Tiradentes (MG): comer, beber e andar

Tiradentes já teve pressa.

Aos pés da Serra de São José, aquelas terras eram garantia de enriquecimento rápido com a descoberta do ouro, no final do século 17, e esperança de dias melhores para um Império endividado que via a lucrativa cana-de-açúcar brasileira perder espaço para as Antilhas.

Mas, hoje, esse município do sudeste de Minas Gerais, a 190 quilômetros de Belo Horizonte, é lugar de contemplação. Seja no centro histórico das ruas de pedras ou nas áreas rurais com vista para o paredão rochoso que abraça a cidade, Tiradentes é para ser degustada aos poucos.

foto: Alberto Lopes/Tiradentes Mais

A região é uma sequência de casas coloridas em ruas estreitas que ainda veem charretes riscarem o calçamento pé de moleque da rua Direita, a via principal que ocultou seus cabos de eletricidade e se iluminou com lampiões.

Diferente de outros destinos históricos mineiros, Tiradentes é plana e tudo por ali ainda parece da época em que ouro e diamante seguiam pela Estrada Real até Paraty, no litoral sul do Rio de Janeiro.

A gente só perde o ar mesmo quando sobe a Rua da Câmara. Não apenas pela ladeira íngreme que termina em uma colina, mas também pela Matriz de Santo Antônio, igreja do início do século 18, considerada um dos mais importantes exemplares da arquitetura barroca de Minas Gerais.

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HISTÓRIA

Matriz de Santo Antônio

foto: Alberto Lopes/Tiradentes Mais

Sobre uma colina na Rua da Câmara, essa igreja do início do século 18 é considerada um dos mais importantes exemplares da arquitetura barroca de Minas Gerais.

A fachada rococó, assinada pelo escultor Aleijadinho, abriga interior com altares de madeira, paredes de cedro rosa sob folhas de ouro e colunas de jacarandá.

Às sextas-feiras, é possível ouvir os concertos com o órgão português de 1788.

Museu de Sant’Ana

foto: Eduardo Vessoni

Em frente ao largo do Rosário, no interior da antiga cadeia pública de Tiradentes, tem acervo com cerca de 300 imagens dedicadas a Sant’Ana, mãe de Nossa Senhora.

Adquiridas ao longo de quatro décadas, as peças são expostas em celas desativadas dessa construção de 1730, aproximadamente, criando um espaço multimídia emocionante que une religião e história de forma equilibrada, sem o fanatismo ou o excesso de detalhes históricos dos espaços expositivos do gênero. SAIBA MAIS

Museu da Liturgia

foto: Reprodução

Outro endereço que impressiona em Tiradentes é esse espaço com mais de 400 peças sacras, como a de São Jorge, esculpido em madeira pelo artista Antônio da Costa Santeiro, no século 18.

O museu se localiza na rua Jogo de Bola, uma das mais antigas de Tiradentes, cujo nome é uma referência à competição de bolas eram jogadas para derrubar estacas que acontecia no local, no século 18.

O espaço funciona de 5ª a 2ª, das 10h às 17h

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Comer, comer e comer
Em Tiradentes, come-se bem. E não é pouco.

Se em épocas de corrida por riqueza, “morria-se de fome com as mãos cheias de ouro”, por conta da falta de interesse pelo plantio, entre o final do século 17 e início do 18, atualmente, a cidade é um dos principais polos gastronômicos do país.

“É terra de gente que gosta de receber forasteiros”, explica Gabriela Barbosa, uma das fundadoras do coletivo de empresários e artistas Tiradentes Mais.

Matriz de Santo Antônio, vista do Alto São Francisco (foto: Eduardo Vessoni)

São cerca de 80 restaurantes em toda a cidade, dos quais três dos cinco melhores estabelecimentos de comida mineira se localizam na cidade, segundo o Guia 4 Rodas.

No centro, a fartura acontece no Estalagem do Sabor, restaurante em funcionamento, há 33 anos, conhecido pelos pratos com produtos da horta orgânica e a charcutaria artesanal que aparece em clássicos como o prato Mané sem jaleco, um mexidão com arroz branco, feijão roxinho, bacon, ovos, cebola, couve, banana e lombinho.

À noite, a cenografia caprichada da rua Direita ganha novos ares com a variada carta de vinhos do Pacco e Bacco. Instalado em um casarão colonial, esse wine bar não só é uma homenagem ao mundo do vinho, com rótulos internacionais da França, Chile, Argentina e até do Peru mas também um tributo ao vinho mineiro, como a inesperada e surpreendente produção de Luís Porto, uma bebida amadeirada do sul de Minas e com marcantes notas de seixos.

Pacco e Bacco, restaurante e wine bar no centro histórico de Tiradentes (foto: Divulgação)

Fora do circuito turístico, no bairro Parque das Abelhas, o Empório Santo Antônio é comandado pela divertida Soraia e seu marido, o chef Alexandre, responsável por pratos como a tenra bochecha de porco e a costela no bafo com arroz, feijão tropeiro, couve e linguiça de lombo.

