Saiba como é viajar em um ‘liveaboard’, na Ilha Grande, em Angra dos Reis

Naquelas terras protegidas da Baía da Ilha Grande, em Angra dos Reis, existem quase duzentas ilhas, duas mil praias, catorze naufrágios históricos para serem explorados por mergulhadores e uma área preservada de 154 km² que abriga dois parques estaduais e uma reserva biológica.

Só na Ilha Grande, a maior da baía, são mais de cem faixas de areia, em 12 enseadas.

E se por ali o mar é o melhor argumento, é para lá que seguem embarcações que riscam águas interiores desse que é um dos mais belos trechos do litoral do Rio de Janeiro, sem a pressa dos tours organizados de hora marcada ou a muvuca das terras firmes.

Liveaboard, em Paraty, no Rio de Janeiro (foto: Eduardo Vessoni)
Liveaboard, em Paraty, no Rio de Janeiro (foto: Eduardo Vessoni)

Embarcar em um liveaboard, como são chamados os barcos que fazem roteiros exclusivos para mergulhadores e acompanhantes, é como permanecer imerso em um mundo submarino, mas com as facilidades de um catamarã equipado com cabines individuais com chuveiro e água quente, chef de cozinha a bordo, varanda e assistência em todas as operações de mergulho.

E isso é tudo (e suficiente). O resto pode deixar que o mar lá fora se encarrega.

Em um final de semana a bordo, é possível ver um grupo de golfinhos que se exibe do lado de fora da água e faz adulto ficar correndo de proa a popa; ver a moreia que se enrola no peixe sargento, em um bote certeiro para garantir o jantar daquele fim de dia; descer dez metros para ver o mar de noite e ter plânctons que se iluminam quando as lanternas dos mergulhadores se apagam, deliberadamente; fazer mergulhos como se cada um deles fosse o primeiro; e voltar lá do fundo do mar e ser recebido, ainda antes do almoço, com petiscos na área social do barco.

Liveaboard, no litoral do Rio de Janeiro (foto: JP Cauduro Filho/Divulgação)
Liveaboard, no litoral do Rio de Janeiro (foto: JP Cauduro Filho/Divulgação)

Voltado para mergulhadores certificados ou passageiros dispostos a fazer apenas snorkel, o liveaboard Enterprise sai, semanalmente, da Marina do Engenho, a oito quilômetros do centro de Paraty, administrado pelo navegador Amyr Klink. É ali naquele píer flutuante que resiste o Engenho Boa Vista, uma construção do século 18 que viu nascer Julia Bruhns da Silva, mãe de Thomas Mann, escritor alemão que recebeu o Prêmio Nobel de Literatura, em 1929.

De um dos mirantes, a gente quase nem quer deixar aquela marina cenográfica com uma das mais belas vistas panorâmicas de Paraty, mas navegar é quase uma obrigação e o próximo passo é o mar.

Mergulhos
A Baía de Ilha Grande é dona de condições perfeitas para um primeiro contato com o mergulho livre e é mais viável, financeiramente, para quem quer realizar a atividade, próximo ao eixo Rio-São Paulo. Por ali, turismo e lazer náutico são as principais atividades econômicas da região.

Destino rico em rios e mangues, o berçário dos oceanos que abriga espécies como o mero, peixe encontrado em áreas de manguezais, Ilha Grande tem águas ricas em micronutrientes que garantem a manutenção daquela variada vida marinha como o aporte de matéria orgânica proveniente de rios.

Segundo a pesquisa ‘Biodiversidade marinha da Baía de Ilha Grande’, do Ministério do Meio Ambiente, a região abriga mais de 900 espécies marinhas.

Mergulho em Ilha Grande, no Rio de Janeiro (foto: Noeli Ribeiro/Divulgação)
Mergulho em Ilha Grande, no Rio de Janeiro (foto: Noeli Ribeiro/Divulgação)
Mergulho em Ilha Grande, no Rio de Janeiro (foto: JP Cauduro/Divulgação)
Mergulho em Ilha Grande, no Rio de Janeiro (foto: JP Cauduro/Divulgação)

Então já dá para entender o que é mergulhar naquelas águas vivas, não? Golfinhos, peixes de recifes, moreias, raias, tartarugas-de-pente, lagostas, lulas e até eventuais baleias-jubarte são alguns dos animais que costumam dar as caras por ali. Tudo isso com uma visibilidade que pode chegar a 20 metros de distância, em dias bons para mergulho, e com água que a 28°, entre dezembro e março, com diferenças no fundo que variam, entre 10° e 11°.

