[História em Pauta]: caixões imperiais são destaques de Viena, na Áustria

foto: Eduardo Vessoni

Resumo para quem tem pressa

No subterrâneo de uma construção de 1632, dez salões interligados guardam corpos embalsamados de 150 membros da antiga monarquia austríaca e de seus descendentes.

Tudo porque a imperatriz Ana do Tirol queria uma cripta para ser enterrada com seu marido. 

Para quem quer saber mais
Viena é um dos destinos mais cenográficos da Europa, daqueles com construções imponentes, jardins imperiais bem cuidados e cavalos solenes que marcham puxando carruagens com turistas.

Mas sob palácios imperais e patrimônios da humanidade, a capital da Áustria abriga um de seus endereços mais mórbidos: a Cripta Imperial (Kaisergruft, em alemão).

Eduardo Vessoni
Staatsoper, Ópera Nacional de Viena (foto: Eduardo Vessoni)

VEJA TAMBÉM: “Viena à noite é atração única (e iluminada) da Áustria”

No subterrâneo da Igreja dos Capuchinos, uma construção de 1632, dez salões interligados guardam corpos embalsamados de 150 membros da antiga monarquia austríaca e de seus descendentes.

Seria mais um memorial de figuras históricas não fosse a exposição de caixões imponentes com restos mortais de imperadores, princesas e arquiduques dos Habsburgo, dinastia austríaca que esteve no comando na Europa Central, por mais de 600 anos.

Vista do caixão de Karl VI, na Cripta Imperial, em Viena (foto: Eduardo Vessoni)

A ala mais antiga do local é a Gründergruft e abriga os sarcófagos do Imperador Matias I (1557-1619) e a Imperatriz Ana do Tirol (1585-1618).

Mas a mais imponente das salas é a Kaisergruft, onde estão caixões de detalhes rococó, tampas decoradas com coroas reais, cabeças de anjos, espadas medievais e caveiras desdentadas que sorriem para os visitantes.

Entre as figuras em exposição, estão Maria Josepha (1687-1703), filha do Imperador romano Leopoldo I e cujos órgãos também foram distribuídos entre a Cripta Imperial, a Augustinerkirche e a Domkirche St. Stephan.

A visita segue pelo caixão de Eleonora Maria (1653-1697), rainha da Polônia e filha do imperador que decretara o uso do local com fins funerários, e os restos mortais de sua mãe, a imperatriz Eleonora de Mantua e terceira esposa de Ferdinand III.

LEIA TAMBÉM: “10 atrações diferentonas na Europa”

Caixão da imperatriz Eleonora de Mantua, na Cripta Imperial de Viena (foto: Eduardo Vessoni)

A sala mais concorrida é a que guarda os corpos de Francisco José I (1830-1916), o último imperador a ser enterrado no local em um caixão discreto de madeira escura, e o de sua esposa Elisabeth da Baviera (1837-1898), a bela e deprimida Sissi.

Balthasar Ferdinand Moll, um dos escultores mais importantes da era barroca de Viena, é o autor da maioria das peças expostas, cuja riqueza de detalhes faz o visitante esquecer que está entre caixões e restos mortais.

Esse austríaco de Innsbruck foi responsável pela construção de cerca de 20 tumbas que se encontram na cripta como o caixão da imperatriz Isabel Cristina de Brunswick (1691-1750), considerado o trabalho fúnebre mais antigo entre os construídos por ele.

Detalhe do caixão da imperatriz Isabel Cristina de Brunswick, considerado o trabalho fúnebre mais antigo de Balthasar Ferdinand Moll (foto: Eduardo Vessoni)

Algumas tumbas demoravam tanto que dava para morrer e nascer de novo, antes de ficarem prontas. A obra mais impressionante fica na sala Maria-Theresian-Gruft, uma tumba que levoU 20 anos para ser concluída.

O sarcófago duplo que guarda os corpos de Maria Teresa (1717-1780) e seu esposo, o imperador Francisco I Estevão de Lorena (1708-1765), tem tampa com duas esculturas que se entreolham e paredes externas decoradas com cenas da vida do casal, como os títulos conquistados no Sacro Império Romano, Hungria e no reino da Boêmia.

Sarcófago duplo com os corpos de Maria Teresa e seu esposo, o imperador Francisco I Estevão de Lorena (foto: Eduardo Vessoni)

Desejo fúnebre
Mas de quem foi essa ideia de fazer da morte acervo de exposição?

