[História em Pauta]: Indiana Jones do Brasil, na Serra do Roncador

Coronel Fawcett (foto: Wikipedia Commons)

Resumo para quem tem pressa

Coronel britânico com talento para Indiana Jones se perde no Sri Lanka, encontra inscrições misteriosas que o levam ao Mato Grosso, onde busca uma passagem secreta para a Cidade Z, manda cartas imprecisas para a esposa e desaparece na floresta.

Para quem quer saber mais
Por essa, nem os fãs podiam imaginar.

Indiana Jones nasceu no Brasil. Não de papel passado, mas aquela história de sair desvendando mistérios arqueológicos e linguísticos começou, aqui, no Brasil.

No sudeste do Mato Grosso, a mais de 500 km de Cuiabá, a Serra do Roncador viu nascer uma das histórias mais misteriosas das expedições interiores do Centro-Oeste brasileiro.

O oficial britânico Percy Harrison Fawcett, conhecido na praça como Coronel Fawcett, tinha espírito aventureiro e um apego exagerado por lendas. Por isso, acabou desaparecendo no Mato Grosso, em busca de uma civilização perdida que ele tinha certeza que ficava em território brasileiro.

Em 1925, acompanhado de seu filho e de um amigo, Fawcett nunca mais seria encontrado. Nem aqui, nem em outras dimensões.

Cachoeira São Francisco, na Rota Franciscana, na Serra do Roncador (foto: Eduardo Vessoni)

Se Fawcett não tinha muito talento para solucionar mistérios, foi (ao menos) inspiração do personagem Indiana Jones. Na imagem mais famosa do coronel, uma figura lembra uma mistura entre Holmes e o professor de arqueologia Indiana Jones dos filmes de Steven Spielberg.

Coronel Fawcett (foto: Wikipedia Commons)

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O INÍCIO
Desde cedo, o menino já ia dar trabalho.

Fã de histórias de aventura desde a infância, Fawcett virou membro da Artilharia Real britânica e, aos 26 anos, foi parar lá no antigo Ceilão, atual Sri Lanka.

Explorou florestas dos arredores de Tricomalee e se perdeu em terras de mata densa, onde encontrou inscrições desconhecidas que seriam interpretadas como caracteres dos budistas Asoka, segundo lhe cantou a bola um sacerdote do Ceilão.

Aquilo foi suficiente pro moço aventureiro encontrar semelhanças com o “Documento 512 – um mapa de uma Cidade Perdida” uma carta de 1754, de autoria desconhecida, na obra Highlands of the Brazil (1869), de Sir Richard F. Burton.

Documento 512, atualmente, na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro (foto: Wikimidia Commons)

Atualmente, o documento se encontra na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, órgão que afirma que o “manuscrito é considerado o único mapa conhecido de uma cidade perdida no centro do Brasil”.

O documento faz referência a uma cidade encontrada por Muribeca, no sertão brasileiro, “entre o Xingu e o Araguaia, no Roncador, ou na Serra do Sincorá, na Bahia”, segundo descrição de Antonio Callado, em seu “Esqueleto na Lagoa Verde”, obra que relata sua participação na expedição de busca da ossada do coronel desaparecido.

E a mente fértil e aventureira iam ganhando mais estímulos.

Para deixar Fawcett ainda mais pilhado, o autor de “As minas do rei Salomão”, Henry Rider Haggard, lhe deu uma estatueta de basalto com letras desconhecidas que teria vindo do Brasil, pelas mãos do filho Haggard, quem havia morado no Mato Grosso.

As peças começavam a se encaixar e, cada vez mais, Fawcett tinha certeza de que a estátua encontrada no Brasil era de Atlântida.

A região da Serra do Roncador, onde Fawcett desapareceu, é conhecida por títulos como Portal para Atlântida, entrada para a Terra Oca e até caminho para Machu Pichu, no Peru.

E o coronel vai à loucura!

PRIMEIRO DESEMBARQUE
Fawcett pisou pela primeira vez na América do Sul, em 1906, para ajudar a Bolívia e o Peru no novo mapa geopolítico da região, no pós-Guerra do Pacífico.

O coronel era um grande amigo de Arthur Conan Doyle, criador de Sherlock Holmes e autor do clássico “O Mundo Perdido”, que teria sido inspirado na passagem de Fawcett pela Bolívia.

