[Crônica] Eu vi duende

Começou ruidoso o grupo de jornalistas que cruzaria trechos do ‘Caminho do Norte’, a versão litorânea do Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha.

Ainda apegados ao cotidiano lá atrás, do outro lado do Atlântico, uns seguem aferrados a pendências do trabalho, enquanto outros aceleram o passo e se afastam.

Uns matam saudades, via celular(!), e outros tentam matar a vontade de desligar as vozes que vêm de fora, mais alta que a de dentro, um barulho que pouco combina com aquele caminho histórico de 815 km de extensão, entre o País Basco e a Galícia.

Peregrinos em silêncio cruzam o caminho de “turistas de um dia” que visitam atrações históricas, ao longo do caminho, e se vão, barulhentos.

E a vida nas localidades segue igual.

O trator continua arando a grama, as ovelhas se amontoam em um canto do campo, locais se deslocam de carro para o trabalho e peregrinos recém-iniciados ainda se dispersam com a variedade de cenários.

Gente que vai, gente que vem.

Nunca dá para saber se é a mochila que pesa sob as costas ou se é a alma que vai pesando com pensamentos trazidos de outros endereços. Não é “o que”, é “como”, já diria uma frase pintada em uma pedra, entre Getaria e Zumaia, no País Basco.

Mas o grupo de jornalistas segue ruidoso mesmo assim.

foto: Eduardo Vessoni
foto: Eduardo Vessoni

Em um dos nossos delírios de peregrinos de primeira viagem, um rapaz de estatura baixa cruza nosso caminho. Cajado na mão, mochila nas costas, gorro pontiagudo na cabeça e uma bata laranja que se confunde com a calça larga amarela.

Look peregrino perfeito para parte do mal-intencionado grupo de jornalistas dar-lhe um nome: O Duende. Uma das jornalistas até falou do alto número de peregrinos que se pareciam com duendes e cruzavam nossos caminhos.

O apelido lhe caía muito bem e o cenário era perfeito para a criação de seres mágicos: florestas fechadas, trilhas de terra e uma sequência infinita de povoados medievais, onde quase sempre éramos os únicos.

Embora seja tão antigo como o tradicional ‘Caminho Francês’, essa caminhada pela costa tem se popularizado entre os que buscam rotas peregrinas menos frequentadas.

Devagar e com passos focados, O Duende nos ultrapassou e nosso grupo seguiu disperso, antes de se separar, pela última vez.

Peregrino segue até Santiago de Compostela, no trecho galego entre Lourenzá e Mondoñedo (foto: Eduardo Vessoni)
Peregrino segue até Santiago de Compostela, no trecho galego entre Lourenzá e Mondoñedo (foto: Eduardo Vessoni)

E quando o caminho lhe escapa dos pés, desviados pela falação de quem ainda está conectado com o mundo exterior, siga o caminho sozinho. Olho o mapa, confiro as placas de orientação e acelero o passo com a intenção de só voltar a vê-los (e ouvi-los) em Mondoñedo, no povoado seguinte.

Em certos trechos do Caminho, quando ladeiras insistem em querer fazer a gente desistir, o cajado vai ficando mais pesado, os pés se arrastam no chão de cascalho e a mochila nas costas parece dobrar de peso.

Sozinho, cruzo um ou dois peregrinos, aceno para um casal de velhinhos que varre o quintal de casa e paro para beber água em uma fonte… ao lado d’O Duende. Envergonhado, cumprimentei e me despedi na mesma velocidade de quem quase se afoga naquela água fresca para sair dali o mais rápido possível.

E já que dizem que por ali “não há um caminho, há caminhos”, o grupo, sem perceber, vai se desfazendo (ou seria o caminho fazendo-os?). Eu na frente, 3 ou 4 mais atrás e duas jornalistas fora de rota, literalmente.

Considerado a única do Caminho Norte a seguir pela costa, a comunidade de Astúrias abriga paisagens que refrescam o peregrino, ao longo dos 815 km até Santiago de Compostela, como o trecho Arenal de Moris a La Isla, uma caminhada curta de 4,5 km de extensão (foto: Eduardo Vessoni)
Considerado a única do Caminho Norte a seguir pela costa, a comunidade de Astúrias abriga paisagens que refrescam o peregrino, ao longo dos 815 km até Santiago de Compostela, como o trecho Arenal de Moris a La Isla, uma caminhada curta de 4,5 km de extensão (foto: Eduardo Vessoni)

Cheguei primeiro na estrada de asfalto que dava acesso a Mondoñedo, já no trecho final daquele dia, e fui surpreendido com as duas, margeando a via, logo atrás de mim. Gritaram meu nome, vomitaram um sem-fim de reclamações e concluí que, sim, elas tinham se perdido (na conversa e na rota).

A situação foi ficando tensa.

Eu preocupado em ligar para o guia, lá atrás; e quem ficara para trás não sabia onde elas estavam.

Enquanto tentávamos reconstruir a rota perdida, mentalmente, o restante do grupo chegou com um guia de passadas pesadas e um furioso ¿qué pasó?, estampado na cara.

Bateram boca, ali mesmo, no salão apertado do restaurante. Um culpando o outro e o outro culpando um (ou uma, sei lá). Até as bem sinalizadas placas de orientação peregrina foram, injustamente, culpadas.

Na minha ingenuidade de quem queria ver aquilo terminado (e para devolver a paz ao restaurante onde almoçaríamos), me lembrei da parada na fonte.

– “Gente, mas como vocês se perderam? O caminho está bem sinalizado”.

