Ignácio em Berlim: 35 anos depois

Coincidentemente, no mesmo ano em que a queda do Muro de Berlim completa 30 anos, ‘O Verde violentou o muro’, livro em que Ignácio de Loyola Brandão relata sua experiência na cidade alemã dividida, também celebra três décadas e meia de sua 1ª edição

foto: Eduardo Vessoni

No início dos anos 90, aos 13 ou 14 anos, passei a me interessar pela leitura de jornais. Sobretudo aquela parte em que uns nomões da literatura assinavam textos no caderno de cultura do Estadão.

Era lá que lia Rachel de Queiroz, Caio Fernando Abreu e Marcos Rey contando histórias de um jeito diferente.

Mas um deles, particularmente, me chamava a atenção. Um senhor de cara fechada que fazia jornalismo, escrevendo sobre coisas cotidianas que a gente não dava bola, mas que ganhavam importância naquelas crônicas de tons literários.

Foi ali que aquele senhor de expressão carrancuda (na foto, que fique bem claro) ensinou o menino que jornalismo também se fazia com texto de ritmo oral e sobre qualquer assunto.

Na mão de Ignácio de Loyola Brandão, tudo é história, crônica e conto.

Nostalgia, memória, biografia e… jornalismo, tudo no mesmo lugar. Loyola é o escritor de tudo. De tudo o que lhe passa pelos olhos, de formigas que escalam até o 13º andar de um edifício ao outdoor com um zero gigante estampado no centro.

Anos mais tarde, já crescido e como coordenador pedagógico de uma escola de idiomas na avenida Angélica, ouviria dele que a inspiração está em todos os lugares, “pegando no calcanhar da gente”. Depois daquele dia, nunca mais consegui deixar de botar reparo em conversa alheia.

E com esse texto frágil,  que de longe lembra a coreografia fluída das crônicas de Loyola, declaro minha admiração por meus dois personagens preferidos: Berlim, minha melhor cidade no mundo (depois do meu mundo chamado Bexiga), e Ignácio de Loyola Brandão, meu melhor escritor brasileiro que, hoje, já não me prega peças com aquela expressão mal-humorada das fotos que estampavam suas crônicas.

Ignácio de Loyola Brandão (foto: WIkimedia Commons)

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Verás país algum: a Berlim que Loyola viu
O escritor morou em Berlim de março de 1982 a agosto de 1983, a convite da DAAD (sigla para Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico). Da experiência nasceu ‘O verde violentou o muro’ (editora Global), publicado pela primeira vez em 1984.

Dá para ler o livro a partir de qualquer capítulo, sem ordem, “como se você pegasse um trem numa estação qualquer […] e descesse onde bem entendesse”.

Dizem tanto sobre essa cidade. Quanto tempo para verificar tudo?”

- Ignácio de Loyola Brandão
Nos meses em que esteve em Berlim, registrou desde o conserto do vaso sanitário a viagens aleatórias de ônibus pela cidade, a fim de ganhar novas histórias. Mapeou a cidade alemã com a mesma habilidade de quem montava um Mapograf, a fim de vê-la revelada.

Para cada referência a uma determinada rua, o número exato do ônibus que passava pelo logradouro. Para visitar um dos endereços em que Franz Kafka morou em Berlim, por exemplo, Loyola avisa: basta descer no ponto final da linha 48, na Busseallee, antiga Heidestrasse.

Eis a habilidade do escritor em unir histórias de tempos dispersos, dentro da “intemporalidade que Berlim possibilita”.

Viu o que muito turista também vê; ainda que, hoje em dia, sob roupagem turística.

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Viu o Checkpoint Charlie da checagem de documentos, na Alemanha Oriental; a imponência do Portão de Brandemburgo; a agitada Alexanderplatz; o Spree, a versão berlinense do Sena ou do Tâmisa; e até os Trabi, os famosos automóveis compactos da era socialista.

O muro causava-lhe espanto mas também decepções: “não era tão alto como eu esperava”.

De Berlim a Araraquara
Mas o que Loyola mais viu era aquilo que ninguém via (ou se via, parecia-lhe normal). Por um ano e meio, viveu a “normalidade do anormal”, desde que preservada a tão cultivada individualidade alemã.

Aqui você é normal sendo diferente”

- Ignácio de Loyola Brandão
Nas caminhadas pela cidade, ia de Berlim a Araraquara. Dias silenciosos em um bosque da cidade europeia o transportavam a tardes na cidade natal.

Do cartaz de moças seminuas da boate Chez Nous, na rua Marburger, faíscas de pensamento o levam à Araraquara dos anos 50, chocada à época com a revista Manchete que trazia na capa a travesti Yvana, o “homem-mulher”, nas palavras de Loyola.

Descreve também um diálogo de tom almodovariano com uma prostituta na Potsdamerstrasse, quem lhe cobrou cinco francos pelo diálogo insólito que tivera com o possível cliente que encerraria a conversa sem fechar negócio.

