Vinhos brasileiros de 2020 são considerados “a safra das safras”

Foi meu unboxing mais etílico de toda a carreira.

Primeiro, um inesperado e-mail de confirmação da minha participação que começava com um conveniente “Amigo do Vinho” (sim, sou eu mesmo).

Logo depois chegaria em casa uma caixa alta e pesada com duas taças de cristal, uma ficha de degustação e 16 garrafas (eu disse, 16 garrafas) de 187 ml cada, devidamente, enumeradas de 1 a 16 para a primeira edição virtual da Avaliação Nacional de Vinhos que, há quase três décadas, acontece no Rio Grande do Sul.

Em um ano em que o brasileiro redescobriu o próprio país, forçadamente, por conta da pandemia, 2020 vai ser lembrado também como o da melhor safra de vinhos que o Brasil já teve na história da sua viticultura, por conta do clima favorável e das condições técnicas do Sul.

A prova disso foi a Avaliação Nacional de Vinhos do último sábado (7 de novembro).

foto: Jeferson Soldi/Divulgação

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Mais do que uma degustação técnica com avaliações sisudas para participantes nada especializados (como eu), o evento foi uma viagem sensorial que levou o público a degustar vinhos brasileiros, seguidos de definições que beiravam à poesia dentro da taça.

Entre tantas descrições possíveis para uma única garrafa, os rótulos (revelados apenas no final) traziam avaliações técnicas inspiradoras como notas “de abacaxi recém-aberto”, tons de “amarelo palha com reflexos esverdeados” e “volume harmônico”.

“Um dia especial e histórico. Uma avaliação inesquecível e marcante”

Daniel Salvador – enólogo

Organizado pela ABE, o encontro é considerado a maior avaliação de uma safra do mundo e aconteceu no Vale dos Vinhedos, a única região do Brasil com Denominação de Origem, certificação que garante a qualidade e a origem dos vinhos.

As edições anteriores aconteceram, presencialmente, na Fundaparque, em Bento Gonçalves.

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Avaliação histórica

Impedidos de fazer um evento presencial de grandes proporções, que chega a reunir mais de mil avaliadores por ano, os organizadores inovaram com uma avaliação online de vinhos brasileiros, em que 700 kits com 16 garrafas de 187 ml foram enviadas para que inscritos de todo o Brasil pudessem acompanhar a transmissão ao vivo pelas redes sociais, a partir do hotel SPA do Vinho.

“A Avaliação Nacional de Vinhos nunca mais será a mesma. Com este formato digital conseguimos chegar na casa de apreciadores de vinhos que nunca antes puderam participar deste evento superdisputado, que é único no mundo”, diz Salvador.

Que o digam os participantes do Acre que degustavam vinhos gaúchos em casa, a mais de 4 mil km dali.

Essa edição é considerada histórica por 4 motivos.

Eugenio Lira, sommelier do Chile (foto: Jeferson Soldi/Divulgação)

Além de ser a melhor safra que o Brasil já registrou, é a primeira online em 28 anos de avaliação coletiva, teve recorde de amostras inscritas (395 vinhos de 56 vinícolas) e um público de 21 estados, totalizando o envio de 11 mil garrafas.

A viagem virtual pelo mundo do vinho brasileiro foi costurada por música nacional, em inserções ao vivo do pianista Rodrigo Soltton, e pela participação de 16 comentaristas (11 deles, presencialmente) que avaliaram rótulos em categorias que iam de “vinho base para espumante” a “tinto fino seco”.

De acordo com relatório divulgado pela Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), a safra 2020 foi beneficiada pelo “clima seco e quente do final da primavera e verão”, favorecendo “a qualidade das uvas destinadas à elaboração de vinhos finos tranquilos e espumantes”.

A temporada foi marcada por temperaturas médias, favorecendo “maior potencial de maturação das uvas” e chuva abaixo da média normal, o que proporcionou um “período de colheita em condições favoráveis em relação ao regime de chuvas”.

“Esta safra veio para coroar todo esforço empenhado em anos de trabalho e pesquisa. Não se faz um vinho sozinho”, descreveu Daniel Salvador, enólogo e presidente da ABE (Associação Brasileira de Enologia).

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Bem, amigos do vinho…

Entre os avaliadores estavam o ator e enófilo Antônio Calloni, e o comentarista esportivo Galvão Bueno, enquanto o público degustava de casa a mesma amostra.

“Amigos de Baco. É tao bom ver como o vinho brasileiro cresceu de maneira espantosa, em qualidade e consumo”, começou Calloni, responsável em comentar a amostra 4, um vinho Riesling Itálico.

Definitivamente, a qualidade técnica da região levou o preconceito para longe.

“Todos nós temos uma luta muito grande de fazer crescer a nossa indústria e convencer os brasileiros. O nosso problema não é a qualidade, e sim o preconceito que ainda existe [com relação aos vinhos brasileiros], analisou Galvão Bueno, um dos 16 degustadores do evento.

Para quem não sabe, o comentarista esportivo é um dos produtores da bebida na região da Campanha Gaúcha, desde 2008.

Vinho com emoção

“Em todo trabalho da minha vida, sempre busquei excelência. Por isso, depois de ter me realizado como comentarista, pude me dedicar a outra paixão: os vinhos”, afirmou Galvão, responsável pela análise da amostra 15, um tinto de corte feito a partir de Cabernet Franc, Cabernet Sauvignon e Tannat.

“O Vale dos Vinhedos é a origem de tudo, no século 19 com os imigrantes italianos abrindo caminho para os primeiros vinhedos [do Brasil]”, explicou Galvão.