E completei, eufórico como criança que vira seres encantados da floresta: “Vocês não passaram por um povoadinho medieval que tinha uma fonte, onde o duende tava bebendo água?”

Quem ouviu (e criou) a história do Duende, riu. Mas o resto do grupo que não havia escutado o apelido irônico, entreolhou-se, calou-se e, certamente, se questionou sobre os efeitos de tanta caminhada em jornalistas solitários.

Eu vi duendes, no Caminho de Santiago. De gorro pontiagudo, cajado na mão, mochila nas costas e uma bata laranja que se confundia com a calça larga amarela.

Eu juro.

LEIA TAMBÉM: “‘Camino Norte’ é opção litorânea do Caminho de Santiago de Compostela”

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  • Peregrino segue até Santiago de Compostela, no trecho galego entre Lourenzá e Mondoñedo (foto: Eduardo Vessoni)
    Peregrino segue até Santiago de Compostela, no trecho galego entre Lourenzá e Mondoñedo (foto: Eduardo Vessoni)

  • Detalhe do incensário da tradicional 'Missa dos Peregrino', na Catedral de Santiago de Compostela, última etapa do 'Caminho Norte', na Espanha (foto: Eduardo Vessoni)
    Detalhe do incensário da tradicional ‘Missa dos Peregrino’, na Catedral de Santiago de Compostela, última etapa do ‘Caminho Norte’, na Espanha (foto: Eduardo Vessoni)

  • Peregrino chega à Catedral de Santiago de Compostela, última etapa do 'Caminho Norte' (foto: Eduardo Vessoni)
    Peregrino chega à Catedral de Santiago de Compostela, última etapa do ‘Caminho Norte’ (foto: Eduardo Vessoni)

  • Peregrino chega à Catedral de Santiago de Compostela, última etapa do 'Caminho Norte' (foto: Eduardo Vessoni)
    Peregrino chega à Catedral de Santiago de Compostela, última etapa do ‘Caminho Norte’ (foto: Eduardo Vessoni)

  • Santiago de Compostela, última etapa do 'Caminho Norte' (foto: Eduardo Vessoni)
    Santiago de Compostela, última etapa do ‘Caminho Norte’ (foto: Eduardo Vessoni)

  • Monasterio de San Salvador de Vilanova de Lourenzá, uma das atrações do Caminho Norte de Santiago de Compostela, entre Lourenzá e Mondoñedo (foto: Eduardo Vessoni)
    Monasterio de San Salvador de Vilanova de Lourenzá, uma das atrações do Caminho Norte de Santiago de Compostela, entre Lourenzá e Mondoñedo (foto: Eduardo Vessoni)

  • Vista de um dos quartos de peregrinos no Sobrado dos Monxes, na Galícia (foto: Eduardo Vessoni)
    Vista de um dos quartos de peregrinos no Sobrado dos Monxes, na Galícia (foto: Eduardo Vessoni)

  • Sapatos de peregrinos no Sobrado dos Monxes, na Galícia (foto: Eduardo Vessoni)
    Sapatos de peregrinos no Sobrado dos Monxes, na Galícia (foto: Eduardo Vessoni)

  • Erguido na primeria metade do século 12, o Sobrado dos Monxes é um dos cenários mais impressionantes do Caminho Norte, onde o peregrino faz a sua última parada antes de chegar a Santiago de Compostela (foto: Eduardo Vessoni)
    Erguido na primeria metade do século 12, o Sobrado dos Monxes é um dos cenários mais impressionantes do Caminho Norte, onde o peregrino faz a sua última parada antes de chegar a Santiago de Compostela (foto: Eduardo Vessoni)

  • Considerado a única do Caminho Norte a seguir pela costa, a comunidade de Astúrias abriga paisagens que refrescam o peregrino, ao longo dos 815 km até Santiago de Compostela, como o trecho Arenal de Moris a La Isla, uma caminhada curta de 4,5 km de extensão (foto: Eduardo Vessoni)
    Considerado a única do Caminho Norte a seguir pela costa, a comunidade de Astúrias abriga paisagens que refrescam o peregrino, ao longo dos 815 km até Santiago de Compostela, como o trecho Arenal de Moris a La Isla, uma caminhada curta de 4,5 km de extensão (foto: Eduardo Vessoni)

  • Vista do caminho entre Collado de Hoz e Cicera, destinos que fazem parte do Caminho Lebaniego, variante com 50 km de extensão que une os caminhos do Norte e o Francês, até Santiago de Compostela (foto: Eduardo Vessoni)
    Vista do caminho entre Collado de Hoz e Cicera, destinos que fazem parte do Caminho Lebaniego, variante com 50 km de extensão que une os caminhos do Norte e o Francês, até Santiago de Compostela (foto: Eduardo Vessoni)

  • Peregrina, durante travessia do trecho Getaria – Zumaia, no País Basco, na Espanha (foto: Eduardo Vessoni)
    Peregrina, durante travessia do trecho Getaria – Zumaia, no País Basco, na Espanha (foto: Eduardo Vessoni)

  • Irún e Hondarribia (foto), na fronteira com a França, são as primeiras cidades do Caminho Norte, uma caminhada de 815 km até Santiago de Compostela, no País Basco, na Espanha (foto: Eduardo Vessoni)
    Irún e Hondarribia (foto), na fronteira com a França, são as primeiras cidades do Caminho Norte, uma caminhada de 815 km até Santiago de Compostela, no País Basco, na Espanha (foto: Eduardo Vessoni)

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