1ª volta ao mundo completa 500 anos

Nau Victoria em desenho feito pelo cartógrafo Abraham Ortelius (imagem: Domínio Público)

A fixação em encontrar alternativas para chegar às cobiçadas especiarias do Oriente não só redefiniria os mapas do planeta como também seria a primeira volta ao redor do mundo.

Durante os três anos de viagem, a tripulação se assombraria com a fartura de comidas no Brasil, faria contatos com gigantes da Patagônia, seria os primeiros a cruzar o oceano Pacífico, conquistaria novos territórios para a Coroa espanhola e conheceria o “maior e mais perigoso cabo conhecido da terra”.

Há exatos 500 anos, no dia 10 de agosto de 1519, o explorador Fernão de Magalhães deixava a Espanha, rumo a um mundo desconhecido.

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E a gente só saberia de tudo isso em detalhes porque o jovem Antonio Pigafetta era um dos mais de 230 homens embarcados nas cinco naus que fariam a primeira circum-navegação no planeta e confirmaria que a Terra, sim, é redonda.

No delicioso  “A 1ª viagem ao redor do mundo – o diário da expedição de Fernão de Magalhães” (editora L&PM), Pigafetta escreve o que poderíamos chamar de um autêntico guia turístico da Idade Moderna, com informações como distâncias entre portos e horários mais adequados de navegação para evitarem arrecifes e ilhotas, descrições de atrativos arquitetônicos como o castelo de Sanlúcar, cidade espanhola de onde partiram, e até a melhor época para navegar o Rio Quadalquivir (na época, Betis).

“Era uma busca pelas nossas origens, inspirada no aventuresco daquelas viagens”, explica Ivan Pinheiro Machado, um dos fundadores da editora, sobre a coleção de textos históricos criada com o jornalista Eduardo Bueno.

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Ao final da empreitada, apenas 18 homens retornaram com vida. Nem o pai da ideia, o português Fernão de Magalhães, conseguiria completar a viagem. Morto em terra, durante o processo de colonização das atuais Filipinas, Magalhães foi capturado em uma emboscada de um chefe de Mactán, uma das ilhas da região. Cilapulalu teria entrado em confronto com aqueles europeus pois se recusava a se curvar diante da autoridade do rei da Espanha.

 VOCÊ SABIA?

Três ícones naturais da América do Sul receberam seus nomes atuais, após a passagem da expedição liderada por Fernão de Magalhães.

A tripulação não acreditava haver passagem para o oeste, mas um bem informado Magalhães havia visto nos mapas do cartógrafo Martín de Bohemia que “era preciso passar por um estreito muito escondido”. Em poucos dias, Magalhães e seus homens se tornariam os primeiros europeus a atravessarem o Estreito dos Patagões, que mais tarde seria chamado de Estreito de Magalhães.

Acredito que não exista no mundo um estreito melhor do que este” - Antonio Pigafetta

Aliás o nome Patagônia também surge dessa viagem. Os tehuelches, povos ameríndios do extremo sul do continente, foram apelidados de patagões, por conta de seus pés alongados pelos calçados feitos de peles.

Em Porto de San Julián, destino patagônico onde a expedição esteve por 5 meses, encontram guanacos, descritos por Pigafetta como um animal com “cabeça e orelhas de mula, corpo de camelo, patas de cervo e cauda de cavalo”.

Pinguim e guanaco, em Punta Tombo, na Patagônia argentina (foto: Eduardo Vessoni)
Pinguim e guanaco, em Punta Tombo, na Patagônia argentina (foto: Eduardo Vessoni)

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“Todos choramos de alegria”, lembra Pigafetta quando as águas daquela passagem natural recém descoberta findaram em um “grande mar”. A esquadra chegou a navegar 340 km por dia, durante três meses seguidos e em águas calmas de um oceano que seria batizado de Pacífico.