A comida rural é destaque também do Pau de Angu, localizado em uma fazenda que “leva a roça para a cidade”, segundo a proprietária Leonidia. É da sua cozinha que saem pratos como a linguiça artesanal feita com pernil picado e o mineirinho com costela, lombo, pernil, tutu, feijão tropeiro, batata corada (cozida e frita) e, ufa!, couve.

Em ambos restaurantes, a comida farta sempre vem acompanhada de um dedinho de prosa com as proprietárias, nas mesas dos clientes. Mas como a gente não veio aqui só para conversar, o banquete segue agora com outro clássico mineiro: a cachaça.

Harmonização de queijos com cachaça, na Q’jaria Ouro Canastra (foto: Eduardo Vessoni)

Na Ouro Canastra (Rua Direita, 205; tel.: (32) 8703-9421), queijaria do centro histórico de Tiradentes, o périplo gastronômico segue com queijos mineiros e paulistas, harmonizados com espumantes e cachaça, em um ambiente bem decorado que a proprietária Aline costuma chamar de boteco. O carro-chefe da experiência é o tradicional queijo canastra, mas a degustação segue, de acordo com a temporada, com versões como o de cabra do terroir Faixa de Carvão; o rústico queijo do Serro, uma das regiões queijeiras mais antigas de Minas Gerais; e o premiado queijo de Alagoa, no sul do estado.

Para fechar o roteiro, o jardim do Marcas Mineiras, ao lado do Largo das Forras, é um convite para provar o café na xícara com borda (generosa) de doce de leite, um clássico desse coletivo que reúne sete marcas de Minas Gerais que promovem a cultura regional como mercearia, cristais, cerâmica e boutique de aromas.

Tudo no ritmo desacelerado que Tiradentes aprendeu na hora de receber quem vem de fora.

Pela estrada afora
Tiradentes é um dos destinos da Estrada Real, a via oficial utilizada pela Coroa Portuguesa para transporte das riquezas encontradas naquela espécie de Eldorado das serras mineiras.

Com mais de 1.600 quilômetros de extensão, dos quais 710 km fazem parte do Caminho Velho que passa por Tiradentes, São João del-Rei e Caxambu, a estrada é a maior rota turística do Brasil.

Trilha de bike na Estrada Parque Passo dos Fundadores, entre Tiradentes e Prados (foto: Eduardo Vessoni)

Se no fim do século 17, o topo da Serra de São José era ponto estratégico para a busca por índios e ouro, no nível do chão o visitante tem aquela muralha rochosa de 12 km de extensão como cenário natural para a prática de atividades ao ar livre. Afinal de contas, nem só com igrejas e museus sacros se faz turismo por ali.

Com roteiros de bike de até 90 km pela Estrada Real, entre Tiradentes e as cachoeiras de Carrancas, o destino tem opções mais leves para ciclistas pouco experientes como a Caixa d’Água, uma trilha plana de 9 km pelo antigo leito ferroviário da Estrada da Caixa d’Água e cruza comunidades rurais, passando por pequenos comércios como quitandas e produtores de queijo, doces e cachaça.

Trilha da Caixa d’Água, na área rural de Tiradentes (foto: Eduardo Vessoni)

E quando aquele estradão de terra batida parece não ter mais fim, uma parada na fazenda e restaurante Sabor Rural renova as energias com a limonada servida na chaleira, acompanhada de uma breve visita às instalações da propriedade.

Por antigos caminhos de boi que deram passagem para as pedras da Serra de São José que calçaram Tiradentes, o viajante aventureiro conta com outra opção para conhecer a cidade do lado de fora.

Com 10 km de extensão, entre Tiradentes e a vizinha Prados, a Estrada Parque Passo dos Fundadores serpenteia o setor alto da serra e revela trechos de Mata Atlântica que circundam distritos como Bichinho, em atividades como trilhas, mountain bike e até passeios em carros 4×4 com paradas para visitar o Refúgio de Vida Silvestre Libélulas da Serra de São José, uma área de quase 4 mil hectares, dedicados à biodiversidade local, como as libélulas.

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DICA VIAGEM EM PAUTA
De volta à área urbana de Tiradentes, o gramado do Alto São Francisco, sob a capela São Francisco de Paula, é um dos melhores pontos para ver o pôr do sol.

Final de tarde, visto do Alto São Francisco (foto: Eduardo Vessoni)

Chegue antes do final de tarde e acompanhe a luz pintar o casario histórico lá embaixo, aos pés da serra.

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SAIBA MAIS
Tiradentes Mais
tiradentesmais.com.br

Uai Trip
Essa agência de Tiradentes é especializada em turismo de experiências, como trilhas (R$ 95) e roteiros de bike com vivências rurais (a partir de R$ 50). www.uaitrip.com.br

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