Uma das curiosidades locais (e de toda a região sudeste do Brasil) é a presença das termoclinas, variação brusca de temperatura. Na prática, isso significa dizer que, em poucos metros de diferença entre uma camada e outra do mar, o mergulhador sente a mudança de temperatura, cuja capa mais fria tende a causar um efeito de embaçamento na água.

Aquela baía bem abrigada de águas calmas e ilhas costeiras, entre Paraty e Angra dos Reis, é ideal para mergulhos de batismos, check out e mergulhadores em treinamento. “Tem todo tipo de cenário para treinar um mergulho”, descreve Tatiana Bernardo de Melo, instrutora que atua na região, onde o abrigado Mar de Dentro oferece boas condições, inclusive em dias de tempo ruim.

Em uma viagem em um liveaboard não há roteiro pré-definido e tudo depende do comportamento dos mergulhadores e das novidades climatológicas. Basta um vento sudoeste para a rota ser desviada para baías mais abrigadas.

Liveaboard Enterprise, no litoral do Rio de Janeiro (foto: JP Cauduro/Divulgação)
Liveaboard Enterprise, no litoral do Rio de Janeiro (foto: JP Cauduro/Divulgação)

A natureza local não só impressiona como também reescreve a história.

Em junho de 1967, o navio de bandeira panamenha Pinguino naufragou na Enseada do Sítio Forte, após um incêndio na casa de máquinas, alastrando-se em pouco tempo, devido à carga de cera de carnaúba. O que eram apenas pedaços gigantes de aço, a sete metros de profundidade, se transformaria em um jardim de algas que seguem crescendo nos porões da embarcação.

Segundo o site www.naufragiosdobrasil.com.br, referência em naufrágios na costa brasileira, o mergulho no Pinguino é marcado pela facilidade de acesso e pelo conjunto de seus destroços, formado por porões, casario, motor e corredores em bons estados de conservação.

Essa é um dos mergulhos programados, durante a viagem do Enterprise.

Vista do naufrágio Pinguino (foto: Paulo Duarte/Divulgação)
Vista do naufrágio Pinguino (foto: Paulo Duarte/Divulgação)

A região de Ilha Grande abriga 14 naufrágios históricos que formam uma espécie de museu no fundo do mar, onde repousam embarcações como o Imperial Marinheiro, afundado em 1865, na Restinga da Marambaia; e o helicóptero esquilo da Maricá Taxi Aéreos que, em 1998, caiu na região de Angra dos Reis, matando o empresário Eduardo Tapajós, proprietário do tradicional Hotel Glória, no Rio de Janeiro.

E quando falta assunto ou o corpo já não dá mais conta de um novo mergulho, a tripulação entretém os passageiros com palestras que a inconformada e ativista Tatiana Bernardo de Melo conduz com segurança sobre temas como naufrágios históricos, os estragos da pesca de arrasto (em que Tatiana revela a destruição de nove quilos de vida marinha, a cada um de pesca de camarão com essa técnica); e sobre as mudanças negativas da região com a superpopulação na Vila do Abraão, povoado da costa leste da Ilha Grande que abriga a principal estrutura turística do destino.

Final de tarde, durante liveaboard, na Ilha Grande (foto: Eduardo Vessoni)
Final de tarde, durante liveaboard, na Ilha Grande (foto: Eduardo Vessoni)

“Quanto mais próximo do Homem, menos vida marinha é encontrada”, alerta Tatiana. Por isso, essa instrutora e guia, há 15 anos na região, indica pontos especiais para mergulho como o da Ilha do Papagaio (“com pouca visitação e próximo à área de preservação da Esec de Tamoios”), o das lajes do Coronel e dos Meros, e o mergulho entre fendas da Ilha do Jorge Grego, em frente à enseada de Lopes Mendes, no agitado Mar de Fora.

