Dia Mundial da Fotografia: fotógrafos contam bastidores de suas imagens

Desde que uma imagem passou a valer mais do que mil viagens, fazer turismo parece ter ficado em segundo plano.

Sou do tempo em que voltar de férias implicava aguardar, ansiosamente, três ou quatro dias úteis para fotos serem reveladas em lojas da avenida Liberdade, em São Paulo. Um ou dois rolos de 36 poses bastavam para registrar, fielmente, uma viagem inteira.

Hoje, tudo é registrado (e revelado) na hora e a gente nunca sabe se o viajante está mesmo aproveitando a viagem ou se é a viagem que está se aproveitando dele para aparecer em redes sociais.

foto: Casey Stinnett/Flickr-Creative Commons

No dia 19 de agosto de 1839, o mundo conhecia uma das invenções mais fascinantes: a fotografia.

De origem grega, fotografar é “desenhar na luz”, em tradução livre. E, desde então, nunca mais se deixou de desenhar com ela.

Foi naquele dia que o daguerreótipo, considerado o primeiro processo fotográfico a ser comercializado, que a Academia Francesa de Ciências mostrava ao mundo a invenção de Joseph Nicèphore Niépce e Louis Jacques Mandé Daguerre, quem emprestou seu sobrenome à engenhoca.

Para comemorar o Dia Mundial da Fotografia, celebrado sempre no dia 19 de agosto, o Viagem em Pauta convidou quatro fotógrafos para falarem de suas imagens preferidas na natureza e contar as histórias por trás daqueles registros.

Nossos convidados, viajantes aventureiros por natureza, não têm pressa e sabem que a fotografia não é o registro apressado das imagens fáceis e tão pouco desistem na primeira tentativa.

Aliás, se for preciso, ficam dias plantados em um mesmo lugar para garantir uma boa imagem.

LEIA TAMBÉM: “Fotógrafo de casamento faz ensaio impressionante na Islândia”

foto: arquivo pessoal

GUSTAVO MASSOLA
Ex-publicitário, videomaker e fotógrafo, o paulista Gustavo Massola largou a vida das pranchetas e das planilhas para encarar desafios mais profundos.

É em rincões do Brasil que ainda não estão na lista dos endereços de viajantes comuns que Massola costuma montar o tripé, noite adentro, para capturar imagens com técnicas de timelapse e astrofotografia.

Além do projeto “Imersões Noturnas”, que parece longe de querer ser finalizado, Massola participa de projetos especiais como a viagem recente que fez com outros três fotógrafos, na Chapada dos Veadeiros, a convite de uma fabricante de motos. SAIBA MAIS

PIAUÍ
(Serra da Capivara)

foto: Gustavo Massola

As pinturas rupestres dessa imagem feita no Boqueirão da Pedra Furada, na Serra da Capivara, são o eixo central de um projeto no qual o fotógrafo Gustavo Massola trabalha, há quatro anos.

“Imersões Noturnas”, segundo Massola, é o estudo da fotografia noturna para retratar pinturas como as dessa imagem, à noite e sob a luz do fogo, da mesma maneira que o homem antigo que as criou devia vê-las.

“Estas são apenas algumas das mais de mil pinturas rupestres existentes na base deste paredão rochoso [que] abriga centenas de sítios arqueológicos com milhares de pinturas rupestres deixadas por um homem muito antigo, uma história não ensinada nas escolas com a devida profundidade”, explica Massola.

foto: Gustavo Massola

O projeto começou no final de 2014, no Parque Estadual do Ibitipoca, no sul de Minas, com um vídeo com imagens capturadas durante nove dias seguidos, “mergulhando à noite e editando de dia numa pensão na vila”, além de outros 4 dias de finalização e ajuste fino das imagens.

No total, foram feitas cerca de 8 mil fotos, totalizando 160 GB, e uma sequência de perrengues como quedas no escuro, acampamento em áreas de felinos e refúgio na caverna que aparece no vídeo, durante cinco tempestades simultâneas.

LEIA TAMBÉM: “Vídeo em timelapse mostra versão inusitada de Ibitipoca, em Minas Gerais”

foto: arquivo pessoal

TOM ALVES
Com fotos em publicações do Brasil e do exterior, esse fotógrafo mineiro tem uma relação antiga com o registro de imagens (em uma época em que a fotografia sequer pertencia ao seu mundo, como ele mesmo costuma definir sua história).

Desde suas primeiras viagens pelo Cerrado de Minas Gerais com a família, de onde vem suas primeiras referências visuais, fotografar é uma “busca transcendente pela qualidade plástica, contemplação consciente do ver e investigação dos espaços”.

