Dublin – a primeira impressão é a que fica

Pelo caminho do visitante recém desembarcado, cruzam jovens executivos metidos, sem cerimônia, em tênis de corrida.
Passam também, como em uma bem escrita história surrealista, carruagens brancas de estofados vermelhos puxadas por um cavalo negro de rabo bem escovado.
Sem contar no barco sobre rodas onde turistas com chapéus de viking gritam uníssonos diante da atração seguinte, em um curioso city tour para bárbaros.
Fazia tempo que eu não tinha a sensação de desembarcar em um lugar, realmente, novo.
Nos últimos meses, andei revisitando destinos já conhecidos ou desembarcando em endereços novos que poucas novidades traziam no roteiro. Mas Dublin é daquelas cidades que fazem até mesmo o mais rodado dos viajantes se sentir em um lugar diferente, ainda que seus primeiros registros datem do século 9 como um antigo assentamento viking e as filas de turistas nas atrações mais populares não parem de engordar.
A capital da Irlanda é a cidade que respeita quem carrega no corpo o peso de uma viagem transatlântica de 14 horas de duração. Se mostra aos poucos, sem ser invasiva.
É um destino sem pressa, discreto e (quase sempre) parece silencioso. Confesso que ainda estou para ver uma capital tão silenciosa como Dublin.
Juro. É a cidade que não se ouve. Ela fica ali, parada, muda para ser degustada com os olhos.
Nem a imensa fila diante da Trinity College, onde estão expostos os 200 mil livros mais antigos dessa biblioteca de teto abobadado construída entre 1712 e 1732, consegue me fazer mudar de ideia.
A fila é imensa e começa bem antes da abertura das portas, mas o silêncio daqueles turistas excitados com a experiência é quase sepulcral.
Barulho mesmo é na Temple Bar. Em alto e democrático bom som.
Em uma esquina, rock clássico de um trio de músicos. Em outra, o cantor solitário de camisa xadrez que tenta ganhar uns trocados com uma versão de Coldplay.
Na esquina mais adiante, um jovem que não passa dos 20 anos divide o jazz com um senhor que, há tempos, já passou dos 70.
E é tudo montado ali mesmo, na rua de paralelepípedos: baixo, bateria e violão (e alguns copos de cerveja para os músicos mais tímidos).
Tem também o tour literário por pubs da cidade, um bem-humorado passeio de quase 3 horas de duração e 1,6 km de extensão que paralisa clientes e pedestres em apresentações ao ar livre nesta cidade hedonista com mais de 800 pubs capazes de desviar o foco até do viajante mais dedicado aos clássicos da literatura.

Fachada do pub Davy Byrne’s, em Dublin (foto: Divulgação)
Fachada do pub Davy Byrne’s, em Dublin (foto: Divulgação)

A cada intervenção dos atores, o público nunca sabe quando se trata de uma biografia descrita em forma de poema, um poema recitado em forma de biografia ou apenas mais um dos comentários com o inconfundível humor irlandês, que aliás exige atenção de visitantes estrangeiros pelo altíssimo grau de (in)compreensão que confunde forasteiros que não contam com um inglês em seu melhor estado de conservação (no caso, eu).
Deixei a cidade depois da segunda noite de visita. Não por falta de interesse ou de opções na cidade.
Mas a viagem seguiria até a costa oeste da Irlanda, onde o oceano Atlântico ganha a alcunha de selvagem.
Saí do meu quarto pela manhã, ainda atordoado pelo silêncio da cidade. E enquanto deixava meu hotel, o taxista virou à esquerda e, bem ali na esquina, um Oscar Wilde relaxado repousava sobre uma pedra de granito.
Estátua de Oscar Wilde, em Dublin (foto: Eduardo Vessoni)
Estátua de Oscar Wilde, em Dublin (foto: Eduardo Vessoni)

Despojado e em silêncio, Wilde se perde observando o outro lado da rua, onde ainda está a antiga residência de sua família.
Bateu até uma vontade de voltar para o hotel e começar a descobrir a cidade tudo de novo.
Mas fico em silêncio, como sempre deve ser em Dublin.

5 Comentário

  1. Dublin é linda, os Dubliners (que inspiraram James Joyce em tantos contos que se tornaram um livro) são maravilhosos e o silêncio só não reina no dia de St. Patty!
    A primeira impressão é a que fica porque Dublin se mostra, sempre, como realmente é.

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