Considerado um dos mais modernos para mergulhos, em funcionamento em águas brasileiras, o Enterprise é um catamarã de quase 23 metros de comprimento (75 pés) e abriga até 24 pessoas, além da tripulação com sete profissionais como capitão, instrutores de mergulho e pessoal de cozinha.

foto: JP Cauduro/Divulgação
foto: JP Cauduro/Divulgação
foto: Divulgação
foto: Divulgação

Gastronomia a bordo
Se o mar ajuda a curar a síndrome de Jacques Cousteau que toma os embarcados, é da cozinha do catamarã que sai a segunda melhor atração desse liveaboard que opera na região de Paraty e Ilha Grande, desde 2009.

Einer Marcelo, mais conhecido como Chello, é o chef responsável por todas as refeições a bordo, durante os três dias de viagem. Há 15 anos no Brasil, esse argentino de Bariloche trabalha das 6h30 à meia-noite com a cabeça na cozinha e os olhos voltados para a paisagem que vai se alternando do lado de fora.

As opções de refeições não se repetem e o cardápio vai se organizando com o tempo, entre terra e mar, cujo trabalho começa na quarta-feira da semana do embarque com as compras de ingredientes, ainda em terra firme.

“O legal é que eles comem o que eu quero”, brinca Chello, que, aos 6 anos, já fazia comida com as sobras deixadas pela cozinheira de casa, “com panelinhas e fogão a querosene para preparar salsa madre”.

Einer Marcelo, mais conhecido como Chello, é o chef responsável por todas as refeições a bordo (foto: Eduardo Vessoni)
Einer Marcelo, mais conhecido como Chello, é o chef responsável por todas as refeições a bordo (foto: Eduardo Vessoni)

E para nossa sorte, seu gosto pelo inusitado, uma mistura equilibrada das cozinhas latina, mediterrânea e vegetariana, inclui moqueca de banana da terra, feijoada de frutos do mar, paella e, por motivos nada óbvios, empanada argentina. Em dias de sol insistente, daqueles que fazem a gente não querer sair do fundo do mar, o chef propõe churrasco em terra firme, em alguma praia exclusiva, escolhida pela tripulação.

A estrutura da embarcação inclui também três deques com oito suítes, uma varanda superior e Praça de Mergulho para até 25 pessoas. Televisão e wifi não têm. As melhores conexões ainda ficam do lado de fora.

MELHORES MERGULHOS

• Em Ilha Grande não faltam endereços marinhos como a discreta e calma Saco dos Micos, a noroeste de Ilha Grande e a 2h50 de navegação de Paraty. Essa pequena e rasa enseada é formada por um costão rochoso de fundo arenoso, abrigado dos ventos sudoeste que costumam cancelar mergulhos na região. Não espere muita variedade de vida marinha, mas o local é ideal para ajuste de equipamentos e para mergulhadores recém-certificados.

Mergulho na região do Saco dos Micos, em Ilha Grande (foto: Eduardo Vessoni)
Mergulho na região do Saco dos Micos, em Ilha Grande (foto: Eduardo Vessoni)

• Na Ilha do Papagaio, em direção à da Gipóia, os mergulhadores são recebidos com uma sequência de ouriços roxos que parecem infinitos campos de lavanda no mar, decorando paredões pontiagudos que formam um dos corredores labirínticos mais impactantes dos mergulhos da manhã. Com até 20 metros de profundidade, aproximadamente, a área só permite atividades marinhas, em dias de mar calmo.

• Nesse roteiro, o catamarã faz paradas também na Ponta Grossa do Sítio Forte e na Ilha Longa, ambas com características de mergulhos como as dos pontos anteriores.

• É na Laje do Coronel, cuja profundidade pode chegar a 25 metros, que os visitantes protagonizam uma das experiências mais marcantes de todo o roteiro. Esse ponto de pedras é recortado por fendas labirínticas que permitem a flutuação de mergulhadores em seu interior.

Vista do Parcel do Coronel (foto: Eduardo Vessoni)
Vista do Parcel do Coronel (foto: Eduardo Vessoni)

Conhecido também como Parcel do Coronel e considerado o melhor ponto de mergulho do Mar de Dentro da Ilha Grande, o local é escolhido para as descidas noturnas, quando aquelas águas escuras ganham novas cores com a fila de mergulhadores que iluminam com suas lanternas (e todo o cuidado para não cegar espécies curiosas que cruzam nossos caminhos) muralhas rochosas forradas por coral-sol, uma espécie agressiva de fortes tons amarelados que virou praga na Ilha Grande, devido a sua ameaça a outras espécies de corais da região.

