O tornado, o marroquino e a Mulher Melancia

O dia não poderia ter começado pior.

Saí da cama pouco depois das 5h30, tomei um banho displicente, traguei um café apressado e acelerei o resto do grupo para cair na estrada. 2h30 de viagem, entre San Diego e Los Angeles.

Fila no aeroporto, checagem sisuda de malas e todos aqueles procedimentos que nos fazem até sentir culpados.

Eu ainda sentia o gosto do último brunch orgânico na praia californiana e do pinot noir no restaurante de indie rock, mas o dia mal começara.

Após cinco horas de voo, eu deveria estar em Washington para, em um intervalo de 60 minutos, embarcar na última perna até São Paulo.

Deveria, mas não estava.

Não que eu perdera o embarque por atraso nosso, falta de documento ou por qualquer outra burocracia.

Eu não deixei de viajar porque eu não pude. Eu deixei de viajar porque a própria viagem não quis que eu parasse por ali. Ela queria ser mais viagem.

Um alerta de tornado, desses que anunciam danos e ameaçam fechar aeroportos, impediu nosso pouso no destino seguinte e fomos obrigados a descer em Richmond, a capital da Virgínia, a duas horas ao sul de Washington DC.

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foto: Youtube/Creative Commons
foto: Youtube/Creative Commons

“Tempestades severas com capacidade de tornado”, eu leria, dias depois, em um jornal de Washington.

Durante a evacuação emergencial, princípio de pânico dentro da aeronave, já em terra. O avião chacoalhava como barco que se mexe no Pacífico, em dia de oceano mal-humorado.

E eu não sabia se chovia dentro ou se chovia fora. Aliás, eu não entendia de onde vinha aquela água toda. A chuva chovia onde dava para chover.

Sabe filme catástrofe sobre tragédias que assolam Nova Iorque no Fim do Mundo? Mais ou menos assim.

Voos cancelados, eletricidade cortada, nível elevado de água e viaturas policiais danificadas por granizo do tamanho de bolas de beisebol.

foto: Wikimedia Commons
foto: Wikimedia Commons

À meia-noite e meia, quase 24 horas depois de ter saído apressado do hotel, fomos embarcados em um táxi em direção a Washington.

Íamos outros dois brasileiros, um motorista marroquino e eu, que estava no banco da frente para confirmar se o motorista mantinha os olhos abertos.

Afinal, “eu estava dormindo em casa quando me chamaram para essa corrida”, deixara bem claro o marroquino de sotaque forte, minutos depois de começar a viagem.

O silêncio fora interrompido pela voz grossa que me intimou: ‘O que está acontecendo?’, depois de se incomodar com a minha insistência em comprovar que ele se encontrava desperto.

− ‘Você está tenso?’, insistiu.

− ‘Tô cansado’, menti.

− ‘Então dorme’, ordenou aquele homem imenso, de cara fechada e barba em estilo beduíno.

E como é que faz para dormir depois de ter começado o dia, pouco antes das seis, e, no dia seguinte, ainda sequer ter concluído o que começara no dia anterior?

− ‘Eu não consigo dormir’, respondi, consciente de que fora descoberto.

− ‘Eu também não, quando estou dirigindo’, devolveu-me o taxista. E eu entendi o recado.

Fixei um ponto no horizonte e jurei não virar mais a cabeça, mas o marroquino decidiu puxar conversa.

− ‘De onde vocês são? Ah, Brasil? Futebol, seleção, Olimpídia…’

E emendou: ‘Eu conheço uma música brasileira, uma que diz assim “vai, vai, vai”.

− ‘Vai, vai, vai’?, perguntou, intrigado, o outro brasileiro que ia no banco de trás.

E entre postes sem luz, estrada molhada e um tornado que ameaçara arrasar a região, um funk pancadão irrompeu o silêncio gélido da Virgínia para avisar: “Eu sou a Mulher Melancia, Melancia, Melancia. Tipo cinturinha fina e um popô GG gigante”.

− ‘Stop, stop, stop’, supliquei desesperado, antes que ela tivesse tempo de completar com um “agora quero ver a velocidade seis. Vai, vai, vai”.

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foto: publicdomainpictures.net/Creative Commons
foto: publicdomainpictures.net/Creative Commons

Eu não sabia o que podia ser mais trágico: rodopiar no tornado ou tomar uma bundada da Mulher Melancia, às duas da manhã. Naquelas circunstâncias pós-trauma, ouvir “velocidade seis, vai, vai, vai”, fazia a gente sentir medo tudo outra vez (do tornado e da música).

− ‘Por que?’, perguntou frustrado.

− ‘Porque é música ruim sobre uma mulher de bunda grande’, devolvi tão rápido quanto à velocidade do traseiro GG gigante da moça de curvas cucurbitáceas.

O tornado ficara pequeno diante daquela dança em velocidade seis.

Nesse retorno de 48 horas para casa, fui obrigado a passar uma noite em um hotel de Washington, onde mora uma amiga de infância que eu não via há 17 anos.

Nos encontramos, rimos, choramos e falamos apressados para atualizar as últimas duas décadas de ausência, contadas em apertados 90 minutos, no lobby do hotel.

Tempestades atrasam voos, mas também trazem bons ventos da infância (e ainda nos atualizam sobre a música brasileira que andam ouvindo por aí).

PS: As fotos usadas nesta crônica são, meramente, ilustrativas. Não tive condições psíquicas de tirar a câmera da mochila.

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