Miami histórica

Miami, quem diria, também é destino para viajantes apegados a datas e cenários históricos.

Esta jovem cidade americana famosa por seus paraísos de compras e pela vida noturna hedonista é um daqueles destinos que abrigam endereços capazes de contar histórias que o visitante apressado em encher sacolas nem sempre tem tempo de incluir no roteiro de viagem.
Castelo e piscinas construídas com rochas de coral, casarão de estilo europeu declarado monumento nacional, monastério ibérico trazido do outro lado do Atlântico e até as maiores coleções de arte erótica e arquitetura art deco são alguns dos exemplos que, de longe, lembram aquela cidade do sul da Flórida banhada por praias recortadas por coqueiros e altos edifícios espelhados.
Por estas terras pantanosas já passaram povos como os calusas, cujo primeiro contato com europeus se deu no início do século 16. É desse encontro que teria surgido o atual nome da cidade que, na língua original desses índios conhecidos por suas técnicas de pesca, significava ‘Água Grande’, tradução para a palavra Mayami.
Outra figura da História local é Julia Tuttle.
Essa empresária visionária mudou-se de Ohio para a Flórida em 1891 e comprou um terreno de quase 3 km² dentro do espaço onde hoje se localiza a cidade.
Mais do que fazer investimentos com a venda da fábrica de fundição deixada pelo marido recém-falecido, Julia dava início à fundação de uma das cidades mais jovens da América do Norte. A ‘Mãe de Miami’, como ela ficou conhecida, conseguiu convencer o magnata Henry Flagler a investir no desenvolvimento da região e ampliar linhas ferroviárias até Miami, construir um hotel de luxo e dar início à construção de um povoado local. Em 1896, Miami era fundada.
O Museu Vizcaya é um dos inusitados endereços que relembram os primeiros anos do destino.
Na entrada, um casarão em estilo italiano do início do século passado e interior decorado com objetos da época; no jardim externo repousam estátuas clássicas espalhadas por quatro hectares de mata nativa; e sobre a baía de Biscayne uma plataforma erguida com traços inspirados nos canais venezianos. Este cenário é um dos destaques de um roteiro histórico capaz de fazer qualquer viajante rever suas opiniões sobre Miami.
Este Monumento Nacional foi erguido em 1916, em uma época em que era tendência nos Estados Unidos a construção de mansões luxuosas inspiradas nos palácios da Europa, serviu como casa de inverno da família do industrial agrícola James Deering até 1925 e, atualmente, abriga a sede do Vizcaya Museum & Gardens .

Museu Vizcaya, em Miami (foto: Eduardo Vessoni)
Museu Vizcaya, em Miami (foto: Eduardo Vessoni)

Curiosamente, esta casa localizada em um bairro do sul de Miami conhecido como Coconut Grove foi construída por mais de mil empregados trazidos da Europa e das ilhas vizinhas do Caribe, em uma época em que Miami contava com apenas dez mil habitantes.
A ideia de Deering e de Paul Chalfin, pintor de Nova York responsável pela supervisão das obras, era erguer uma construção que desse a impressão de um casarão centenário italiano e para isso foram necessárias algumas viagens ao Velho Continente para buscar não só inspiração arquitetônica, mas também para a aquisição de objetos originais como painéis e portas.
Após a morte do industrial, o local sofreu restaurações, sobretudo devido às passagens de dois furacões devastadores, em 1926 e 1935, à umidade e maresia que vem da baía em frente.
Nos anos 50, a família de Deering vendeu aquele terreno de 170 hectares por um preço abaixo do de mercado com a condição de que o local fosse transformado em um museu.
Durante a visita ao local, é possível conhecer os 34 quartos onde estão expostos objetos e obras de arte dos séculos 15 ao 19.
No entanto, o cenário que mais parece destoar daquela Miami de calçadões lotados de carros esportivos e fachadas de neon são os jardins externos do museu que preservam seu estilos francês e renascentista, um trabalho que levou sete anos para ser concluído.
Em frente às escadarias da casa, outra obra surpreende.
Conhecida como ‘ A grande barcaça de pedra’, essa plataforma de embarque foi inspirada nos canais de Veneza e parte de sua estrutura original ainda sobrevive à ação das águas da baia de Biscayne.
A 'grande barcaça de pedra', no Museu Vizcaya, em Miami (foto: Eduardo Vessoni)
A ‘grande barcaça de pedra’, no Museu Vizcaya, em Miami (foto: Eduardo Vessoni)

