[História em Pauta]: Fernando de Noronha, a Ilha Maldita

Resumo para quem tem pressa

Anter de ser o destino de praias paradisíacas das celebridades e dos turistas de orçamento folgado, Fernando de Noronha recebeu títulos como os de Ilha Maldita e Ilha Fora do Mundo.

Calma lá, ó furioso leitor. Noronha continua linda e um dos nossos destinos nacionais preferidos, mas sua história nem sempre foi apenas a do marzão azulado dos mergulhos e das praias de águas cristalinas.

Descoberta por europeus no dia 10 de agosto de 1503, a ilha abrigou presídios em diferentes momentos de sua história e foi uma espécie de depósito humano, a fim de ocupar aquele território estratégico, localizado entre a Europa e o Novo Mundo, a 545 km do Recife.

Final de tarde sobre o Morro do Pico (foto: Eduardo Vessoni)

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Atualmente, o destino paralisa quem chega nesse que é um dos mais exclusivos destino do Brasil, mas em décadas passadas era uma barreira natural intransponível que funcionou, a partir de 1737, como isolamento de exilados políticos ou presos comuns como ciganos brasileiros, combatentes da Revolução Farroupilha, presos da Revolução Praieira, capoeiristas brasileiros, além de condenados a longas penas como assassinos, ladrões e contrabandistas.

A Ilha Fora do Mundo, como ficou conhecida entre os detentos, nos séculos 19 e 20, abrigou penitenciárias com celas estreitas sem proteção contra o clima extremo da ilha, onde homens eram presos a bolas de ferro ou torturados, psicologicamente, na vizinha Ilha Rata, que funcionava como uma espécie de solitária a céu aberto.

Até devastamentos de áreas verdes foram feitos, a fim de evitar fugas em jangadas construídas com troncos de árvores de mulungu.

Sem saber, aqueles homens escreviam a história de uma ilha descoberta, dois séculos antes, e abandonada pelos próprios descobridores.

Cacimba do Padre, uma das praias do Ilha Tour, em Fernando de Noronha (foto: Eduardo Vessoni)

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O início
Ao longo se sua história, Fernando de Noronha recebeu espanhóis, portugueses, holandeses, franceses, ingleses e italianos.

A última medida a ser tomada, antes do desinteresse dos portugueses naquelas terras, foi em 1504, quando aquelas terras de origem vulcânica seriam doadas pelo rei de Portugal, D. Manuel I, como Capitania Hereditária ao fidalgo Fernão de Loronha, quem financiara a viagem ao Novo Mundo.

Por isso, Fernando de Noronha é a primeira Capitania Hereditária do Brasil, embora nunca tenha sido ocupada pelo donatário.

Aquele descuido seria suficiente para atrair a atenção de outros europeus.

Trilha do Piquinho, em Fernando de Noronha (foto: Eduardo Vessoni)

Primeiro foram os holandeses que, sob o comando de Cornelis Corneliszoon Jol, mais conhecido como o pirata Perna de Pau, ocupariam a região e a chamariam de Pavônia.

Estiveram ali, entre 1629 e 1654, durante a ocupação do Nordeste brasileiro.  Em 1631, inclusive, Michel de Pavw (daí a origem do novo nome “Pavônia”) arrendaria a ilha até a rendição dos holandeses em Pernambuco, em 1654.

Em 25 anos de ocupação, os holandeses se dedicariam à criação de animais domésticos como gado e aves, e à agricultura com plantações de fumo, algodão, milho, feijão e, mais tarde, anil.

Logo vieram os franceses, aproximando-se da região entre os séculos 16 e 17, responsáveis por outro nome para a ilha: Isle Delphine, alcunha dada pelos franceses da Companhia das Índias Orientais, em 1734.

No século 20, voltariam a ocupar o destino, mas agora como prestadores de serviços de telegrafia (1914) e da aviação (1927).

A partir de 1922, chegam os italianos com a instalação da empresa Italcable e seus sistema de telecomunicação interoceânica.

Terra de ninguém
Desde sempre, Noronha parecia terra de ninguém, servindo apenas como território para breves ocupações e abordagens descompromissadas.

Portugal só voltaria a se interessar por Fernando de Noronha, em 1737, quase quatro décadas depois que a posse do arquipélago tivesse sido transferida para o estado de Pernambuco.

Com o objetivo de ocupar, definitivamente, as antigas terras lusas, a ilha se transformou em presídio comum para condenados a longas penas.

Ruínas da Aldeia dos Sentenciados, na Vila dos Remédios, em Fernando de Noronha (foto: Eduardo Vessoni)

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A Colônia Correcional de Fernando de Noronha foi erguida com mão de obra penitenciária, boa parte do patrimônio edificado que pode ser visto em locais como a Vila dos Remédios começou a ser construído naquela época como a Igreja de Nossa Senhora dos Remédios (1737) e o complexo sistema defensivo com dez fortificações, conhecido como “o maior sistema fortificado do século 18 no Brasil”, entre eles a Fortaleza de Nossa Senhora dos Remédios, cujas ruínas ainda podem ser vistas no alto de uma colina, próximo ao centro histórico da Vila dos Remédios.