É nesse trecho que a tripulação sofreu uma baixa de 19 homens, afetados pelos efeitos do escorbuto, doença causada pela falta de vitamina C no corpo, e por uma dieta a base de “polvo impregnado de morcegos” (..) “empapado em urina de rato”, “água fedorenta” e até ratos, couro de mastro e serragem de madeira.

Oceano Pacífico, visto na trilha de Duhatao a Chepu, em Chiloé, no Chile (foto: Eduardo Vessoni)

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OUTROS DESTINOS

BRASIL
No Brasil, “tão abundante em toda classe de produtos”, os embarcados se abasteceram de batatas, galinhas e abacaxi. Esse trecho do relato de Pigafetta fascina pela riqueza de detalhes na descrição dos indígenas, que vai de uma suposta longevidade dos locais (“vivem muito tempo … até os 125 anos”) até a troca de moças escravas por instrumentos de corte dos europeus, como facas.

O porto a que se refere Pigafetta, em um caloroso 13 de dezembro de 1519, era o futuro Rio de Janeiro.

RIO DA PRATA
Divisor natural entre a Argentina e o Uruguai, esse estuário também é citado por Pigafetta. Na época, o local era chamado de Cabo de Santa Maria e conhecido pela presença de canibais.

foto: Roy Chan/Flickr-Creative Commons)

FILIPINAS
A partir da viagem de Magalhães, a região sofreria um profundo processo de conversão religiosa e de domínio espanhol que duraria 300 anos.

O rei de Cebu, por exemplo, abraçou o catolicismo como vantagem para vencer os inimigos com mais facilidade. Em uma das passagens mais emblemáticas do apagamento dos ídolos religiosos daquela gente, um enfermo que se curara, supostamente, após o batizado católico, mandou queimar imagens de madeira e derrubar templos, “aos gritos de Viva Castela, em honra do rei Espanha”, nas palavras de Pigafetta.


ILHAS MOLUCAS

Atual paraíso indonésio de praias de águas cristalinas, esse arquipélago era o objetivo final da viagem e foi avistado no início de novembro de 1521, após a tripulação passar 27 meses sem ver terra firme.

Nas cobiçadas ‘Ilhas das Especiarias’, encontraram não só cravos em espécie como também arroz, bananas, figos, gengibre, nozes e sagu.

Ilhas Molucas, na Indonésia (foto: Pixabay)

Recém-conquistadas por mouros, 50 anos antes da expedição de Magalhães, aquele conjunto de ilhas assombrou com costumes curiosos como o rei de Bacan que, antes de combater um inimigo, se entregava aos prazeres de um de seus criados.

É dali que partem, no dia 21 de dezembro de 1521, os 47 europeus e 13 indígenas que decidiram seguir a viagem de volta à Espanha. Os outros 53 europeus permaneceram na ilha Tadore, temerosos pela capacidade de carga da nau Victoria, a única embarcação que sobrara com as avarias do Trinidad.

ÁFRICA
Antes de navegar a costa da África por dois meses seguintes , a expedição esteve parada no Cabo da Boa Esperança por nove semanas, à espera do fim de uma forte tempestade.

O “maior e mais perigoso cabo conhecido da terra”, de acordo com Pigafetta, só seria vencido no início de maio de 1522, cobrando a vida de 22 homens embarcados que, lançados ao mar, tinham os rostos virados para os céus, no caso dos cristãos, e os índios, com a cara para o mar.

Morto no final de abril de 1521, Fernão de Magalhães não veria sua desejada viagem chegar ao fim, em seis de setembro de 1522, sob comando de Juan Sebastian Elcano.

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SAIBA MAIS

Sites oficiais dos 500 anos da circum-navegação na Terra
www.vcentenario.es
www.magalhaes500.pt

Livro “A primeira viagem ao redor do mundo: o diário da expedição de Fernão de Magalhães” (Antonio Pigafetta)
www.lpm.com.br

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