Tom, quem também conduz expedições fotográficas com fotógrafos amadores, tem imagens publicadas em revistas de bordo, jornais e publicações especializadas de turismo e esportes de aventura. SAIBA MAIS

MINAS GERAIS
(Serra do Cipó)
Com larga experiência no interior brasileiro, Tom Alves é daqueles caras pacientes, capaz de levar dias para garantir um bom registro.

Um dos exemplos é esse registro na Cachoeira do Tabuleiro, na Serra do Espinhaço, no município de Conceição do Mato Dentro.

foto: Tom Alves

“Foram incontáveis trocas de mensagens com amigos que moram próximos ao local, no intuito de saber o momento perfeito para fotografar a maior cascata de Minas Gerais. Eis que num dado sábado, choveu forte a noite toda e ela transbordou com toda sua potência.”

Em um domingo à tarde, Tom rodou 50 km de estradas de asfalto e terra, e caminhou outros cinco quilômetros até o local, que se encontrava encoberto. Foram necessários outros três dias para que o fotógrafo pudesse, no terceiro deles, por fim, conseguir o registro dessa imagem.

“Após três horas plantado na frente da cascata, sob chuva constante, o improvável aconteceu. Por alguns minutos a névoa que encobria todo o vale se desfez, descortinando a mãe das cachoeiras de Minas Gerais. E o espetáculo se fez”, explica Tom.

foto: arquivo pessoal

ANDRÉ DIB
Desde 2002, Dib faz fotografia documental e tem trabalhos publicados n’O Globo, Folha de São Paulo, The Guardian e National Geographic Brasil, entre outros.

Tem também conteúdo realizado para ONGs e instituições como a WWF-Brasil e SOS Amazônia, e trabalhos premiados no Brasil e no exterior, como o concurso da Funarte, Concurso Latino Americano de Fotografia e o troféu Corcovado, do Festival Internacional de Filmes de Montanha, no Rio de Janeiro.

Assim como suas fotografias de impacto visual, esse paulista de Uberaba costuma ir longe para captar imagens, como a ascensão dos 11 picos mais altos do Brasil e desembarque em endereços remotos, como o Oriente Médio e a Antártica. SAIBA MAIS

LEIA TAMBÉM: “Saiba como é uma viagem turística a Antártica, a mil km da Terra do Fogo”

SERRA DOS ÓRGÃOS
(Rio de Janeiro)
André Dib é sinônimo de Cerrado brasileiro, mais especificamente, a Chapada dos Veadeiros.

Foi numa dessas viagens pelo interior do país, na Serra do Roncador (MT), que encontrei o Dib pela primeira vez, montado em uma moto, em uma das suas longas (e solitárias) viagens pela região.

A foto escolhida por ele foi feita na Serra dos Órgãos, na região serrana do Rio de Janeiro.

Vista do Parque Estadual dos Três Picos a partir da Pedra do Sino, no Parque Nacional da Serra dos Órgãos (foto: André Dib)

“Foram dois dias dormindo perto dessa borda para conseguir a luz ideal”, explica Dib.

Feito em uma área fechada para visita pública, mas com autorização do ICMBio, o fotógrafo se instalou no exclusivo mirante dos Portões de Hércules, onde teve que esperar que o tempo abrisse para fazer esse registro do amanhecer.

foto: arquivo pessoal

PATRICK MULLER
Desde que se apaixonou pelo Brasil e pela esposa brasileira, há mais de três décadas, esse fotógrafo francês da Alsácia passa parte do ano em endereços como a França, o Nordeste e o arquipélago de Fernando de Noronha.

Engenheiro aposentado, sua preocupação agora é acompanhar o nível da maré, da direção dos ventos e dos negócios que mantém no Nordeste brasileiro, como a empresa de mergulho que mantém em Fernando de Noronha, há 24 anos. SAIBA MAIS

Em Noronha, Patrick anda, diariamente, buscando novas oportunidades fotográficas. E quem já teve a oportunidade de passar alguns dias com ele no arquipélago sabe que isso é quase como a corrida matinal de quem mora na praia.

No final de tarde em que fez a foto, Patrick caminhou entre as praias do Bode e a da Cacimba do Padre, no Mar de Fora. Ao chegar ao Morro dos Dois Irmãos, uma das imagens mais famosas da ilha, se deparou com essa cena única.

foto: Patrick Muller

Como ele mesmo define, “me pareceu um caminho verde e brilhante para um portal”, em referência à laje de pedra e às “algas oportunistas onde há, normalmente, uma praia perfeita”.

“Na ilha, existe um ciclo anual: na época do swell, aparecem pedras e muita areia é removida das praias. Já no limite da luz e com longa exposição, tentei registrar esse momento especial”, explica Muller.

“E depois, naturalmente, tudo volta ao normal”, completa.

Exceto para o irrequieto Patrick que, no dia seguinte, começa tudo de novo.

LEIA TAMBÉM: “Mirantes de Fernando de Noronha mostram outras perspectivas da ilha”

2 Comentário

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*