[História em Pauta]: o resgate na Antártica que demorou dois anos

Ernest Shackleton (Domínio Público/Flickr)

Resumo para quem tem pressa

Anúncio pouco animador em jornal atrai cinco mil candidatos para uma viagem perigosa, com frio extremo e longos meses de escuridão. Só foram ver terra firme, dois anos depois.

 

Para quem quer saber mais
No mundo das viagens tem louco para tudo (e não é de hoje). No início do século passado, um anúncio no jornal britânico The Times deixava bem claro o que viria pela frente:

“Procuram-se homens para uma viagem perigosa. Salário baixo. Frio extremo. Longos meses de absoluta escuridão. Perigo constante. Retorno com vida não garantido. Honra e reconhecimento em caso de êxito”

Endurance na Antártica (foto: Domínio Público/Flickr)

Mesmo com tantos adjetivos desestimuladores, cinco mil malucos de diferentes classes sociais e formações, de marinheiros a cientistas, se apresentaram para participar daquela que se tornaria a viagem mais perigosa e ousada na Antártica: a Expedição Transantártica Imperial.

Sete meses antes do início à Primeira Guerra Mundial, Ernest Shackleton se preparava para uma aventura no Continente Branco que, anos mais tarde, ficaria conhecida como “a última grande viagem da Era dos Descobrimentos”.

A bordo do Endurance, navio a vapor feito exclusivamente para travessias polares, o irlandês queria cruzar a Antártica a pé. Sim, a pé e sob uma temperatura que chegava fácil aos 25 graus. Negativos.

Pretendia-se, ela primeira vez na história da humanidade, cruzar o continente de ponta a ponta, entre o mar de Weddell e o Polo Sul.

Ernest Shackleton (Domínio Público/Flickr)

A expedição entre a Inglaterra e a Antártica era para quebrar recordes. Shackleton ainda não se conformava de não ter sido o primeiro explorador a chegar ao Polo Sul, título que o norueguês Roald Amundsen conquistara, em 1911.

No entanto, não se esperava que a expedição chegaria ao fim, bem antes daqueles homens alcançarem terras geladas do sul do planeta. Shackleton não imaginava mudanças climatológicas no continente e viu seu barco ser consumido pela movimentação de imensas placas de gelo que impediriam a continuidade da viagem.

E o melhor da história (e o pior da experiência) começa agora.

Durante dois anos, a tripulação de 27 homens, além de Ernest Shackleton, vagou por resgate.

O início
A viagem começou em Londres no 1º de agosto de 1914 e seguiu sem grandes novidades até Buenos Aires, de onde zarpou em 26 de outubro.

O último porto seguro da expedição seria na Geórgia do Sul, ilha britânica ultramarina, entre as Malvinas e Sandwich do Sul, no Oceano Atlântico.

Dali, a viagem foi sendo alterada por imensos blocos compactos de gelo que começaram a reduzir a velocidade do Endurance, que via imensos icebergs de mais de 60 metros de altura, entre luz branca cegadora e horizonte confuso que causava miragens e confundia navegadores experientes.

O tempo foi passando e um mar de blocos de gelo começava a deter o barco.

Endurance na Antártica (foto: Wikimedia Commons)

No dia 20 de janeiro do ano seguinte, e a apenas 160 km da Antártica, o Endurance estava, completamente, impedido de seguir por uma massa de gelo densa que deteve a embarcação.

Segundo relatos do próprio Shackleton em seu diário, as caldeiras ainda permaneceram ligadas por mais sete dias. Para ele, era um luxo desnecessário continuar gastando o combustível e o carvão armazenados.

Durante 48 horas sem descanso, a tripulação trabalhou na retirada do gelo que impedia o barco de seguir viagem. Era como enxugar gelo.

Insistentes, eles não poderiam imaginar que ficariam presos ali por sete meses, até a primavera seguinte.

foto: Creative Commons

No final de fevereiro, a rotina seria abandonada de vez.

A saída foi passar o tempo com umas partidas de futebol, teatro, concertos de gramofone, campeonato de corte de cabelo e corridas de cachorros. E a temperatura, lá fora, caindo.

A “batalha de gigantes”, na definição do líder da expedição, começou quando o inverno chegou: temperaturas a 30 graus negativos, cachorros mortos por parasitas no estômago e dias sem luz natural.

Sobrou até para as focas, que nem sequer chegaram a ver o anúncio no jornal. Com recursos escasseando, foram usadas para garantir combustível e alimentos.

Inferno gelado
O que já estava ruim ficou pior.

Com a pressão das placas de gelo sobre a estrutura da embarcação, a madeira do Endurance começou a ranger, em um som estridente provocado por pedaços do chão se que dobravam para cima, antes de saltarem no ar.

Foto tirada às 23h11, em Porto Lockroy, um dos destinos turísticos da Península Antártica (foto: Eduardo Vessoni)

No congelante e frustrante 27 de outubro de 1915, a 25 graus negativos, Shackleton ordena o abandono total da embarcação agonizante. O afundamento total do Endurance aconteceria no dia 21 de novembro daquele mesmo ano.

O grupo seguiria por terra e em improvisadas embarcações até a área mais próxima, a ilha Paulet. Sobre pedaços flutuantes e instáveis de gelo,  a expedição passaria os dois meses seguintes sobre um banco de gelo mais sólido que ficaria conhecido como Ocean Camp.

E, desde então, a vida daqueles homens viraria um inferno gelado.

Tripulação do Endurance (foto: Viaggio Routard/Flickr-Creative Commons)

Caminhadas com gelo até os joelhos, comidas servidas em pedaços de madeira que serviam de prato, líquidos bebidos em tampas de latas e pele de pinguim e gordura de foca faziam funcionar o fogão adaptado.