Era tanto isolamento que os habitantes de Fernando de Noronha não ficaram sabendo da independência do Brasil, em 1822, e seguiram hasteando a bandeira portuguesa, na Fortaleza dos Remédios, por mais dois anos.

Entre os presos, estiveram Gregório Bezerra, líder do levante militar conhecido como Intentona Comunista que tentou o golpe contra o governo de Getúlio Vargas, em 1935.

O presídio comum funcionaria até 1938, quando a ilha foi entregue à União para a criação de um presídio político: o Presídio Político Federal.

Requisitada pelo então presidente Getúlio Vargas, naquele ano, Fernando de Noronha passaria a abrigar, seiscentos homens considerados subversivos como o guerrilheiro e poeta Carlos Marighella. Em 1942, os presos seriam transferidos para a penitenciária de Ilha Grande, em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro.

Destino militar
Em 1942, o arquipélago é declarado Território Federal de Fernando de Noronha, sob a administração do Ministério do Exército, passando de mãos em mãos ministeriais (Ministério da Aeronáutica, de 1981-1986; Estado-Maior das Forças Armadas, 1987; e Ministério do Interior, 1988).

Vista do alto do Forte de Nossa Senhora dos Remédios, ao norte da ilha, cujas ruínas já serviram como presídio e, durante a Segunda Guerra, como abrigo para soldados americanos (foto: Eduardo Vessoni)

No início dos anos 40, durante a Segunda Guerra Mundial, Noronha poderia ser alvo fácil, durante um possível ataque inimigo, devido à sua posição estratégica. Por esse motivo, tornava-se “base avançada de guerra, onde mais de três mil homens do Destacamento Misto moraram, ao lado de uma companhia americana, instalada para construir o novo aeroporto”, segundo artigo de Elizabeth Dobbin divulgado pela Fundação Joaquim Nabuco.

Fernando de Noronha seria território militar até 1988.

Com o Golpe Militar de 1964 que derrubou o então presidente João Goulart, o arquipélago se transforma no Presídio Político Especial, entre 1964 e 1967.

Foram recebidos 34 prisioneiros como o então governador de Pernambuco, Miguel Arraes, que ficou detido na ilha por 11 meses, antes de seguir para seu exílio, na Argélia.

Curiosamente, quando a ilha foi reintegrada a Pernambuco com a promulgação da Constituição de 1988 que extinguia o Território Federal de Fernando de Noronha, Miguel Arraes era, novamente, o governador daquele estado nordestino, tomando a posse de Noronha no mesmo local onde estivera encarcerado.

Hoje em dia, Fernando de Noronha é um Distrito Estadual de Pernambuco e é dirigido por um administrador geral, nomeado pelo Governador do Estado.

Em 1988, o Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha é criado e, três anos mais tarde, a UNESCO reconhece o arquipélago, assim como o Atol das Rocas, como Patrimônio Mundial.

Quem já passou por lá
Estrategicamente situada entre a Europa e o Novo Mundo, o arquipélago viu a chegada dos primeiros europeus em 1500, quando o cartógrafo espanhol Juan de La Cosa fez o primeiro registro em uma carta náutica. Dois anos mais tarde, o português Alberto Cantino dava o primeiro nome da ilha: Quaresma.

Em 1503, seis caravelas que realizavam expedição exploratória na costa brasileira, sob o comando de Gonçalo Coelho, trazia na tripulação o italiano Américo Vespúcio, marcando não só a descoberta da ilha, mas o novo nome da ilha, São Lourenço, em referência ao 10 de agosto em que aqueles navios aportaram na ilha.

“O paraíso é aqui”, teria descrito Vespúcio em sua famosa Lettera, mas seriam necessários duzentos anos mais para que Portugal voltasse a se interessar por aquele território.

Praias do Meio e da Conceição, vistas do Forte da Vila dos Remédios e com o Morro do Pico, ao fundo (foto: Eduardo Vessoni)

Nomes ilustres também passariam por ali, entre eles Jean-Baptiste Debret, pintor francês que, a bordo de uma missão francesa, em 1816, se inspirou naquele cenário para pintar o clássico morro do Pico.

O pai da Teoria da Evolução não poderia ter deixado de fora esse arquipélago isolado, em pleno oceano. Em 1832, Charles Darwin chegou à ilha a bordo do veleiro HMS Beagle. Em seu diário “Viagem de um Naturalista ao Redor do Mundo”, Charles Darwin descreve uma Fernando de Noronha com dados precisos que se assemelhariam aos estudos feitos, posteriormente, sobre a região. 

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