Se os mais inexperientes tinham dúvidas sobre encarar a corda amarrada ao barco que parece levar a lugar nenhum, basta a líder da operação dar o aviso para todos os mergulhadores apontarem a luz contra o peito para aquele fundo de águas escuras se iluminar com os tons neons emitidos pelos plânctons, formando um mar de vaga-lumes marinhos de bioluminescência com matizes magentas.

mapa: Divulgação
mapa: Divulgação

(* o roteiro pode variar de acordo com a maré e com a época do ano. No final de semana em que o Viagem em Pauta esteve embarcado, a programação contemplava apenas os mergulhos do Mar de Dentro)

VEJA VÍDEO

VEJA FOTOS DE MERGULHOS EM ILHA GRANDE

  • Mergulho em Ilha Grande, no Rio de Janeiro (foto: Noeli Ribeiro/Divulgação)
    Mergulho em Ilha Grande, no Rio de Janeiro (foto: Noeli Ribeiro/Divulgação)

  • Mergulho em Ilha Grande, no Rio de Janeiro (foto: JP Cauduro/Divulgação)
    Mergulho em Ilha Grande, no Rio de Janeiro (foto: JP Cauduro/Divulgação)

  • Vista do naufrágio Pinguino (foto: Paulo Duarte/Divulgação)
    Vista do naufrágio Pinguino (foto: Paulo Duarte/Divulgação)

  • Mergulho em Ilha Grande, no Rio de Janeiro (foto: JP Cauduro/Divulgação)
    Mergulho em Ilha Grande, no Rio de Janeiro (foto: JP Cauduro/Divulgação)

  • Mergulho em Ilha Grande, no Rio de Janeiro (foto: JP Cauduro/Divulgação)
    Mergulho em Ilha Grande, no Rio de Janeiro (foto: JP Cauduro/Divulgação)

  • Mergulho em Ilha Grande, no Rio de Janeiro (foto: JP Cauduro/Divulgação)
    Mergulho em Ilha Grande, no Rio de Janeiro (foto: JP Cauduro/Divulgação)

  • Mergulho em Ilha Grande, no Rio de Janeiro (foto: JP Cauduro/Divulgação)
    Mergulho em Ilha Grande, no Rio de Janeiro (foto: JP Cauduro/Divulgação)

  • foto: Ary Amarante/Divulgação
    foto: Ary Amarante/Divulgação

  • foto: Ary Amarante/Divulgação
    foto: Ary Amarante/Divulgação

SAIBA MAIS

QUEM LEVA
Enterprise
O roteiro de duas noites no liveaboard contempla, pelo menos, seis mergulhos e acomodação em cabines com banheiro e pensão completa. Os valores para saídas em 2016 custam R$ 1.850 por mergulhador, em cabine dupla, e R$ 1.705 para não-mergulhador. As cabines triplas saem por R$ 1.645 (mergulhador) e R$ 1.500 (não-mergulhador).
Reservas: (84) 3206-8841 / [email protected]
www.atlantisdivers.com.br

Marina do Engenho
Rodovia Rio-Santos, km 576 – bairro Boa Vista/Paraty
Tel.: (24) 7834-3104 / (24) 9999-9957
www.marinadoengenho.com.br

COMO CHEGAR
Localizada a pouco menos de 300 km de São Paulo, Paraty conta com seis saídas de ônibus do Terminal do Tietê, operadas pela Reunidas Paulista. Não se iluda com o tempo de viagem divulgada no site da empresa (5h40), pois a viagem nunca é realizada em menos de 7 horas de estrada, incluídas as duas longas paradas de 30 minutos.

Essa é a melhor opção para chegar até o destino, uma vez que carros não entram em Ilha Grande e você estará embarcado todo o tempo.

De carro, utilize a Dutra até São José dos Campos, de onde se segue pela Rodovia Tamoios até Caraguatatuba, já no litoral norte de São Paulo. Esse é o acesso também para destinos como Ubatuba e Angra dos Reis.

 

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