Sua busca pela Cidade Perdida e sua mania de se meter em áreas isoladas não só renderam biografias e relatos de viagens como também foram inspirações para obras como “O Mundo Perdido” (1912) .

A partir de 1920, suas visitas se intensificaram e o coronel deixou a esposa Nina Paterson Fawcett e dois filhos na Jamaica.

Entre 1906 e 1924, foram sete expedições no continente, onde chegou a pedir apoio ao governo brasileiro, na época sob o comando do presidente Epitácio Pessoa, para encontrar as tais terras desconhecidas.

O Marechal Cândido Rondon, que já tinha sujado muito o pé de barro para demarcação de terras indígenas e instalação de telégrafos no Brasil interior, recusou de cara, alegando que não eram necessários estrangeiros em expedições em território nacional.

Em outra tentativa, ofereceram-lhe acompanhamento de alguém de confiança do governo brasileiro. Certo de suas intenções, Fawcett alegou que “se não pudesse ir sozinho, não faria a viagem”.

Na época chegou-se a cogitar que, mais do que encontrar a Cidade Abandonada, Fawcett queria mesmo era achar ouro ou qualquer outro objeto de valor que lhe rendesse fama internacional e dinheiro. Curiosamente, as cartas enviadas à esposa não davam detalhes de sua localização exata.

A última tentativa de localizar a Cidade Z, outro nome para o lugar que parece não existir, foi na expedição de 1925, ao lado de seu filho mais velho, Jack, e do amigo Raleigh Rimell.

Dizem que o coronel Fawcett teria passado pela Rota Franciscana (foto), durante suas buscas pela Cidade Z, na Serra do Roncador (foto: Eduardo Vessoni)

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A ÚLTIMA VIAGEM
Foram três meses de preparo.

Com pouco dinheiro e desacreditado por governos e grupos científicos, o trio partiu no dia 2 de abril de 1925, acompanhado de 12 animais, entre mulas e cachorros, nove malas, uma bagagem com produtos farmacêuticos, incluindo soros antiofídico do Butantã, armas e munição.

No dia 20 de maio de 1925, Fawcett escrevia avisando que estavam a ponto de entrar em território inexplorado e desconhecido até então.

Fawcett faria sua última viagem.

Seu resgate seria uma obsessão da imprensa mundial e as décadas seguintes viram dezenas de expedições serem montadas na tentativa de encaixar peças soltas deixadas por Fawcett, como a Expedição Dyott, liderada por George Miller Dyott e acompanhada pelo filho mais novo do coronel, Brian Fawcett.

Iniciada em maio de 1928 e concluída em 22 de outubro do mesmo ano, e expedição de três toneladas na bagagem e uma caravana com 26 pessoas não conseguiu obter nenhuma informação concreta sobre o paradeiro dos desaparecidos, exceto entrevistas com pessoas que conheciam detalhes dispersos da última viagem.

SENTA QUE LÁ VEM (MAIS) HISTÓRIA
Em 1924, o empresário Assis Chateaubriand acabava de assumir a direção de O Jornal e queria introduzir o conceito de reportagem, como lembra Fernando Morais, em seu “Chatô: o rei do Brasil”.

Eis que o Coronel Fawcett retorna. Não em carne e osso, mas em forma de reportagem, dando novos ares à imprensa brasileira, ainda segundo Morais.

A série “Haverá uma Atlântida brasileira?”, assinada pelo redator-chefe Azevedo Amaral,  trazia à tona a obstinação de Fawcett.

A aventura voltou a aparecer nos jornais de Chateaubriand, quando esse já era proprietário dos Diários Associados, com os trabalhos do repórter Edmar Morel, quem descobriu a localização dos índios Kalapalo, no Alto Xingu, entre os rios Kuluene e das Mortes.

Naquele trabalho de repercussão internacional, o repórter trazia uma entrevista com Izarari, quem confessara ter matado Fawcett com uma típica arma indígena, conhecida como borduna, semelhante a uma lança.

E as dúvidas (e o interesse pelo assunto) seguiram.

Cachoeira São Francisco, na Serra do Roncador, no Mato Grosso (foto: Eduardo Vessoni)

Nos anos 50, O Cruzeiro, outra publicação do conglomerado de Chatô, voltou ao assunto em uma expedição bancada pelo próprio empresário, quem cedeu seu avião para que Antonio Callado, então jornalista do concorrente Correio da Manhã, viajasse à região do Xingu, em busca da suposta ossada de Fawcett.

