Entre a serra e o mar, Cunha é destino de artes e aventura

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As praias de Paraty ficam logo ali adiante, no final de uma estrada cenográfica com trechos de paralelepípedos.

É grande a tentação de descer até o nível do mar, mas entre a serra e o mar, quem chega até aquelas terras serranas encontra um destino discreto que passa longe do turismo de massa de outros endereços serranos de São Paulo.

Por ali, a experiência vem em forma de tradicionais trabalhos de cerâmica, campos de lavanda para visitas demoradas, trilhas cênicas em meio a trechos preservados de Mata Atlântica e, como ninguém é de ferro, mesa farta, no melhor estilo comida de fazenda.

Tudo isso, a 230 km de São Paulo, no Alto Vale do Paraíba e bem próximo a Paraty, no Rio de Janeiro.

Cunha, a 230 km da capital paulista (foto: Eduardo Vessoni)
Cunha, a 230 km da capital paulista (foto: Eduardo Vessoni)

Cunha não é lugar do turismo com atrações de fácil acesso. A área central se resume à Praça da Matriz e algumas construções históricas dispersas ao redor, mas é na beira da estrada e em endereços rurais com acesso por estradinhas de terra que acontece o melhor do destino.

Só para ter uma ideia, até o início da década de 90, a cidade não era um destino turístico, seu acesso era difícil e contava apenas com uma pensão e um hotel fazenda.

E quer saber qual é a melhor notícia que a gente traz de lá? Todas as atrações, de trilhas a campos de lavandas, têm entrada gratuita.

Confira dicas de roteiros turísticos de Cunha:

AVENTURA

Nem só com cerâmica e comida da roça se faz turismo em Cunha.

O destino não só inspira como também faz a gente transpirar, em trilhas do Parque Estadual da Serra do Mar, uma área de Mata Atlântica com mais de 330 mil hectares, cujo Núcleo Cunha (13,3 mil hectares) oferece opções de caminhadas que vão de 1,7 km (Trilha do Rio Paraibuna) a 14,4 km (Trilha das Cachoeiras).

Trilha das Cachoeiras, no Parque Estadual da Serra do Mar (foto: Eduardo Vessoni)
Trilha das Cachoeiras, no Parque Estadual da Serra do Mar (foto: Eduardo Vessoni)

Autoguiada, a primeira trilha passa por pequenas quedas d’água e piscinas naturais para banho. Já a puxada Trilha das Cachoeiras, que pode ser combinada com trechos de carro ou bike, leva a seis cachoeiras e exige contratação de guia do próprio parque.

Já o km 66 da SP-171, fora da área do parque, dá acesso à Pedra da Macela, uma caminhada de dois km por terreno íngreme até uma das mais belas imagens de Cunha.

A 1.840m de altitude, no Parque Nacional da Serra da Bocaina, esse pico tem vistas de Paraty, da baía de Ilha Grande e de Angra dos Reis.

O local não permite o acesso de carros particulares e a entrada também é gratuita.

SAIBA MAIS
Parque Estadual da Serra do Mar
Acesso pelo km 56,2 da SP-171 e mais 20 km em estrada não pavimentada.
Diariamente, das 8h às 17h
entrada grátis
www.parqueestadualserradomar.sp.gov.br

Pedra da Macela
São 5 km por estrada de terra batida, a partir do km 66 da SP-171.

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LAVANDAS

Por décadas, a cerâmica foi o carro-chefe do turismo de Cunha, vaga ocupada agora por atrações como os campos de lavanda.

A mais nova atração de Cunha atende pelo sugestivo nome de Contemplário, uma área de 5 hectares, no Bairro Taboão.

Detalhe de campo de lavandas do Contemplário, em Cunha (foto: Eduardo Vessoni)
Detalhe de campo de lavandas do Contemplário, em Cunha (foto: Eduardo Vessoni)

Inaugurada em 2015 por Henry, filho de uma finlandesa e um inglês, a atração abre suas portas para que visitantes percorram, em circuitos autoguiados, seus campos de lavanda, equipados com deques de madeira e mesas para piquenique.

O local abriga lavandas do tipo dentada (lavanda francesa), mas não conta com as famosas versões de Provença que, segundo Henry, são do tipo inglesa e não se dão bem com o calor do Brasil.