Outro registro histórico que resistiu ao tempo é o Ancient Spanish Monastery.
Este atrativo surpreende não só por sua beleza arquitetônica, mas também pela forma como chegou a Miami.
Foram necessárias 11 mil caixas de madeira para transportar esse monastério espanhol desmontado para atravessar o Atlântico. Em 1953, a revista Time classificou o feito como ‘o maior quebra-cabeça da História’.
Ancient Spanish Monastery, em Miami (foto: Divulgação)
Ancient Spanish Monastery, em Miami (foto: Divulgação)

Conhecido, originalmente, como Monastery of St. Bernard de Clairvaux, esse templo religioso foi construído no início do século 12, em Sacramenia, próximo a Segóvia, na Espanha. Monges viveram no local por, aproximadamente, 700 anos até que a Revolução Social de 1830 obrigou aqueles religiosos a fecharem e venderem seus claustros.
O publisher William Randolph Hearst, dono de uma das maiores cadeias de jornais dos Estados Unidos, adquiriu aquela estrutura, em 1925, e mandou via navio, peça por peça, para os Estados Unidos.
Porém, suas dívidas financeiras levaram ao confisco da mercadoria e aquelas peças históricas estiveram guardadas em um armazém do Brooklyn, por quase 30 anos, até que fossem compradas para fins turísticos por dois empresários do setor, em 1952.
Dezenove meses depois do início da reconstrução e com um investimento de 20 milhões de dólares, erguia-se o que se conhece, atualmente, como o ‘Antigo Monastério Espanhol’ com seus arcos gótico, tetos abobadados e paredes de pedra decoradas com vitrais.
Ancient Spanish Monastery, em Miami (foto: Divulgação)
Ancient Spanish Monastery, em Miami (foto: Divulgação)

A relação com o mundo hispânico pode parecer um fenômeno recente, estimulado pela onda crescente de hispânicos esperançosos que chegam de países vizinhos para engrossar as comunidades latinas espalhadas pela cidade. De acordo com o último censo de 2010, Miami possui, aproximadamente, 408 mil habitantes dos quais 66% se consideram hispanofalantes.
Mais do que praias badaladas diante de calçadões concorridos, Miami oferece também a opção de fugir do calor sufocante dos dias quentes em piscinas históricas de Coral Gables, cidade de estilo revival mediterrâneo, a sudoeste de Miami, considerada uma das primeiras regiões planejadas da cidade.
Localizada entre ruas arborizadas e casarões clássicos, a Venetian Pool guarda outro capítulo da história da região.
Construída em 1923 com rochas de coral, essa piscina pública tem capacidade para 3 milhões de litros de água e está rodeada por pequenas cavernas e ilhas em seu centro.
Venetian Pool, em Coral Gables, Miami (foto: Eduardo Vessoni)
Venetian Pool, em Coral Gables, Miami (foto: Eduardo Vessoni)

O cenário com palmeiras, pontes e pórticos chega a lembrar uma espécie de ‘Ilha da Fantasia’, sobretudo quando o local é invadido por famílias em dias quentes. Mas a experiência de nadar ou, ao menos, conhecer um atrativo declarado ‘Lugar Histórico Nacional’, o único título do gênero nos Estados Unidos para uma piscina, compensa qualquer sensação de férias em parques temáticos que o local possa causar.
A obra de Denman Fink, responsável pela criação da piscina, faz parte do projeto ousado de George Merrick de criar uma área de estilo mediterrâneo inspirada em destinos espanhóis como Maiorca, Cartagena e Málaga.
Desde 1986, Coral Gables conta com leis que incentivam a construção e manutenção de casas feitas naquele estilo mediterrâneo que preservem os tons cromáticos e telhados característicos.
Esta região com 1200 hectares, originalmente, parece ter nascido com gosto pelas construções históricas e abriga também outro ícone da arquitetura local: o Biltmore Hotel.
Este resort de luxo em estilo mediterrâneo e fachada em tom terracota, como no projeto original, abriga uma torre de três andares inspirada na Giralda da Catedral de Sevilha.
Fachada do Biltmore Hotel (foto: Eduardo Vessoni)
Fachada do Biltmore Hotel (foto: Eduardo Vessoni)