Acompanhado de Brian Fawcett, Callado viajou até a região da Serra do Roncador, em 1952, para dar fim ao mistério.

Naquela mesma época, o sertanista Orlando Villas Boas anunciava que os índios Calapo teriam confessado o assassinato do desparecido e davam a localização exata de sua ossada. Mas um dentista que tratara o coronel, no Rio de Janeiro, confirmava que aquela arcada não lhe pertencia.

Orlando e a suposta ossada de Fawcett (foto: Wikimedia Commons)

E mais. A dimensão do esqueleto não correspondia à altura de Fawcett, que tinha 1,86 metro. O Royal Anthropological Institute de Londres concluía também que os ossos eram de um homem de 1,70 metro.

Agora, faz o que com esse monte de osso na sala, Orlando? Por 18 anos, Villas Boas guardou os restos mortais em sua própria casa até ser convencido pela mulher a enviá-los ao Instituto Médico Legal da USP.

Morto ou vivo, Fawcett continuou alimentando teorias, no seu melhor estilo de imaginar histórias.

TERRA OCA
“Capital da diversidade turística”, por sua variedade cênica e opções turísticas, a Serra do Roncador não tem limites na variedade de lendas.

Outra história famosa por ali é a de Udo Oscar Luckner, um sueco que fundou o Monastério Teúrgico do Roncador, grupo que defendia a existência de LETHA, cidade intraterrena dos subterrâneos da Serra do Roncador.

Luckner se inspirava na teoria da Terra Oca, lançada pelo astrônomo britânico Edmund Halley, no século 17, quem acreditava que o interior do planeta é oco e habitado. Dizem até que eram seres de luz com acesso à sua terra, através de fendas rochosas da região.

Ah se o Coronel escuta uma história dessa!!!

Udo, como ficou conhecido, morava na região do Vale dos Sonhos, a 64 km de Barra dos Garças, onde acreditava haver uma passagem subterrânea que o conectava com os Andes, por onde teriam passado incas que fugiam da invasão do Peru pelos conquistadores espanhóis.

Mas nem só com histórias do além se conta a história da região.

O Bico da Serra é um dos pontos da Serra do Roncador que esotéricos acreditam ter passagem para mundos intraterrenos, no Vale dos Sonhos (foto: Eduardo Vessoni)

O Roncador viu passar também a Marcha para o Oeste, projeto audacioso de conquista e povoamento de um Brasil central ainda desconhecido, idealizado pelo então presidente Getúlio Vargas e encabeçado por Orlando, Cláudio e Leonardo Villas Bôas.

De acordo com o antropólogo João Pacheco de Oliveira, que abre o clássico “Marcha para o Oeste: a epopeia da Expedição Roncador-Xingu”, a expedição, que teve início em 1945, foi responsável pela abertura de 1.500 km de picadas e 19 campos de pouso; construção de 42 cidades e vilas; contato com 18 povos indígenas, entre eles os Txucarramãe e os Txicão; e criação, quase 20 anos depois, do Parque Indígena do Xingu.

ELDORADO BRASILEIRO
Muribeca era parente do navegador Diego Alvarez, quem naufragara na costa do Brasil, nos primeiros anos de descoberta, e descobriu minas de ouro, prata e pedras preciosas que dariam origem às “Minas de Muribeca”, no interior da Bahia.

Anos mais tarde, seu filho Robério Dias negociava a localização de tais minas, em troca de um título de marquês. Durante a expedição, o ambicioso Robério descobriu que seria nomeado com um cargo menor, o que o deixaria furioso, tratando de despistar a comitiva com informações equivocadas sobre a mina.

Robério seria detido então por não revelar a localização daquele Eldorado brasileiro.

Nos séculos seguintes, bandeirantes, pesquisadores e historiadores não mediriam esforços para localizar seu endereço, mas o melhor marketing para tudo aquilo viria mesmo da mente fértil de Fawcett, quem passava a ter como principal objetivo de vida encontrar a cobiçada Cidade Abandonada.

Estivesse ela no Mato Grosso, na Bahia ou em qualquer outro endereço inóspito do interior brasileiro, Fawcett foi mesmo um caçador de boas aventuras.

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