“Dois meses sem ver a luz do dia”: brasileiro relata drama na Ucrânia

Terminou no início deste mês, no dia 8 de maio, mais uma operação de evacuação de civis na região de Mariupol, às margens do Mar de Azov, no leste da Ucrânia.

Liderado pelo Escritório das Nações Unidas para Assistência Humanitária e pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha, o comboio foi responsável pela retirada de cerca de 600 civis, segundo António Guterres, secretário-geral da Organização das Nações Unidas.

Conforme informou a ONU, desde o início dos conflitos entre a Ucrânia e a Rússia, 10 milhões de ucranianos já foram deslocados e outros três mil civis morreram.

Um dos envolvidos nas ações na Ucrânia é o brasileiro Saviano Abreu, porta-voz do Ocha, Escritório Humanitário da ONU.

Em nota da ONU a que o Viagem em Pauta teve acesso, Abreu relata o drama de civis que chegaram a ficar mais de dois meses enclausurados em uma siderúrgica de Azovstal.

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“O principal impacto é exatamente o psicológico na vida dessas pessoas. Estamos falando de pessoas que ficaram dentro de um bunker, de um refúgio subterrâneo por mais de dois meses, sem acesso à água potável e com comida uma vez ao dia”, descreve o brasileiro.

Em seu relato, ele descreve também o pavor causado pelos constantes barulhos causados pelos estrondos de bombas, sem que as pessoas pudessem saber exatamente o que estava acontecendo do lado de fora.

A cidade de Mariupol após ataque das tropas russas (foto: Wikimedia Commons)

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Sem luz na Ucrânia

De Zaporizhzhya, cidade ucraniana que conta com abrigos e postos de orientações e apoio para quem quer deixar esse país em conflito com a Rússia, o brasileiro relatou também o drama dos resgatados, que chegaram a ficar mais de dois meses sem ver a luz do dia.

“Na chegada aqui em Zaporizhzhya, tiveram também assistência imediata com alimentação com comida quente, água e produtos de higiene, coisas que a maioria deles não pôde ter nos últimos dois meses”, conta Abreu.

Operação liderada por ONU e Cruz Vermelha retira civis de Mariupol, na Ucrânia (foto: UNOCHA/Kateryna Klochko)

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O porta-voz da ONU lembrou também que a evacuação em áreas em conflito é uma decisão voluntária, por isso algumas pessoas optaram por permanecer nas regiões de resgate.

Na semana passada, o secretário-geral da ONU, António Guterres, se encontrou com Vladimir Putin e Volodimyr Zelensky, presidentes da Rússia e da Ucrânia, respectivamente, e renovou seu apelo para o fim imediato dessa invasão russa que ele considera “uma violação da integridade territorial e da Carta das Nações Unidas”.


De acordo com suas impressões, após a viagem, não há qualquer “perspectiva de cessar-fogo, uma vez que o leste do país continua enfrentando ataques em larga escala.”

Até o fechamento deste texto, a ONU já havia conseguido fornecer ajuda para mais de 4,1 milhões de pessoas em 24 regiões da Ucrânia.

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Cansaço da guerra

O jornalista da BBC, Hugo Bachega, é outro brasileiro que está na linha de frente dos conflitos desde 24 de fevereiro, trabalhando em Lviv, perto da fronteira com a Polônia.

Segundo informou a ONU, Bachega se encontra, atualmente, em Dnipro, no sudeste do país, e nos arredores da usina de Zaporizhzhia, de onde relatou que as pessoas chegam a passar dias em um bunker, com pouca comida.

Mas para ele, o maior perigo são as pessoas se esquecerem do conflito.

foto: BBC/Divulgação

“Os ucranianos mesmo dizem que a imprensa já está deixando de noticiar com menos intensidade, e eles precisam da ajuda que o mundo tem dado. A imprensa não pode esquecer que tem uma guerra aqui”, pediu o brasileiro.

Para encarar a rotina pesada da cobertura do conflito, Bachega contou que os jornalistas se revezam no front e que ele deve retornar nas próximas semanas para Londres, onde mora. Porém, o brasileiro já tem planos (e datas) para voltar a trabalhar na Ucrânia. Para ele, a guerra “não deve acabar num futuro próximo”.

De acordo com a Unesco, a guerra na Ucrânia já matou nove jornalistas, de um total de 31 profissionais da imprensa assassinados em todo o mundo, só em 2022.


* fonte: ONU

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