Em dezembro de 1915, Shackleton tenta aproximá-los da Ilha Paulet e leva seus homens para o oeste, em uma perigosa caminhada noturna que durou sete dias seguidos e sob temperaturas baixas.

No novo acampamento, batizado de Patience Camp, a equipe ficou três meses e meio. Foi naquele momento que os cachorros começaram a ser sacrificados para compensar a falta de comida.

Aqueles homens viviam de esperanças e, até hoje, são protagonistas de uma das mais impressionantes histórias de sobrevivência. Shackleton não sabia, mas se tornaria um exemplo de líder de sucesso, devido à sua capacidade de comandar, até o fim, uma viagem fracassada.

No arquipélago das ilhas Shetland do Sul, no oceano Antártico, a Ilha Elefante era a esperança seguinte, a 160 km dali e a sete dias de remadas.

Ilha da Decepção, onde teria passado o irlandês Edward Bransfield, considerado o co-autor da descoberta da Antártica. Localizado em Shetland do Sul, ao noroeste da península Antártica, o local é a cratera de um vulcão submerso cujas águas internas costumam estar congeladas. A Ilha da Deceopção é considerada uma oportunidade rara em todo o mundo de navegar no interior de um vulcão ativo (foto: Eduardo Vessoni)

Em abril de 1916, seis homens saem no James Caird, um  bote de sete metros de comprimento que seguiria para pedir socorro na Geórgia do Sul. Pela primeira vez, a expedição se dividia.

A bordo não se via o horizonte por conta de ondas imensas; constantemente molhados, os navegadores não tiveram um minuto sequer de descanso, durante os 17 dias seguintes de navegação; a espuma da água congelava e fazia peso sobre o barco frágil.

Em 10 de maio de 1916, Shackleton e cinco homens finalizavam, na Geórgia do Sul, uma das mais perigosas viagens marítimas da história.

Mas o trabalho não terminava ali.

Ainda foi preciso encarar uma caminhada puxada pelo interior da ilha, pois os conhecidos postos baleeiros se encontravam do outro lado, após um labirinto de caminhos gelados que seriam explorados por humanos pela primeira vez.

O resgate de quatro meses
O grupo chegou ao Porto de Stromness, na Geórgia do Sul, no dia 20 de maio, quase dois anos depois do Endurance deixar a Inglaterra.

Parecia tudo finalizado, mas ainda faltava o resgate dos 22 tripulantes que permaneceram na Ilha Elefante, o que demoraria dez semanas, após três tentativas frustradas de resgate, devido à falta de barcos adequados para enfrentar aquelas águas furiosas.

Resgate na Ilha Elefante (Domínio Público/Flickr)

Sem esperanças de resgate, quem permaneceu na Ilha Elefante improvisou abrigo em botes virados para baixo, até serem resgatados, no dia 30 de agosto de 1916, pelo rebocador chileno Yelcho e o baleeiro britânico Southern Sky.

A tripulação desembarcaria em Punta Arenas, no Chile, no dia 3 de setembro, sem que nenhuma morte fosse registrada.

Curiosamente, Shackleton voltou à Geórgia do Sul, cinco anos depois, onde morreu vítima de um ataque cardíaco. A pedido da esposa, Emily Dorman, o corpo do líder foi enterrado ali mesmo.

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Do outro lado do mundo
Nessa empreitada, o Endurance não estava sozinho.

O Aurora seria o navio de apoio que seguiria pelo lado oposto do continente, no mar de Ross, preparando os depósitos de suprimentos ao longo da rota do grupo transcontinental.

Porém, a embarcação ficou à deriva, entre 12 de março e 7 maio de 1915, após uma tempestade e só chegaria à Nova Zelândia, em abril do ano seguinte. 

Os  números

O Endurance, feito com madeiras de pinho e carvalho, custou £14.000 e o valor foi dividido entre apoiadores de países como Austrália, Nova Zelândia, China e Japão, além do apoio do governo britânico.

⇒ A tripulação contava também com 69 cachorros canadenses para puxar trenós em explorações terrestres, na Antártica. Mais tarde, já no desespero por resgate, os animais serviriam de comida, nos momentos mais críticos.

⇒ No dia da parada total do Endurance, a temperatura do lado de fora era de 28 graus negativos, em pleno verão antártico.

Pinguim-gentoo pode ser visto em Jougla Point, na Península Antártica (foto: Eduardo Vessoni)

⇒ No período mais crítico, cada homem tinha direito a 220 gramas de carne de foca e uma pequena dose de chá, no café da manhã.

⇒ O pequeno grupo que conseguiu chegar à Geórgia do Sul teve que caminhar por 36 horas seguidas até uma estação baleeira.

⇒ Fernão de Magalhães é considerado o primeiro homem a comandar uma expedição no extremo sul do continente, em 1520, e descobre o estreito de acesso à região que ficaria conhecida como Terra do Fogo.

Cruzando o Drake, rumo à Antártica (foto: Eduardo Vessoni)

⇒ Em 1578, Francis Drake vai além e entra no Pacífico, chegando ao Cabo Horn, onde se orgulha de ser, naquele momento, o homem a chegar mais ao sul do planeta. Drake acabara de avistar o imenso mar agitado que forma o corredor oceânico que liga a América do Sul à Antártica, a temida Passagem de Drake.

⇒ O capítulo mais importante sobre viagens pela Antártica foi protagonizado pelo inglês James Cook, quem cruzou o Círculo Polar Antártico, em janeiro de 1773, chegando bem perto do Continente Branco, sem nunca ter desembarcado.

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