E mesmo em um mundo novo tão diferente do seu, sobretudo aquele do menino curioso da inerte Araraquara que também dera vida a figuras como o movediço Zé Celso, o escritor encontrou semelhanças com a sua própria história (e a de um país inteiro), em vias de sair de uma ditadura.

Torre de TV de Berlim (foto: Eduardo Vessoni)

“Na Alemanha, deixavam morrer nos campos de concentração. No Brasil, deixamos morrer na caatinga, na favela, no interior amazônico, com a mesma impassibilidade”, compara em ‘O verde violentou o muro’.

Ou então, o mundo oposto ao nosso, onde “cerveja estupidamente gelada é coisa de brasileiro”. Só na Alemanha passaria a sentir “o sabor da cerveja, o gosto, o cheiro”. Em outro trecho, o sol europeu (uma luz “coada”, “filtrada”, “suave”) era diferente do sol brasileiro, “chapado”, “intenso” e ”direto”.

Mesmo para o escritor de sobrancelhas grossas sobre olhos que parecem ter visto de tudo, a Berlim dividida também lhe causava estranheza. “para viver em Berlim é necessário cancelar espantos”, define em um dos segmentos do livro.

Loyola em números
Curioso, voyeur e com dois pés, assumidamente, no submundo, Loyola não deixa nenhuma Berlim escapar-lhe aos olhos e vai colecionando estatísticas (uma obsessão por números, que herdara do pai).

Na época de sua visita, Berlim tinha 90 mil cachorros (o que significava recolher 850 kg de cocô do animal), segundo números levantados pelo próprio escritor. E eu duvido que, hoje em dia, um jornalista seria capaz de apurar dados tão, escatologicamente, precisos como esse.

De Ocara a Hong Kong, eu tô sempre pronto para ir”

- Ignácio de Loyola Brandão, em uma entrevista sobre seu livro ‘O verde violentou o muro’
Nos últimos textos do livro, Loyola compara o que vê, de volta à cidade pós muro, com o que vira. Descreve os novos bairros que agora formam uma só Berlim; escreve sobre as casas de cultura da nova cidade, as paisagens divididas pelo muro que já não existem mais, as linhas de metrô, as migrações, e autorizações de retorno e a abertura aos estrangeiros (“mas ainda se usa pouco cartão de crédito”).

Refere-se até a um aumento de 33% no número de casos de enxaqueca e dores de cabeça, motivado pelos males do Ocidente (sem falar da novidade da declaração de imposto de renda para os alemães orientais).

Quando Loyola voltou para o Brasil, tinha cerca de 70 caderninhos de anotações. Em uma entrevista para a revista E, do Sesc, confessa: “Eu adoro caderninhos, e tinha uns lindos lá”, afirma o escritor que se sentava no primeiro lugar dos ônibus berlinenses da época e ia anotando o que via até descer em algum ponto aleatório, de onde seguia caminhando.

Final de tarde em Berlim (foto: Eduardo Vessoni)

De volta a Berlim
Em seu retorno à cidade, em 2000, Berlim já não era o eterno domingo pela manhã, como descrevera Loyola, em sua primeira estadia. O escritor sente a necrofilia no consumismo que veio com a identidade turística que a cidade ganhou. “Querem os restos de um país morto”, sentencia na página 340 do livro, em referência à venda de pedaços do muro derrubado.

Sempre volto com a sensação de nunca ter estado em Berlim”

- Ignácio de Loyola Brandão, em uma entrevista sobre seu livro ‘O verde violentou o muro’
Berlim se civilizava, normalizava-se num mundo anormal, onde as pessoas passavam a entrar nos bares com a roda da bicicleta na mão e os “amigos têm travas na direção e sistemas sofisticados de alarmes nos carros”.

De volta, espanta-se (e até se frustra), mais com o surgimento das modernidades da unificação do que com o que viu no período da cidade dividida pelo muro. “O que era, não é mais”.

Foi-se o muro. E com ele a tranquilidade. Berlim, sobretudo a oriental, virara gente grande.

Loyola chegou a Berlim pela primeira vez no dia 11 de março de 1982, no mesmo dia em que deixara de vez Araraquara, num mesmo 11 de março, porém de 1957. Voltaria a Berlim também em um 11 de março de 2000, mas só seria reconhecido como imortal num 14 de março, com três dias e alguns anos de atraso.

E, na mesma semana em que releio ‘O verde violentou o muro’ e rascunho essas linhas, o mestre é eleito, por unanimidade, mortal da Academia Brasileira de Letras. Mas para mim, Loyola já era eterno, desde aqueles anos 90 de descoberta daquela foto no jornal.

Obrigado, mestre. A culpa é toda sua.

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‘O verde violentou o muro’
Ignácio de Loyola Brandão
editora Global
13ª edição
400 páginas
globaleditora.com.br

* foto do abre: Jakob BPunkt/Divulgação

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