Atlantis Divers)

  • Aulas práticas em águas confinadas do porto de Santo Antonio, em Fernando de Noronha (crédito das fotos: Isabella Matheus/All Angle)
    Aulas práticas em águas confinadas do porto de Santo Antonio, em Fernando de Noronha (crédito das fotos: Isabella Matheus/All Angle)

  • Atividades durante curso básico de mergulho, em Noronha (foto: Flávia Robles/ All Angle)
    Atividades durante curso básico de mergulho, em Noronha (foto: Flávia Robles/ All Angle)

  • Atividades durante curso básico de mergulho, em Noronha (foto: Andreza dos Santos/All Angle)
    Atividades durante curso básico de mergulho, em Noronha (foto: Andreza dos Santos/All Angle)

  • Vista da praia do porto de Santo Antonio, onde acontecem as aulas em águas confinadas de Fernando de Noronha (foto: Eduardo Vessoni)
    Vista da praia do porto de Santo Antonio, onde acontecem as aulas em águas confinadas de Fernando de Noronha (foto: Eduardo Vessoni)

  • Procedimentos durante curso de mergulho em Fernando de Noronha crédito das fotos: Tati Vasconcelos/All Angle
    Procedimentos durante curso de mergulho em Fernando de Noronha (foto: Tati Vasconcelos/All Angle)

  • foto: All Angle/Tati Vasconcelos
    foto: All Angle/Tati Vasconcelos

  • foto: Andreza dos Santos/All Angle
    foto: Andreza dos Santos/All Angle

  • foto: Andreza dos Santos/All Angle
    foto: Andreza dos Santos/All Angle

  • foto: All Angle/Andreza dos Santos
    foto: All Angle/Andreza dos Santos

  • 'Passo de gigante' é uma das técnicas que se aprende, antes de começar a mergulhar (foto: Tati Vasconcelos/All Angle)
    ‘Passo de gigante’ é uma das técnicas que se aprende, antes de começar a mergulhar (foto: Tati Vasconcelos/All Angle)

  • Procedimentos durante curso de mergulho em Fernando de Noronha crédito das fotos: Tati Vasconcelos/All Angle
    Procedimentos durante curso de mergulho em Fernando de Noronha crédito das fotos: Tati Vasconcelos/All Angle

SAIBA MAIS
Atlantis Divers
www.atlantisdivers.com.br

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