Só para se ter uma ideia, os vinhos brasileiros são produzidos em 26 regiões viticultoras, localizadas em 10 estados do país.

“Convido para que todos levem a sério todos os vinhos brasileiros e lhe deem uma oportunidade”, sugeriu Eugênio Lira, enólogo chileno e um dos profissionais convidados para avaliar um dos rótulos.

Foram quase 3 horas de transmissão e, 16 garrafas depois, o retrogosto de evento de sucesso persiste na boca até agora.

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17 Comentários

  1. Vem descobrindo os vinhos e me encanto com tanto sabor. Adoro vinho branco leve com sabor de quero mais. Gostaria de adquirir vinhos da Serra Gaúcha. Excelente material, feliz por nosso produto está se destacando cada vez mais.

  2. Sem dúvida o vinho brasileiro ganhou notoriedade. Evoluímos muito, e hoje temos qualidade e diversidade. Nossos espumantes são maravilhosos, e os tintos ganharam elegância. A tradição se uniu às técnicas, e os resultados são os melhores. Viva o vinho brasileiro!

  3. A distribuição em território nacional é um dos gargalos que dificulta o acesso à produção vinícola brasileira, além da ausência de incentivos fiscais. O papel da Embrapa Uva e Vinho e dos produtores brasileiros é essencial para este salto de qualidade que surpreende a cada ano. Cada vez mais o brasileiro tem argumentos pra conhecer a casa dos vinhos nacionais, oxalá um dia esses vinhos possam estar mais próximos da casa dos brasileiros.

  4. Boa a matéria, mas ressalvo, e não devo ser o único que pensa desta maneira, que não se trata de preconceito contra o vinho brasileiro e sim uma questão econômica, os preços dos vinhos nacionais são proibitivos!

    • Sim muitos comentários falando a respeito do preço ” vinhos Brasileiros” é que a nobre bebida é taxada pelo governo como bebida alcoólica e não como alimento ex Europa.

      E discrimina o vinho do Brasil é porquê fica esperando milagre em garrafas de R$:70,00 .

  5. Bom dia sou apreciador de algumas marcas nacionais, a casavalduga safra 2006, cabernet sauvion, ainda indiscutível, pena q não pude participar, mesmo assim vou procurar essa safra 2020, pois vem mostrar que o Brasil hoje e uma potência em grandes vinhos

  6. Não tenho muito conhecimento sobre vinhos, mas após ficar viúva ele constantemente me faz companhia, música vinho poesia natureza tudo isso faz parte de momentos felizes.
    A pandemia aumentou consideravelmente o consumo de vinho,uma bebida que tem uma energia ímpar, é indescritível a sensação de degustar um vinho sozinha ou com amigos, ele é sempre o elo das emoções. Parabéns aos envolvidos no processo dos nossos vinhos. Brasil tem condições para chegar ao topo no cultivo dos vinhedos.

    • Aprecio vinho, tomo bastante, porém concordo com o amigo no comentário anterior. Os preços nacionais são proibitivos. Temos que consumir a bebida com bom custo benefício. Adoro vinho

  7. Muito sugestivo o convite do enólogo chileno, sobre os vinhos brasileiros. Porém, deve se atentar que os preços dos vinhos brasileiros não são nada convidativos. Os próprios vinhos chilenos além de boa qualidade passam pelo crivo do dólar e saem muito mais em conta. O que falta prá que os vinhos brasileiros tenham esse mesmo padrão de preços
    E.T. Tomo vinho todo dia.

  8. Olá, te garanto que nao é preconceito, tomo em media 200 garrafas por ano de dezenas de países, o nosso vinho não é bom, é ruim, este ano comprei 36 garrafas dos melhores vinhos das melhores vinícolas.
    Se a pessoa nao entende e fica só no vinho brasileiro pode ser que consiga beber, apreciar etc.
    Estou de acordo com Dirceu viana filho, o dia que essas empresas contratarem quem entende de vinho para arrumar os defeitos de nosssos vinhos, talvez poderenos ter grandes avanços, por enquanto é de lastimar

    • Parabéns pela sua colocação.
      Estou de pleno acordo com tudo que disse em seu comentário.
      Nem perco meu tempo para comprar ou experimentar vinhos nacionais.
      Mais uma vez, faço minhas as suas palavras.

  9. Mesmo não tendo efetuado a compra do kit, acompanhei o evento pelo YouTube e fiquei fascinado com a qualidade do evento. Com relação aos vinhos do sul do Brasil, estamos melhorando muito e tenho certeza que em breve, o vinho brasileiro será respeitado mundialmente. Parabéns a todos os envolvidos!

  10. Caros gosto bastante de vinho e sim tenho o hábito de degustar alguns muito bons e outros nem tanto. Penso que realmente a qualidade vem evoluindo, mas ainda longe de altos padrões, é fato que em algumas degustações as cegas tivemos bons desempenhos. Mas o problema é o preço se você pega um vinho brasileiro e um argentino, chileno ou até mesmo europeus vai pagar o dobro do preço com igual ou qualidade inferior. Então tem que melhorar o custo de produção e não só a qualidade.

  11. O vinho Brasileiro tem suas caracteristicas e cada pais tem as suas, enquanto ficarmos nas comparações como em tudo o que fazemos, acredito que ficaremos apenas nas disputas de vaidades.
    Temos que aguçar nossos sentidos e que cada um deguste o vinho que pode pagar e agrade o seu paladar.

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