[crônica] Uma hora e meia

foto: Benjamin Bousquet/Flickr-Creative Commons

Voo bom é voo que dura uma hora e meia.

É só ler um ou dois jornais, a revista de bordo, que já chegou.

Dá para ver também dois ou três vídeos breves sobre destinos que a mesma companhia aérea pode te levar, nas suas próximas férias.

E ainda sobra tempo para lutar com o pacotinho de amendoim que só se deixa ser aberto, após uma irritante sinfonia aérea, e sempre termina entre dois dentes falhados.

Voos de 1h30 são domésticos e a gente sempre tem a sensação de estar chegando em casa.

Chato mesmo, nos voos de 1h30, é que eles vêm precedidos de procedimentos que sempre levam mais do que uma hora e meia.

Aplicativo do táxi
“O seu motorista chegou”
Deslocamento
Despacho de malas
Cafezinho com pão de queijo
Banheiro
2 ou 3 cigarros
Jornais na livraria
Controle do raio-x
“Tem laptop na mochila?”
Painel de controle
“Senhores passageiros, seu portão de embarque mudou para o 304”

E o celular vai pedindo carga, bem na hora do check-in virtual: “Eduardo Vessoni está viajando para Porto Alegre do São Paulo-Congonhas Embarque” (assim mesmo, num português que só o aplicativo entende).

foto: @sage_solar/Flickr-Creative Commons

Voo bom é voo de 1h30. A gente mal vê a decolagem e já começa a se preparar para o pouso.

Quase não dá tempo de ir ao banheiro e a comissária vem recolhendo objetos de descarte.

“Obrigado, senhor”, “obrigado, senhora.” e a gente não via a hora de se livrar daquele lixo com cara de combo promocional de restaurante fast food.

Libertador mesmo é ouvir um “tripulação, pouso autorizado”. E lá vem a comissária, lá do fundo, pisando firme para repreender passageiros rebeldes:

“Senhor, poltrona na posição vertical. Obrigada.”

“Senhor, a poltrona.”

“Senhor”, resume, na terceira fileira, com mãos eretas e dedos juntos que imitam a posição vertical da poltrona.

Dois ou três chacoalhões. Uma tombada pra esquerda, outra pra direita.

Logo, rodas riscam a pista do aeroporto, causando fumaça do lado de fora e euforia, do lado de dentro.

Descliques de cintos ansiosos, levantadas antecipadas e bagagem que saltam do alto, antes da hora.

“Senhores passageiros, permaneçam sentados até a parada total da aeronave”, quase encavalado com um simpático “suas bagagens estarão disponíveis na esteira de número 3.”

Bom mesmo é voo de uma hora e meia. É rápido, a gente embarca só com RG e gasta menos com Uber.

LEIA TAMBÉM: “[crônica]: Do tempo do ontem”

VEJA OUTRAS CRÔNICAS

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*