Deu zika: cadê a América Latina que tava aqui?

– “Professor, lá na América Latina eles comem arroz e feijão?”, foi a pergunta que recebi no primeiro dia de aula de uma turma do curso de Secretariado Executivo, quando eu trabalhava como professor de Língua Espanhola, em uma faculdade do interior de São Paulo.

A dúvida, tão inocente quanto preocupante, bateu indigesta, como um bife boliviano, comido na beira da estrada, às 7 da manhã.

– “E o Brasil fica onde? Em um iceberg à deriva no Atlântico?”, respondi, apressado, antes de abrir o mapa e começar uma explicação mais demorada sobre a vizinhança.

Dia desses, me preparei para o ritual noturno de acompanhar o excelente Jornal da Cultura, cujos destaques eram o zika, o chikungunya e todas essas outras novas neuroses nacionais que aprendemos a administrar, nos últimos meses.

O especial jornalístico sobre a epidemia ia bem: abordou o aumento de casos no Brasil, ouviu entrevistados que falavam sobre seus novos hábitos para não atrair o mosquito Aedes aegypti e um monte de números e dados contextualizava quem acompanhava a matéria pela TV.

Mas na hora da febre chikungunya, tão desconhecida por aqui quanto os vizinhos da América do Sul, a reportagem deslizou.

“O vírus infectou 660 mil pessoas na América Latina e provocou 71 mortes, em 2015. Por aqui, no ano passado, foram confirmados mais de 7.800 casos da doença e três mortes”, foi descrevendo em off o repórter, enquanto na tela um mapa da América do Sul aparecia com o Brasil destacado em vermelho; e eles, lá na América Latina, em amarelo.

Seria ingenuidade da minha parte desconsiderar que essa foi a alternativa para destacar os números da doença no Brasil, em relação aos outros casos do continente. Mas, outra vez, o Brasil flutua, isolado, sobre um iceberg em qualquer rincão do oceano, sobretudo quando o repórter, ingênuo e vítima da própria história do País, descreve dois espaços diferentes, “na América Latina” e “por aqui” para se referir, exclusivamente, ao Brasil.

imagem: Reprodução
imagem: Reprodução

É só zapear a tevê ou folhear algum jornal impresso para a gente se deparar, sem muito esforço, com imagens muito parecidas quando o assunto é o continente latino-americano.

O Brasil ainda é abordado como um outro espaço (geográfico e ideológico), descolado e sem nenhuma relação com o restante do continente. O Brasil fica “por aqui” mesmo, conforme a reportagem, e a América Latina fica lá: exótica, inóspita, caótica, pobre, violenta e subdesenvolvida.


(A matéria do vírus aparece em 20′ 50”, aproximadamente)

Mais do que reforçar estereótipos que ajudam a vender cerveja ou outros produtos de apelo tropical, que combinam tão bem com a América Latina do lado de lá, essas descrições parecem ecos de diferentes capítulos históricos do País como, por exemplo, o período em que o Brasil monárquico dava as costas para a América Latina republicana.

Para os intelectuais e políticos brasileiros daquele século 19, as nações latinas de língua espanhola eram exemplos de caos, anarquia, instabilidade e fragmentação. Para o Brasil monarquista, o Império era a garantia de unidade política e territorial, e qualquer outro discurso contrário era uma ameaça aos planos de solução de problemas e prosperidade brasileiras.

O Brasil, desde então, aprendia a dar as costas para os vizinhos hispânicos, marcado por uma tradição eurocêntrica que voltava nossa atenção para a Europa.

Se a história da colonização espanhola foi pautada pela ideia de prolongamento da Espanha, em terras recém conquistadas; no novo território de domínio português, nos foi imposto um certo sentimento de “não pertencimento”, um distanciamento político e cultural entre o Brasil e a América Latina.

O Brasil passava a ser narrado a partir da história de Portugal; e não de sua própria história.

E como em terras latinas até cerveja vira tema de discussão política, lembro da surreal propaganda da bebida Puerto del Sol, veiculada na TV aberta brasileira, em 2006.

Segundo me informou, na época, a própria assessoria de imprensa da empresa, a peça publicitária era “uma referência a ícones latinos”. No rótulo, tons avermelhados contornavam a imagem de um senhor com poncho e longos bigodes que remetiam à figura do mexicano Emiliano Zapata que, juntos, latinizavam aquele espaço e davam credibilidade latina ao produto.

Em trinta segundos de propaganda, o filme reune o maior número possível de estereótipos circulantes no imaginário do espectador acerca do continente.

Lá, o universo latino é formado por um cenário com praia, sol, cactos, chapéus mexicanos e um grupo de homens e mulheres em trajes de banho dançando e bebendo. Resumia-se a complexa e variada cultura da América Latina em imagens reducionistas acerca da latinidade, seu estilo de vida, cultura e valores.

Tudo isso, ao som de uma versão em espanhol de um hit do axé de muito sucesso no Brasil, no final dos anos 90: Milla, cantada por… Netinho.


propaganda da cerveja ‘Puerto del Sol’

Ver aquela propaganda, que, segundo a própria empresa, era “baseada em pesquisas e no desenvolvimento da cultura latina no Brasil”, é quase impossível não compará-la com a pasmada carta escrita por Pero Vaz de Caminha, na chegada das primeiras expedições portuguesas, em 1500.

“A feição deles é serem pardos, um tanto avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos […] E não comem senão desse inhame […] e dessas sementes e frutos […]. E com isto andam tais e tão rijos e tão nédios que o não somos nós tanto, com quanto trigo e legumes comemos”.

A propaganda vai avançando e o “primeiro documento escrito da história do Brasil” continua à sua imagem e semelhança.

“E uma daquelas moças era toda tingida […] e era tão bem feita, e tão redonda, e sua vergonha (que ela não tinha) tão graciosa que a muitas mulheres de nossa terra, vendo-lhes tais feições envergonhara, por não terem as suas como ela”.

Outra vez, um diálogo entre o presente e o passado. De perto ou de longe, selvagem ou civilizada, essa América Latina ainda é uma incógnita para os latinos do lado de cá do continente.

Mas eu só queria lembrar que o zika não tem passaporte e, para ele, Brasil e América Latina continuam sendo o mesmo lugar.

PS: Peço desculpas aos leitores do Viagem em Pauta, tão acostumados a lerem sobre os prazeres de viajar, por usar esse espaço de viagens para uma discussão tão fora do contexto turístico. Mas, certamente, cada um de vocês deve ter uma história parecida sobre esse continente tão perto e tão longe, ao mesmo tempo.

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