Para ver lavandas, programe-se para estar na região fora da temporada de chuvas, pois essas plantas não gostam de água em excesso. Aliás, o êxito dessas plantações em Cunha se deve às temperaturas mais amena e ao solo alcalino e bem drenado.

Lavandário de Cunha (foto: Eduardo Vessoni)
Lavandário de Cunha (foto: Eduardo Vessoni)

Mas o endereço mais popular para ver campo de lavanda é o clássico Lavandário, cujos finais de tarde entram fácil para a lista de um dos mais belos do Brasil.

Situado em uma colina com vista para a estrada, a atração foi inspirado nos estabelecimentos da Provença, na França, e conta com uma lojinha com produtos, como fragrâncias de ambiente, sachês, sabonetes e até gêneros alimentícios feitos com lavanda.

SAIBA MAIS
Contemplário
SP-171 – km 61,5
entrada grátis
www.contemplario.com.br

Lavandário
SP-171 – km 54,7
entrada grátis
www.lavandario.com.br

CERÂMICA

Considerada polo da arte cerâmica da América do Sul, Cunha abriga diversos ateliês que podem ser visitados e até usados pelos turistas, em oficinas que acontecem, regularmente.

E tudo começou na década de 70, quando um grupo de japoneses e portugueses que buscava um local para fazer cerâmica chegou a Cunha, onde paneleiras de barro já trabalhavam com argila local, e foi recebido pelo então prefeito da época, quem cedeu um espaço para aqueles artesãos estrangeiros.

Segundo Marivaldo Luiz Almeida Rodrigues, secretário de Turismo e Cultura de Cunha, a abundância e o tipo da argila local garantiram a fama e a qualidade das peças feitas na região.

Se possível, procure programar sua visita em dias de abertura de forno, um ritual ceramista em que se apresentam as peças ao público pela primeira vez. “É o pãozinho quente que acaba de sair do forno. Gera muita emoção e surpresa nos artistas”, explica Marivaldo.

Diferente das famosas peças de Marajó, no Pará, que tendem a ser mais decorativas, a cerâmica de Cunha também tem função utilitária, além de artística.

Ateliê Suenaga e Jardineiro, em Cunha (foto: Eduardo Vessoni)
Ateliê Suenaga e Jardineiro, em Cunha (foto: Eduardo Vessoni)

Nos ateliês de Cunha encontram-se peças feitas em baixa temperatura (queimadas entre 500°C e 700°C, dando efeito mais rústico ao trabalho final) e em alta, a 1300°C e com peças mais fortes e resistentes.

Destaque para os belos fornos noborigama, introduzidos em Cunha, em 1975, e de origem oriental. Com apenas cinco restantes, a cidade abriga endereços onde é possível ver esse clássico de alta temperatura no cenográfico Ateliê Suenaga Jardineiro.

Entre as 20 opções de ateliês abertos na cidade, a maior concentração fica na rua Alcides Barbeta, no bairro Vila Rica.

Gaia
Cerâmica de estúdio, com peças únicas ou em pequenas produções. É conhecido pelo uso da técnica raku, uma queima vertiginosa de 0°C a 1000°C , em apenas uma hora, e com abertura do forno com a peça ainda em brasa, daí o efeito craquelado dos trabalhos.

Rua Alcides Barbeta, 250
Tel.: (12) 3111-3126

Suenaga e Jardineiro
Sem dúvida, é o ateliê mais cenográfico de toda a cidade, cujas peças são feitas pelos artistas Kimiko Suenaga, do Japão, e seu marido Gilberto Jardineiro. Os trabalhos, de forte influência oriental, são com esmaltes feitos com cinzas de eucalipto e de casca de arroz.

Rua Dr. Paulo Jarbas da Silva, 150
Tel.: (12) 3111-1530
www.ateliesj.com.br

10º Festival de Cerâmica

De 29 de setembro a 15 de novembro, a cidade abriga esse festival com oficinas e exposições, reunindo alguns dos mais expressivos trabalhos produzidos na região.

foto: Divulgação
foto: Divulgação

Realizado em parceria com o Instituto Cultural de Cerâmica de Cunha (ICCC) e a Cunha Cerâmica, o evento terá exposições temáticas e permanentes nos ateliês e pousadas da estância, workshops, cursos e palestras sobre o assunto, além de queimas e abertura de fornadas.