Aliás essa construção espanhola não só inspirou o projeto do hotel como serviu também de referência para a Freedom Tower, edifício clássico do centro da cidade construído em 1925 que funcionou como escritório de um jornal local e, entre 1962 e 1974, foi abrigo para mais de 300 mil refugiados cubanos.
Desde 2005, este monumento histórico oficial é sede para exibições de arte encabeçadas pela Miami Dade College.
Inaugurado em 1926, o Biltmore é declarado Patrimônio Histórico Nacional e hospedou figuras históricas como Al Capone, cujo quarto no alto da torre ainda guarda marcas das balas disparadas por esse gangster do Brooklyn procurado por contrabando de bebidas, nas décadas de 20 e 30; e serviu também como hospital militar durante a Segunda Guerra Mundial, o que causou o fechamento do hotel até 1968.
Marcas de tiros deixadas por AL Capone, na suíte do hotel Biltmore, em Miami (foto: Eduardo Vessoni)
Marcas de tiros deixadas por AL Capone, na suíte do hotel Biltmore, em Miami (foto: Eduardo Vessoni)

O Biltmore só voltaria a funcionar como hotel em 1987, quando um investimento de 55 milhões de dólares traria de volta aquele edifício histórico transformado então em resort e hotel quatro estrelas.
Merrick, outra vez, estava envolvido na construção desse novo empreendimento de Coral Gables e, juntamente, com o magnata John McEntee rascunharam na década de 20 o sonho de erguer uma opção luxuosa para hóspedes amantes de esportes, um projeto que na época custou 10 milhões de dólares e incluía um complexo hoteleiro com 400 quartos, um clube, campos de golfe e pólo, e quadras de tênis.
Mas um dos locais mais famosos deste hotel de tetos em travertino, afrescos pintados à mão e colunas de mármore é a piscina com mais de dois mil metros quadrados e com mais de 2,6 milhões de litros de água que, durante a Era do Jazz das décadas de 20 a 40, serviu de cenário para concorridas apresentações de nado sincronizado que chegaram a reunir mais de 3 mil pessoas ao seu redor.
Suas dimensões garantiram à piscina o título de a maior localizada em um hotel dos Estados Unidos.
No entanto, a história de Miami não se constrói apenas com planejamento e investimentos milionários.
Decepção amorosa e relações cortadas são alguns dos elementos que fazem parte da impressionante trajetória do Coral Castle, em Homestead.
Edward Leedskalnin esteve a ponto de se casar com Agnes Scuffs, uma jovem dez mais nova que decidiu cancelar seu casamento um dia antes da cerimônia que aconteceria em uma igreja de Vecgulbene, na Letônia.
Decepcionado, Ed, como ficou conhecido este imigrante dos Bálcãs, rumou para Ellis Island, em Nova York, onde desembarcou em 1912 ao lado de outros tantos imigrantes que deixavam a instável Europa para fazer a América.
O que deveriam ser apenas detalhes para um bom roteiro romântico tornariam-se um dos mais intrigantes acontecimentos da região.
Na tentativa de criar um monumento em homenagem a seu amor perdido, Ed ergueu um impressionante castelo com mais de mil toneladas de rochas de corais.
Coral Castle, em Homestead (foto: Eduardo Vessoni)
Coral Castle, em Homestead (foto: Eduardo Vessoni)

Entre 1923 e 1951, aquele homenzinho com apenas um metro e meio de altura esculpiu não só sua casa e portões como também deu forma a mesas, cadeiras, poltronas e esculturas (todas feitas com o mesmo material).
Ed morou na Flórida entre 1918 e 1936, quando se mudou para Homestead para viver ainda mais isolado em um terreno de 4 hectares.
Coral Castle, em Homestead (foto: Eduardo Vessoni)
Coral Castle, em Homestead (foto: Eduardo Vessoni)

