[História em Pauta]: Era uma vez os contos de fadas que fizeram história

foto: Wikimedia Commons

Resumo para quem tem pressa

Dois irmãos saem pela Alemanha coletando histórias fantásticas e criam algumas das histórias mais fascinantes que a sua mãe contava para você na infância.

Para quem quer saber mais
O fim da história você já sabe. Donzela que foge em tranças, mocinha que dorme um sono profundo e bichos que dão lição de moral.

Mas de onde vêm os contos de fadas mais famosos da literatura mundial?

Mais do que imaginar enredos para histórias fantásticas, os Irmãos Grimm se inspiraram em relatos orais, coletados em destinos serranos da Alemanha, como o estado de Hesse, para dar vida a histórias como as da Rapunzel, Bela Adormecida e Chapeuzinho Vermelho.

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foto: Divulgação

Há mais de duzentos anos, Jacob e Wilhelm Grimm publicavam os ‘Contos maravilhosos infantis e domésticos’ que, de infantil e doméstico, tinham muito pouco. Dá só uma lida no original de Chapeuzinho Vermelho e da Rapunzel para descobrir que a história não tinha nada de infantil.

Mais do que fábulas, eram histórias que fundiam fantasia e fatos cotidianos, carregadas de informações históricas sobre a rotina e os valores morais do século 19, com assuntos como as relações entre homens e mulheres ou servos e senhores, vida e morte riqueza e pobreza, o bem e o mal.

‘Contos maravilhosos infantis e domésticos’, original exposto em Kassel (foto: Eduardo Vessoni)

Lançada em 1812, a obra em dois volumes tinha como referência a literatura francesa de Charles Perrault e os contos do poeta italiano Giambattista Basile, modelos literários presentes, aproximadamente, em 60 contos escritos pelos Grimm.

E não foi só isso.

A obra é declarada ‘Memória do Mundo’ pela UNESCO, desde 2005, já foi traduzida para mais de 160 línguas e é a literatura alemã mais conhecida do mundo.

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Pela estrada afora
As florestas europeias foram uma das principais inspirações para os Grimm. Sua localização afastada e a superstição dos moradores de áreas rurais foram suficientes para que Jacob e Wilhelm recriassem acontecimentos como encontros com lobos, bruxas em casas de doces e mocinhas envenenadas.

Para ver como todo esse cenário inspirou tanta história, a Alemanha conta com a Rota Alemã dos Contos de Fadas.

João e Maria, no Museu dos Irmãos Grimm, em Steinau, na Alemanha (foto: Eduardo Vessoni)

Esse roteiro tem 600 km de extensão e vai de Hanau, próximo a Frankfurt, a Bremen, no Mar do Norte, passando por mais de 60 cidades relacionadas com a vida e a obra dos Grimm.

O roteiro começa em Hanau, onde Jacob e Wilhelm  nasceram, em 1785 e 1786, respectivamente, e ficaram com a família  até 1791, quando o patriarca Philipp retorna a sua cidade natal, Steinau, para assumir o posto de juiz distrital

Declarado ‘Cidade dos Irmãos Grimm’, em 2006, o destino foi bombardeado em 1945, tendo 85% da cidade destruída. Por isso, sobrou pouco da época dos Grimm.

Atualmente, a cidade abriga uma estátua em bronze, de 1896, que homenageia seus filhos famosos, na Neustädt Marketplace, além de uma placa indicativa do terreno onde esteve a casa  dos Grimm, na Paradeplatz.

Vista do monumento nacional dedicado aos Irmãos Grimm, em Hanau, declarada ‘Cidade dos Irmãos Grimm’ e cidade natal desses irmãos (foto: Eduardo Vessoni)

A cerca de 60 km dali fica Steinau, onde Jacob e Wilhelm passaram a infância, em um sobrado em estilo enxaimel que hoje abriga o Museu dos Irmãos Grimm. Localizado na Brüder-Grimm-Straße, a rua principal da cidade, o museu  fica na Amtshaus, casa de 1512 que serviu de residência, durante a breve estadia da família Grimm.

