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10 anos sem José Saramago: conheça a casa-museu do Nobel de Literatura

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O interfone branco da casa de José Saramago e Pilar del Río nunca funcionou muito bem, o que algumas dezenas de vezes obrigou o próprio Prêmio Nobel da Literatura a se dirigir à porta para saber quem insistia em tocar a campainha.

Não raro, o visitante desconhecido do lado de fora – um fã em busca de uma dedicatória ou alguém para trocar palavras – era convidado para entrar e tomar café português na cozinha daquela casa branca com vista para o mar de Puerto del Carmen, nas Canárias, ilhas da Espanha.

Exatos dez anos depois de sua morte, lembrados nesta quinta (18 de junho), talvez já tenham até consertado o interfone, mas tudo segue lá dentro daquela casa que emprestou seus cômodos para abrigar um museu que até hoje serve como residência da família.

A gente nunca sabe se está em uma casa que virou museu ou se é um museu com alma de casa.

O relógio da sala ainda marca 16h, horário em que o escritor conheceu a esposa, o computador onde escreveu clássicos segue sobre a mesa de madeira da biblioteca, e o café ainda é preparado na cozinha para o recém-chegado. CONHEÇA OS CÔMODOS DA CASA

Casa-Museu de José Saramago, em Lanzarote, na Espanha (foto: dr_zoidberg/Flickr-Creavtive Commons)

A casa

Em 2015, o Viagem em Pauta visitou o local e foi recebido por Juanjo, filho de Pilar del Río, esposa de Saramago.

Localizada no município de Tías, em Lanzarote, ‘A Casa’, como é conhecido o museu, foi a residência em que o casal dividiu espaço com os cunhados de Pilar, por 18 anos, e local onde Saramago escreveu obras como “Ensaio sobre a cegueira” e “A viagem do Elefante”.

Durante uma conferência em Tenerife, em maio de 1991, José e Pilar aproveitaram a viagem para visitar os cunhados María del Río e Javier Perez, que já moravam nessa ilha de 845 km² de extensão. Apaixonados por aquele cenário de traços surreais, Pilar teria perguntado a Saramago com a intenção de fincar raízes por ali: “Nosso futuro passa por Lanzarote, José?”.

Não só o futuro, como também o presente e o passado.

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Biblioteca da casa/museu de José Saramago foto: Eduardo Vessoni

A visita guiada pelos cômodos da casa, transformada em museu em 2011, é como uma experiência literária ao vivo, em que os textos escritos pela própria Pilar vão sussurrando detalhes das vidas profissional e pessoal de Saramago, nos ouvidos dos visitantes que são acompanhados pelo áudio guia.

Assim como em sua obra, de textos marcados pela oralidade e pela pontuação nada convencional, a visita surpreende. Sobretudo quando o guia que lhe abre a porta da casa é Juanjo, o filho de Pilar del Río que também trabalha no museu.

A 140 km da costa da África e a outros mil da Península Ibérica, a casa se destaca em meio à paisagem vulcânica dessa ilha espanhola.

Parque Nacional de Timanfaya, em Lanzarote (foto: Eduardo Vessoni)

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Prêmio Nobel

No mesmo ano em que a Declaração Universal dos Direitos Humanos completava meio século, em 1998, o escritor José Saramago recebia na Suécia o Prêmio Nobel de Literatura.

Seria uma premiação cheia de coincidências significativas para o polêmico escritor que recusaria, um ano depois, o título de doutor honoris causa pela Universidade de Belém do Pará, em protesto contra o massacre de camponeses em Eldorado dos Carajás, em 1996.

Essa e outras histórias sobre o primeiro e único escritor de língua portuguesa a ganhar um Nobel podem ser escutadas em uma das experiências literárias (e turísticas) mais emocionantes em terras espanholas, ainda que a mil quilômetros dali e a 140 da costa da África.

Detalhe do escritório onde José Saramago escreveu “Ensaio sobre a cegueira” e os “Cadernos de Lanzarote”, nas Ilhas Canaŕias, na Espanha (foto: Eduardo Vessoni)

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