A programação é variada e inclui eventos como workshops sobre queima com lenha, uso de esmaltes e o trabalho com torno elétrico.

ESTRADA PARQUE

Reinaugurada, recentemente, essa via cênica de 9,4 km sobre paralelepípedos liga Cunha, no interior de São Paulo, e Paraty, no litoral fluminense.

Sem nenhuma atração turística, a estrada passa pelo Velho Caminho do Ouro e pelo interior do Parque Nacional da Serra da Bocaina. Ainda assim, prepare-se para cruzar uma das mais belas estradas brasileiras, uma continuação da SP-171, entre Guaratinguetá e Paraty.

E quer saber? Fazer um bate e volta nessa estrada já vale como atração turística. Dá pra tomar café da manhã em Cunha, almoçar em Paraty e ainda voltar para o jantar em Cunha. Só não se esqueça que o tráfego na Estrada Parque só é permitido até às 17 horas.

Estrada Parque, entre Cunha e Paraty (foto: Eduardo Vessoni)
Estrada Parque, entre Cunha e Paraty (foto: Eduardo Vessoni)

Medidas para o controle de trânsito na Estrada Parque devem ser tomadas em breve como limite de velocidade (afinal de contas, aquelas curvas fechadas sobre barrancos não devem ser vencidas a mais de 40 km/h), instalação de praças de pedágio e guaritas de fiscalização.

A estrada de Cunha a Paraty vai do km 46 ao km 70 da SP-171, onde começa a Estrada Parque, marcando a divisa entre São Paulo e o Rio de Janeiro. Dali segue-se pela RJ-165, por mais 12 km até Paraty.

GASTRONOMIA

Comer em Cunha é uma experiência única, cujos pratos são uma mistura equilibrada entre comida da roça e cozinha criativa.

No cardápio não devem faltar, de acordo com a temporada, ingredientes como carne de porco, costelinha, truta e shitake.

Trutas do Gnomo Restaurante, em Cunha (foto: Eduardo Vessoni)
Trutas do Gnomo Restaurante, em Cunha (foto: Eduardo Vessoni)

Durante a passagem do Viagem em Pauta pela cidade, fomos surpreendidos com opções gastronômicas como a truta com crosta de pinhão e risoto de açafrão do Veríssima Bistrô (Rua Manoel Prudente de Toledo, 584/tel.: 12-3111-2356); a sequência de trutas com cinco diferentes preparos e acompanhadas de arroz negro ao vinho branco e purê de banana, no concorrido Do Gnomo Restaurante (Estrada Municipal do Ribeirão, 2.300/12-99734-8869); e o aconchegante La Taverne Bistrô, onde provamos polenta italiana com ragu no vinho (km 66 da estrada Cunha – Paraty/tel.: 12-3111-6039).

Para refeições mais rápidas, não deixe de visitar os cenográficos Café e Arte, no calçadão do centro histórico de Cunha, e o Moara Empório Café, no km 57 da SP-171. Ambos contam com lojinhas com artesanato local e objetos vintage para compra.

ONDE FICAR

Pousada Candeias
A 13 km de Cunha e a 35 km de Paraty, essa pousada é endereço de casais e famílias que procuram o clima da serra, perto do litoral.

Pousada Candeias, em Cunha (foto: Eduardo Vessoni)
Pousada Candeias, em Cunha (foto: Eduardo Vessoni)

Como quase todos os estabelecimentos do destino, esse também é gerenciado por paulistanos que largaram a capital em busca de qualidade de vida. “Foi como virar a página e começar de novo”, descreve o proprietário Toninho.

O local possui 10 chalés, entre 35 e 45 m², em meio a florestas de araucárias e equipados com lareira, deck de madeira, closet, sala e quarto. Diárias para casal, a partir de R$ 370. www.pousadacandeias.com.br

Pousada Cheiro da Terra

Pousada Cheiro da Terra, em Cunha (foto: Eduardo Vessoni)
Pousada Cheiro da Terra, em Cunha (foto: Eduardo Vessoni)

Para quem procura algo mais urbano, essa opção de pousada fica na entrada da cidade e possui 15 chalés, equipados com lareira.

