[crônica] Turismo de esquina

Fui hiperativo, entre a infância e a adolescência.

Para acalmar criança de férias, minha mãe me levava ao Terminal Rodoviário do Tietê, me colocava dentro de um ônibus (com mala e dinheirinho na carteira) e me despachava, literalmente, pro Rio de Janeiro.

Seis horas de viagem, não me lembro fazendo o quê.

454 km depois, eu desembarcava no Rio, comprava ficha telefônica e, tradicionalmente, ligava para a Tia Daici, em Copacabana.

– Olha só, Duda… – introduzia.

Eu sempre tinha a esperança de que ela iria me buscar, mas seguia com o mesmo roteiro das férias escolares do ano anterior.

– Tu pega o Frescão e desce na esquina da Barata Ribeiro com a Constante Ramos.

Tia Daici era secretária trilíngue, falava até alemão. Mas era incapaz de dizer, em português, que ia me buscar na rodoviária.

No final, sempre dava certo. Eu tomava o tal ônibus executivo com ar-condicionado no talo, que gelava até sol carioca, e pedia pra descer na esquina que seria meu CEP das férias de verão.

Esquina da Barata Ribeiro com Constante Ramos, em Copacabana (imagem: Google Maps)
Esquina da Barata Ribeiro com Constante Ramos, em Copacabana (imagem: Google Maps)

Se minhas viagens solitárias tivessem que ter um primeiro endereço, seria a esquina da Barata Ribeiro com a Constante Ramos.

Foi ali que aprendi a desembarcar em um destino que não era meu, onde eu podia ser outro, ouvir sons diferentes e até copiar sotaques que faziam a gente parecer de outro lugar.

No Rio, com 12 anos recém-feitos, me dei conta de que o Brasil não era só São Paulo.

Que nem todo brasileiro come arroz com feijão carioquinha (nem mesmo os cariocas, que preferem o preto), que pizza pode vir acompanhada de uma generosa porção de catchup e que bolacha também pode ser biscoito.

Aprendi, mas não incorporei (que fique bem claro). Pra um paulistano do Bixiga e de antepassados italianos, isso já seria demais , sobretudo a parte da pizza com catchup.

Cobrador de ônibus é “trocador”, motorista é “piloto”. Nomes diferentes e um comportamento no trânsito com regras bem particulares (quem já pegou um ônibus que corria sobre duas rodas em um Carnaval carioca, nos tresloucados anos 80, vai entender do que eu tô falando).

Aprendi ainda que nem todo carioca vai à praia (não me lembro de ter colocado os pés na areia em toda a temporada em que passava no Rio) e que eles não se contentam com apenas um beijinho na hora do cumprimento.

Aprendi também que o relógio do carioca tá sempre em outro fuso horário. Atrasado, claro.

Minha prima Juliana, a filha da Tia Daici, era Juju. Mas eu era o Duda (e vem daí minha implicância com o apelido).

Todas as minhas férias eram diferentes no Rio de Janeiro, mas aquela esquina continuava a mesma.

Só não tive mais coragem de voltar, depois que a Tia Daici foi pra Jacarepaguá. Temo que a esquina não esteja mais lá, pelo menos como costumava estar na minha infância.

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