Tudo começou nos primeiros anos do século 17, quando a imperatriz Ana do Tirol expressou seu desejo de construir uma cripta para ser enterrada com seu marido, o imperador Matias I.

O local só ficaria pronto em 1632, quinze anos depois da morte da imperatriz, sofrendo alterações ao longo dos séculos seguintes em diferentes reinados.

LEIA TAMBÉM: “Festival de luzes é destaque de Chartres, na França”

Detalhe do caixão da imperatriz Sissi, na Cripta Imperial de Viena (foto: Eduardo Vessoni)

Cada cabeça, uma sentença
Dizem que os vienenses têm uma relação especial com a morte.

Visitar o passado imperial (e mórbido) de Viena é percorrer um quebra-cabeças, em que parte dos restos mortais dos monarcas da Kaisergruft estão em endereços diferentes da cidade.

Entre 1654 e 1878, o coração de cada um dos falecidos era conservado em urnas de prata guardadas na Cripta dos Corações da Capela de Loreto, na Augustinerkirche, que abriga 54 órgãos humanos daquelas famílias nobres.

Em urnas de cobre, os intestinos estão nas catacumbas da Catedral de São Estevão (Domkirche St. Stephan), uma das mais antigas catedrais góticas da Europa.

O que sobrava era, por fim, mantido na Cripta Imperial.

 

Os Habsburgo
Essa dinastia teve origem na Suíça, no atual cantão de Argóvia, com a ocupação do trono Sacro Império Romano-Germânico por Rodolfo IV de Habsburgo, conhecido também como Rodolfo I.

O reinado duraria mais de seis séculos até o seu fim, em 1918, alcançando inclusive territórios ultramarinos como a ramificação ocorrida no Brasil com a união entre Dom Pedro I e a Arquiduquesa da Áustria, a Imperatriz Leopoldina, cujo casamento ocorreu em 1817, em Viena.

O alcance dos Habsburgo ia desde terras em Gibraltar, no extremo sul da Península Ibérica, até a Hungria, passando pela Sicília, Boêmia e Amsterdã.

Palácio de Hofburg, antiga residência oficial dos Habsburgo, em Viena (foto: Eduardo Vessoni)

Os Habsburgo queriam dominar a Europa. E conseguiram.

Em 1600, por exemplo, quase 25% da população do Velho Continente vivia sob as ordens dos Habsburgo, perdendo força com a invasão de Napoleão, em Viena, e a perda de territórios na Europa Central, extinguindo-se então o Sacro Império Romano-Germânico.

A dinastia esteve no comando austríaco até o fim da Primeira Guerra Mundial quando, em novembro de 1918, o imperador austríaco Carlos 1º renunciou, dias antes da assinatura do acordo de cessar-fogo que dava fim ao Império Austro-Húngaro.

O último Habsburgo se exilaria na Ilha da Madeira, ilha portuguesa no Atlântico.

HISTÓRIA EM PAUTA
O resgate na Antártica que demorou dois anos
Indiana Jones do Brasil, na Serra do Roncador
Epecuén, a vila fantasma com apenas um morador, na Província de Buenos Aires

SAIBA MAIS
Cripta Imperial (Kaisergruft)
entrada: 7,50€ e 10,50€ (com visita guiada)
www.kaisergruft.at

Michaelergruft
Aberta no século 16, a Cripta da igreja St. Michael guarda os restos mortais de pessoas da classe média da época. Com 210 caixões em 19 criptas, alguns deles abertos com múmias expostas, o mais antigo data de 1589.

Trata-se de um impressionante registro histórico do ritual funerário da Áustria, com à mostra, em perfeito estado de conservação e alguns até com as joias e roupas utilizadas no dia do velório.

Os tours guiados acontecem de seg. a sáb. às 11h e às 13h, e o ponto de encontro é na porta da igreja.
entrada: 7€
www.michaelerkirche.at

Museu do Funeral
O Bestattungs Museum abriga mais de 250 objetos originais, como fotos, uma carruagem para transporte de corpos e até o convite para o funeral de Ludwig van Beethoven.

O museu fica no Cemitério Central de Viena
De seg. a sex., das 9h às 16h30; sáb. das 10h às 17h30.
www.bestattungsmuseum.at

VEJA TAMBÉM

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*