[crônica] Shalom, Eduardo e Mônica

foto: Felipe Mortara

Quem já foi abençoado com a obrigação de colocar os pés em Israel sabe como é mais fácil ler a Torá em hebraico do que enfrentar o controle de segurança que antecede o check in no aeroporto de Tel Aviv, um dos mais encrenqueiros (e seguros) do mundo.

As mais de 15 horas no voo de volta para o Brasil são quase nada perto do interrogatório que antecede o despacho de malas.

– Sou o funcionário de segurança do aeroporto e vou fazer algumas perguntas – adiantou o bonitão de barba rala, bem afeitada.

– Sim – respondi, esperando duas ou três perguntinhas sobre inflamáveis, objetos cortantes e explosivos.

A conversa começou tensa, sobre um provável segundo passaporte que eu teria usado para entrar no país, uma semana antes.

Diante do equívoco, fiquei tão paralisado quanto às imagens de Maria que decoram as paredes da Igreja da Anunciação, em Nazaré. Já me vi detido com a cabeça encostada na parede de calcário dos Muro das Lamentações, lamentando pelos dois mil anos seguintes.

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foto: Eduardo Vessoni

Olho no olho, dedo no monitor e os bilhetes de embarque no balcão.

Joguei o corpo, levemente, para frente para confirmar se os olhos arregalados e o cabelo comprido ainda eram os meus, na foto do passaporte.

Eram. E continuavam sendo (ainda que um pouco mais arregalados na versão presencial).

— E você trabalha com o que? – foi uma das primeiras perguntas, seguida por ‘Quem te trouxe para Israel?’ ‘Por que?’ ‘Onde você foi?’ ‘E o que você fez?’

Fui respondendo tudo com a mesma calma de um judeu que desfruta do shabat semanal.

Logo vieram as perguntas sobre os veículos para os quais eu colaboro como jornalista freelancer. A espinha até arrepiou quando ele pronunciou, sem sotaque, a palavra Catraca Livre e outros nomes de revistas e sites que só brasileiro conhece.

– Mas se você não é funcionário deles por que você escreve para eles?

Taí uma pergunta que nem a Prefeitura de São Paulo, a Receita Federal ou o Pis Pasep tinham pensado fazer.

Dá-lhe mais explicações sobre minha vida. As perguntas iam se repetindo, detrás para frente e de frente para trás.

– ‘Quem te trouxe para Israel?’ ‘Você veio para Israel por que?’ ‘Você foi trazido por quem?’

Já me faltavam conjunções e orações subordinadas para responder à mesma pergunta.

– ‘E você trabalha com o que?’ (ops, essa pergunta ele já não tinha feito?). A essa altura, eu já duvidava da minha própria memória.

Os olhos foram embaralhando e a conversa já soava hebraico.

– למה באת לארץ?

– מי הביא אותך לישראל?

– איפה היית בישראל?

O oficial da segurança se retirou, saiu marchando entre balcões, e voltou com aquela que eu achava que seria a última pergunta. Mas não era.

– Minha supervisora quer falar com o senhor.

E adivinha qual foi a primeira pergunta dela?

– ‘Quem te trouxe para Israel?’ – questionou, seguida da segunda pergunta que eu mais ouvi naquele terminal: – ‘E você trabalha com o que?’

Sublimei e respondi.

‘E quem te trouxe para Israel?’ (foto: Paulo Panayotis)

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Meu dia de marmota judia (que por ali parece que se chama hyrax) já passava dos 20 minutos de duração. E ainda me faltavam o check in, o despacho de malas, o raio-x, a biometria, o papelzinho de saída, o último cigarro antes do embarque… e o DUTY FREE!!!

Dois cochichos mais entre eles e fui liberado.

Fiz tudo como manda o roteiro. Check in, despacho de malas, raio-x, biometria e… papelzinho de saída.

– ‘Eduardo?’, ouviu do outro lado da cabine envidraçada, já em posto avançado.

– ‘Yes, it’s me’, respondi preocupado em ouvir, mais uma vez, um ‘Quem te trouxe para Israel?’ ou então, para variar, um ‘E você trabalha com o que?’

Como se a Terra Prometida já não fosse capaz de prometer mais nada, ouvi da moça:

– “Eduardo e Mônica um dia se encontraram sem querer…”, cantou com um sorriso no canto da boca.

Era brasileira, trabalhava no aeroporto de Tel Aviv e eu me sentia numa pegadinha. Na pegadinha do JC, do Maomé, do Eduardo e da Mônica.

– TavadefériasemIsrael?Gostoudopaís? (assim mesmo, tudo junto e sem pausa para respirar).

Fiquei até sem ar com medo de ouvir outro ‘quem te trouxe para Israel?’.

“Eduardo abriu os olhos, mas não quis se levantar. Ficou deitado e viu que horas eram”.

Senhores passageiros, dirijam-se ao portão de embarque.

“Festa estranha, com gente esquisita”.

Embarque autorizado.

“E o Eduardo, meio tonto, só pensava em ir pra casa”

Já sentado na poltrona na 11 C (“corredor, por favor”), cheguei até a me questionar: Quem me trouxe mesmo para Israel? Eu trabalho com o que?

“E quem irá dizer que não existe razão?” Não só nas coisas feitas pelo coração mas também no aeroporto de Tel Aviv.

Shalom.

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4 Comentário

  1. Texto maravilhosoooo!!! “Diante do equívoco, fiquei tão paralisado quanto às imagens de Maria que decoram as paredes da Igreja da Anunciação, em Nazaré.” HAHAHAHAHAHA

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