O acervo abriga mais de 200 manuscritos, paredes forradas com exemplares das obras dos Grimm traduzidas em 140 idiomas e originais e versões internacionais de suas histórias.

Museu dos Irmãos Grimm, em Steinau, na Alemanha (foto: Eduardo Vessoni)

Mas é em Marburg que as histórias começam a tomar corpo.

Foi ali que foram encorajados pelo professor Friedrich Carl von Savigny a colecionar os primeiros relatos que, mais tarde, se transformariam nos famosos contos de fadas, como as a histórias de Cinderela e do Pássaro de Ouro.

Foi também nessa cidade em que seus textos passam a ser ilustrados por 450 trabalhos do artista Otto Ubbelohde, entre 1906 e 1908.

Em Marburg, não só estudaram, entre 1802 e 1805, como também fizeram estudos aprofundados de temas como filologia, história, linguística, literatura e religião.

Achou pouco, né? Ali, se dedicaram também a estudos de línguas (alemão, espanhol, francês, grego clássico, inglês, latim, provençal, russo e sueco).

Vista da janela do apartamento onde moraram os Irmãos Grimm, em Marburg, na Alemanha (foto: Eduardo Vessoni)

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A rota segue até Kassel, destino que os abrigou por mais de trinta anos, considerado o período mais fértil das carreiras literária e acadêmica dos dois irmãos, como a criação da Gramática Alemã.

É ali que fica o Brüder Grimm Museum, no Palace Bellevue, onde estão os manuscritos originais, com anotações e tudo, em pleno centro de Kassel. Localizado a pouco menos de 150 km de Frankfurt, o local abriga a maior coleção de obras dos Grimm, em toda a Alemanha.

Enquanto trabalhavam em uma biblioteca de Kassel (Wilhelm como secretário, de 1814 a 1829, e Jacob como bibliotecário, entre 1816 e 1829) surgia, em 1819, o primeiro volume da obra.

Enquanto estiveram exilados em Kassel, devido a um protesto que encabeçaram contra a violação da Constituição conduzida pelo rei de Hannover, Ernst August I, Jacob e Wilhelm foram convidados pelo novo rei da Prússia, Frederico Guilherme IV,  para irem a Berlim e escreverem um dicionário diacrônico de alemão.

Grande Dicionário Alemão, em exposição em Kassel (foto: Eduardo Vessoni)

Não chegaram a ver a obra pronta, mas foram os criadores do Grande Dicionário Alemão (Deutsches Wörterbuch, no original), um trabalho em 32 volumes sobre a história da língua alemã com 350 mil verbetes e mais de 25 mil fontes documentam a história da língua alemã entre os séculos 8 e 20.

A obra não concluída foi finalizada, em 1960, por 120 estudiosos da língua alemã.

Mas as histórias alemãs mais famosas, em todo o mundo, ainda são as de mocinhas que dormem um sono profundo e dos sapos que viram príncipes, entre tantas outras.

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A VERDADEIRA HISTÓRIA
Branca de Neve

Branca de Neve e os Sete Anões, no Museu dos Irmãos Grimm, em Steinau, na Alemanha (foto: Eduardo Vessoni)

Originalmente, se chamava Snäfridr, uma mulher do período medieval que teria adormecido por três anos, depois de ter ingerido uma mandrágora, fruto com propriedades alucinógenas, narcóticas e soníferas.

A Bela Adormecida
Ainda segundo os próprios Grimm, a jovem que adormece até ser despertada pelo beijo de um príncipe era Brunhilde, uma divindade dos países nórdicos, condenada a viver adormecida em um castelo até que algum herói fosse lhe salvar.

Chapeuzinho Vermelho

Chapeuzinho Vermelho no Museu dos Irmãos Grimm, em Steinau, na Alemanha (foto: Eduardo Vessoni)

Para psicanalistas, a história do lobo que come a vovozinha da menina de capuz vermelho nada mais era do que a materialização dos desejos sexuais do homem (dono da força e da razão) e os cuidados que uma jovem mulher da época (frágil e emocional).

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