Durante três anos, aquele homem transportou, misteriosamente, pesadas pedras de Florida City até seu novo endereço, uma distância equivalente a pouco mais de 16 quilômetros. É daquela época que vem a fama de que Ed seria dotado de poderes supernaturais.
Sem carro e dono de uma bicicleta, Ed intriga cientistas até hoje e sua obra de engenharia simples e eficiente é comparada a Stonehenge, monumento pré-histórico do sul da Inglaterra, e às pirâmides do Egito.
Cada um dos blocos de muros de rocha de coral que circundam aquele mundo paralelo que Ed ergueu às margens de uma rodovia possui 2,5 metros de altura, mais de um metros de largura e 58 toneladas. Tudo feito com ferramentas simples utilizadas para cavar as pedras, retirar pedaços no tamanho desejado e erguê-los.
No jardim externo, onde está a maioria dos móveis construídos por Ed, é possível ver uma porta de 9 toneladas construída sob um eixo que permitia o visitante empurrá-la com apenas um dedo.
Pouco se sabe sobre a história pessoal e as técnicas de construção de Ed, resultado de seu isolamento e falta de registros deixados após sua morte, em 1951.
Em terras onde parece não haver limites, até sexo é tema de museu.
Localizado em pleno Art Deco District, bairro histórico de Miami Beach que possui uma das maiores concentrações de edifícios art deco do mundo, o World Erotic Art Museum é uma respeitada instituição com 20 salas onde se pode ver o maior acervo de arte erótica dos Estados Unidos.
Detalhe de umas das peças do World Erotic Art Museum, em Miami (foto: Eduardo Vessoni)
Detalhe de umas das peças do World Erotic Art Museum, em Miami (foto: Eduardo Vessoni)

Essa coleção particular de Naomi Wilzig, uma senhora de quase 80 anos que já rodou o mundo com um placa no pescoço onde se lia “Compro arte erótica”, é formada por mais de 4 mil peças como móveis, quadros e esculturas que, juntas, estão avaliadas em US$ 10 milhões.
Peças do World Erotic Art Museum, em Miami (foto: Eduardo Vessoni)
Peças do World Erotic Art Museum, em Miami (foto: Eduardo Vessoni)

O acervo abriga obras relacionadas às mitologias grega e romana, antiguidades asiáticas, objetos africanos e quadros relacionados ao tema assinados por Rembrandt, Picasso e Salvador Dalí.
O museu está dividido em salas que abordam o assunto em contextos como a Antiguidade, Art Deco, Art Nouveau, Hollywwod, Mitologia e Etnografia.
E assim Miami continua surpreendendo aqueles que não param de chegar a um dos destinos mais visitados dos Estados Unidos, sobretudo os que desembarcam com olhos voltados para outros capítulos da História daquele país.


SOBRE A HISTÓRIA DE MIAMI
A história europeizada de Miami começa com Juan Ponce de León, em 1513.
Este espanhol foi o primeiro líder europeu a desembarcar naquele território. Aqueles conquistadores foram recebidos com hostilidade pelos nativos, mas em pouco tempo já reclamavam para si a posse do território.
Embora não tenham conseguido manter um assentamento espanhol sólido e tenham perdido para a Inglaterra a possessão de terras durante a Guerra Franco-indígena – conflito da segunda metade do século 18 que ocorreu entre britânicos e franceses que defendiam suas colônias e no qual a França teve apoio da Espanha – aqueles homens insistentes reconquistaram a região, em 1783, após o fim da revolução que emancipou as colônias inglesas da região, conhecida como ‘Revolução Americana’, e deu origem aos Estados Unidos da Américas.
Em 1821, a Espanha voltou a abrir mão daquelas terras do sul e as vendeu para os Estados Unidos por 5 milhões de dólares.
A História local acabou tomando outro rumo, mas a cidade tem certo gosto em lembrar os anos em que esteve sob olhares interesseiros de conquistadores vindos da Península Ibérica.


 

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