Mas o mais inusitado por ali é o ateliê, onde acontecem oficinas curtas (R$ 70 por pessoa) em que o hóspede faz suas próprias peças em cerâmica. “A experiência é poder levar Cunha para si com uma peça feita pelo hóspede”, descreve o proprietário. Diária a partir de R$ 300 (casal) www.pousadacheirodaterra.com.br

VEJA FOTOS

  • Pousada Candeias, em Cunha (foto: Eduardo Vessoni)
    Pousada Candeias, em Cunha (foto: Eduardo Vessoni)

  • Pousada Cheiro da Terra, em Cunha (foto: Eduardo Vessoni)
    Pousada Cheiro da Terra, em Cunha (foto: Eduardo Vessoni)

  • Vista do alto da Pedra da Macela (foto: Eduardo Vessoni)
    Vista do alto da Pedra da Macela (foto: Eduardo Vessoni)

  • Trilha das Cachoeiras, no Parque Estadual da Serra do Mar (foto: Eduardo Vessoni)
    Trilha das Cachoeiras, no Parque Estadual da Serra do Mar (foto: Eduardo Vessoni)

  • Lavandário de Cunha (foto: Eduardo Vessoni)
    Lavandário de Cunha (foto: Eduardo Vessoni)

  • Detalhe de campo de lavandas do Contemplário, em Cunha (foto: Eduardo Vessoni)
    Detalhe de campo de lavandas do Contemplário, em Cunha (foto: Eduardo Vessoni)

  • Ateliê Suenaga e Jardineiro, em Cunha (foto: Eduardo Vessoni)
    Ateliê Suenaga e Jardineiro, em Cunha (foto: Eduardo Vessoni)

  • Estrada Parque, entre Cunha e Paraty (foto: Eduardo Vessoni)
    Estrada Parque, entre Cunha e Paraty (foto: Eduardo Vessoni)

  • Trutas do Gnomo Restaurante, em Cunha (foto: Eduardo Vessoni)
    Trutas do Gnomo Restaurante, em Cunha (foto: Eduardo Vessoni)

  • Estrada Parque, entre Cunha e Paraty (foto: Eduardo Vessoni)
    Estrada Parque, entre Cunha e Paraty (foto: Eduardo Vessoni)

  • Cunha, a 230 km da capital paulista (foto: Eduardo Vessoni)
    Cunha, a 230 km da capital paulista (foto: Eduardo Vessoni)

COMO CHEGAR
Cunha fica a 230 km da capital paulista e tem acesso pelo km 65 da BR-116 (Rodovia Presidente Dutra), de onde deve-se tomar a SP-171, em direção a Guaratinguetá e Paraty, no litoral fluminense.

A entrada para a cidade fica no km 46.

Para quem vem de São Paulo são pedágios, em cada sentido: R$ 3,10 (Arujá); R$ 3,10 (Guararema); R$ 5,60 (Jacareí) e R$ 12,70 (Moreira César).

FIQUE ATENTO
Linda, porém exige atenção.

A Estrada Parque não conta com acostamentos e possui curvas fechadas. Como lembra João Filho, chefe de engenharia da Ford para a América do Sul, “uma condução agressiva, além de menos segura, aumenta o consumo de combustível”.

Por isso, tire o pé do acelerador e desfrute de uma das estradas mais cenográficas do Brasil, onde é possível também fazer algumas paradas em mirantes, às margens da estrada.

Estrada Parque, entre Cunha e Paraty (foto: Eduardo Vessoni)
Estrada Parque, entre Cunha e Paraty (foto: Eduardo Vessoni)

Fique atento também com a neblina, que não é rara por ali, e na hora da ultrapassagem – há poucos trechos que conta com visibilidade segura.

E não tem como escapar. Carro próprio, de preferência com tração nas rodas, é fundamental por ali, uma vez que a maioria das atrações ficam em áreas rurais de Cunha e sem opção de transporte público.

“O GPS do carro, ou recurso similar disponível em um dispositivo móvel, pode ser o seu melhor amigo na estrada, pois é extremamente importante ter as rotas, trajetos e destinos mapeados”, recomenda João Filho.

 

* O Viagem em Pauta visitou Cunha com apoio da Secretaria Municipal de Turismo e Cultura de Cunha, GoPro e Ford Brasil

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1 Comentário

  1. A região é bonita o ano inteiro, mas fica melhor no outono e inverno, quando o mato que cresce na beira da estrada é aparado e a paisagem lembra a Europa.

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